30 mar

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Jesus e a faca peixeira

AQUI NO SERTÃO, JESUS! SÓ VAI NA PEIXEIRA!

Por mais de uma ocasião em minha vida, fiz o papel de Pilatos, algumas vezes encenação, noutras, literalmente. Quando Secretário Municipal de Agricultura, em Senador Rui Palmeira – AL (1998-2004), formamos, junto a comunidade católica, e a juventude, um grupo que encenava a “Paixão de Cristo”. Em plena sexta-feira Santa íamos pelas principais artérias da cidade. Francisco Soares fazia a locução, e o saudoso Adeilson Dantas, filmava e produzia. A peça culminava com o ato da Crucificação, na periferia. E eu lá, no papel daquele que lavara as mãos diante do tribunal, a qual submeteu Jesus Cristo a julgamento.

Está no evangelho de S. Lucas cap. 18,45;19,42:

“Pilatos saiu outra vez e disse-lhes: -Eis que vo-lo trago fora, para que saibais que não acho nele nenhum motivo de acusação.

Apareceu então Jesus, trazendo a coroa de espinho e o manto de púrpura.(…) Quando os pontífices e os guardas o viram, gritaram:

-Crucifica-o! Crucifica-o!

Falou-lhes Pilatos:

-Tomai-o vós e crucificai-o, pois não acho nele culpa alguma.”

Mas, e aí, Pilatos cometeu contra Cristo, crime doloso ou culposo? “No crime doloso a pessoa efetua o ato com intenção de causar algum dano a outro indivíduo(…) dolo significa má fé, ação praticada com a intenção de violar o direito alheio. Já o crime culposo, o agente do ato não teve a intenção de praticar o mal, o crime, mas mesmo assim obteve o resultado. A pena para um crime culposo é bem menor do que a de um crime doloso(…) (Fonte: Guiasdicasgratis.com).

Passamos a contar uma história (verídica) de uma encenação da Paixão de Cristo, ocorrida em plena sexta-feira Santa, num circo, na periferia de Arapiraca.(Fonte: João do Mato via E-mail)

“O elenco foi escolhido dentre os moradores locais. No papel principal, de Jesus Cristo, colocaram o cara mais “gato” do pedaço. Houveram vários ensaios, e às vésperas do evento, o dono do circo descobriu que “Jesus” estava de caso com sua mulher. Furioso, o corno deu-se conta que não podia fazer escândalo, pois corria o risco de perder todo o trabalho de montar a peça. Pensou, pensou…E teve uma ideia.

No dia da encenação anunciou que iria participar, no papel de um dos centuriões que açoitavam Jesus. Mesmo diante dos protestos do elenco, não se intimidou, e argumentou que nem precisara ensaiar, afinal o centurião que ia fazer, não falava nada! E eis que chegou o dia: Jesus carregando a cruz. O centurião começou a dar-lhe chicotadas, só que de verdade! Jesus reclamou, em voz baixa. O centurião contra argumentou:

-É pra dar mais veracidade a cena!

E toma chicotada. Lept! Lept! O chicote comendo solto no lombo do infeliz. Até que “Jesus” que já reclamara bastante, enfureceu-se de vez. Largou a cruz no chão! Puxou uma faca peixeira e partiu pra cima do centurião:

-Vem desgraçado! Vem que eu vou te ensinar a não bater num homem indefeso!

Resultado: O centurião correndo, “Jesus” correndo atrás com uma peixeira, e a platéia em delírio, gritava:

-Fura ele “Jesus” aqui é Alagoas não é Jerusalém!”

Fabio Campos 30.03.2013 No Blog fabiosoarescampos.blogspot.com o Conto: “PÁSCOA!”

28 mar

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Um menino da camoxinga

DESENHOO menino da Camoxinga, ainda mora no meu imaginário. Morar mesmo morava na Camoxinga. A casa ficava além da ponte e do riacho que dividia Santana do Ipanema ao meio. Na ladeira do Cemitério Santa Sofia. Num tempo, tão lá atrás, que nem havia calçamento de paralelepípedo, ladrilhando as ruas, afastadas. E tão pouco era o número de casas, que de cá do Monumento, dava pra ver o alto. E apontando dizia: -A casa que eu moro é aquela, amarela! Tá vendo? Nossos olhos iam pra lá. Um aceno de cabeça pra confirmar. Apenas confirmar, pois era muito provável que nem estivéssemos enxergando a tal casa amarela. E tendo certeza da dúvida, ele fazia questão de descrever como era: -Tem uma área na frente, um portão de ferro, muitas plantas! Com um pouco mais de atenção, talvez desse pra ver, sua mãe, cultivando uma nesga de húmus, que chamava de jardim. E haveria de debulhar um rosário de imprecações, se a bola traquina, dos meninos, fosse esbarrar nas suas plantinhas queridas, velhas amigas com que conversava toda manhã.

Às vezes fico pensando se tenha existido de verdade, o menino da Camoxinga. Se não teria sido apenas fruto da imaginação. Mas era tudo tão real. Porque meninos são seres de mente muito fértil, capazes de inventar histórias, inverossímeis, inimagináveis. E menino, era o que a gente nunca devia deixar de ser. Mesmo que o tempo se encarregasse de naufragar, lá bem dentro do corpo aumentado, a frívola, a mágica energia dos verdes anos.

Luiz André era um menino diferente. Jamais entenderei porque, seria necessário gastar quatro decanos de calendários, separando-nos tempo e espaço, pra chegar a tal constatação. Diferentes uns dos outros todos somos. Mas não seria dessa diferença, a que me refiro. Luiz André era um menino azul. Não que trouxesse o anil na tez. Azul cobalto era sua alma, e isso brotava no oceano dos seus olhos. Transparecia no piano do seu sorriso marinho. E mesmo o azul do céu, a brisa vespertina, vinha intrometer-se em seu cabelo liso em desalinho. E de tanto vê-lo trajado no brim da farda do Grupo Escolar Padre Francisco Correia, ficou assim, um menino Azul Cecília Meireles. E numa daquelas magníficas tardes, depois que a gente saía da escola, esteve a contar-me mais uma de suas inúmeras histórias fantásticas, que tanto me fascinavam.

Sentados a um dos bancos da praça, remexendo no que restara dos nossos lanches do recreio. A sua lancheira azul, em alto relevo trazia o desenho do capitão América. A minha, o Homem de Ferro. Observando outros meninos fazendo estripulias nos brinquedos do parque da praça, calmamente disse: -A minha casa é mal-assombrada. Estávamos no final de outubro daquele ano, e remendou: -Por esses dias fica ainda mais mal-assombrada! –Como assim? Quis saber. Com a proximidade do dia de finados, o Cemitério Santa Sofia ficava muito movimentado, o povo ia limpar e ornamentar as catacumbas. As almas dos defuntos, que não tinham ido pro céu, ou pra lugar algum, surtavam. Incomodadas com a presença de tanta gente barulhenta acabavam por vagar pelas redondezas. Iam perturbar a vizinhança. Derrubavam panelas na cozinha, quebravam pratos na pia. À noite acendiam as luzes dos quartos. Abriam torneiras da pia do tanquinho, do chuveiro. Ligavam ventiladores e o liquidificador. Espalhavam discos pelo chão, punha a vitrola pra tocar. O gato coitado, eles conseguem ver esses espíritos desencarnados, era o primeiro a desaparecer naqueles dias, pois não o deixava em paz. Também o cachorro lá no quintal, latia freneticamente e uivava de modo sombrio. Era como se chorando dissesse: –Socorram-me! Eles estão me perturbando! O próprio André presenciara, numa das vezes que fora acalmar o cão, de lá do breu do quintal, atiraram-lhe uma manga verde, sem que houvesse possibilidade alguma dum ser vivente ter feito aquilo. E os galhos da mangueira balançaram violentamente, ainda que não houvesse o menor resquício de ventania, na noite quente abafada.

Teve uma vez que estava dormindo, e acordou com alguém lhe chamando, pelo nome. Era voz de um menino. Procurou embaixo da cama, não estava. Revistou os cantos, nada. Abriu o guarda-roupas, encontrou. Um menino bem afeiçoado, bonito. De cócoras todo molhado, a roupa colada ao corpo, tremia de frio. Os cabelos castanhos, lisos, molhados, escorridos na testa. Os olhos grandes, de longos cílios, pareciam ainda maiores, arregalados. Disse que tinha medo. Medo de um homem muito mal que queria lhe fazer algo muito ruim. Disposto a ouvi-lo, sentou-se ao seu lado. Ouviu dele que o homem mal era seu tio, que havia perdido os pais, num acidente de carro. Por isso foi morar no sítio, com o irmão de seu pai, mas a esposa não gostava dele, lhe batia chamava-o de afeminado. Um dia o tio, que era alcoólatra, encontrou-o a buscar água no açude, arrastou-o pro mato, e abusou sexualmente dele. Pra ter certeza que não contaria a sua esposa, afogou-o. Também pra parecer que tinha sido ele mesmo que se afogara. André e Augusto ficaram amigos, e combinaram uma vez por ano se encontrarem. Dia de finados, seria o dia.

Muitas outras histórias seriam compartilhadas, bem como, muitos outros momentos bons. Nos banhos do rio Ipanema. Tantas foram as vezes que foram juntos a uma tropa de meninos, na maior algazarra, rumos pra além da Maniçoba. A um lugar chamado “Escondidinho”. Chegavam ao início da manhã. Escalavam rochedos pra se atirar perigosamente no turbilhão das águas bravias. Desafiando todas as leis do universo, o mundo era daqueles meninos. E se o gasto energético ocasionava a fome, saiam à cata dos frutos dos umbuzeiros, tubérculos, frutos e mesmo folhas. Ao aproximar-se a hora de deixar o “velho” amigo ficavam todos nus. Estendiam os calções para enxugar ao sol. E pareciam um bando de índios. E ficavam excitados e masturbavam-se por puro prazer, sem mesmo recorrer à visão de uma vulva feminina. Uma versão da Terra dos Meninos Pelados, nua, crua, sem poesia, longe de Quebrangulo, distante do sonho de Graciliano Ramos.

André convidava-me a fazer determinadas estripulias que sozinho jamais teria coragem de fazer. Roubar uvas no pomar de Doutor Clodolfo, desfrutar os mamões do terreno baldio do Grupo Escolar. Tirar tamarindo, escalando o muro do quintal de Dona Marina Marques. Surrupiar amendoim, um pouco de fubá e farinha de mandioca, dos mangaieiros, no meio da feira. Tomar banho no proibido, açude de Seu João Augustinho, ou na piscina da chácara de Doutor Aderval Tenório. Tentar entrar no circo por baixo da lona, sem pagar. Acompanhar o palhaço no meio da rua, anunciando o espetáculo, pra ganhar um ingresso. Tentar entrar no cine Alvorada, num dia de filme impróprio para menores. Um dia compramos uma garrafa de vinho de jurubeba, meio quilo de salame e alguns pães. E fomos pescar pitu no riacho do bode. Cheguei tarde e levei uma sova de meu pai por isso. Acabei aprendendo a usar o menino da Camoxinga como subterfúgio, atribuindo a ele, as coisas erradas que fazia e eram descobertas. Dizia: -Foi o menino da Camoxinga! Um menino que simplesmente nunca passaria de fruto do meu fértil imaginário.

27 fev

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Lenda Suburbana

O Serrote do Pintado é uma vistosa montanha que se estende a noroeste da cidade de Santana do Ipanema. Desde o sopé até o cume, coberto de exuberante mata nativa, a caatinga. Alheio a voraz sagacidade do progresso e da urbanidade, conserva-se intacto até hoje. Como que a desafiar o tempo e a civilização. Onças-pintadas, raposas, gambás, preás, saguins, jiboias e outras tantas variedades de serpentes e salamandras ali convivem, num verdadeiro santuário ecológico. Contam-se casos da existência de répteis tão grandes naquela floresta que teriam até virado lendas. Passadas de geração a geração pela boca dos contadores de histórias. Cobras gigantes, que já atacara alguns caçadores, matando-os e comendo-os vivos. Permissão nenhuma era dada para entrar, muito menos caçar, naquele bosque. Ato ilícito cometia os que ali adentravam e assim, nunca ninguém sabia direito quem fora, ou de que família era os que levavam sumiço. Indigentes, nunca reclamados, nem ao proprietário da mata, o prefeito, nem a polícia. Só os escutadores de causos, estes sim querem saber.

Quem se punha a andar ao sopé do serrote sempre pensava que nenhuma construção veria num raio de muitos metros. Só que, de repente, lá estava ela. Aparecia como que por encanto, a fazenda do prefeito Agamenon. Por entre árvores frutíferas, propositadamente cultivadas, com a finalidade de arejar, dar sombra em derredor da casa. No entanto muito ajudava a esconder a construção. A entrada era simples. Uma cancela, feita de madeira nobre em duplo xis. Sob um portal elevado em alvenaria. Ladeado por duas pilastras de pedras, dava uma aparência rústica. Não trazia no alto a denominação pelo qual era conhecida: “Castelo das Tucaias”. Concebida no declive, numa área mais recuada. Construção elegante e graciosa. Um casarão em estilo colonial. Feito com esmero. Arquitetada de modo a aproveitar as falhas do terreno, escarpado. As vigas, apoiadas em batentes de mureta propiciou espaço ao esconderijo alpendrado. Por entre a vegetação arbustiva, catingueiras e craibeiras.

Seu Jasão e o filho Josuel, estavam juntos a cocheira. Uma puxada, anexa ao curral. Cuidavam da lida diária da fazenda, iniciada com a ordenha matutina. De onde estavam, avistavam a patroa Dona Sofia. Uma bela senhora. Mulher de uma beleza sábia. Beleza que se descobre, a cada vez que se deita o olhar sobre suas feições de singela imagem. Nem a maternidade, muito menos a vida matrimonial tiraram dela, a graça, o viço juvenil, que aflorava na fugaz essência de seu ser. O cabelo preso. A um intruso observador, cabe o ilícito dever de imaginá-la desprendendo aquela linda cascata de fios sedosos e lisos a se derramar por sua espádua. Liberando no ar, a sua volta, o perfume suave e inebriante do seu colo. Nos lábios, suave tom purpúreo. Contrastando com a pele alva, e realçando ainda mais seu rosto e os olhos claros. Gracioso chapéu à mão, põe-no à cabeça. Uma bela dama. É a primeira dama do município.

Josuel nasceu naquela fazenda. Seu Jasão ali viu nascer, a ele, e aos seus onze irmãos. Também o prefeito Doutor Agamenon. Seu Jasão é capataz desde quando a fazenda ainda era do velho patriarca, o falecido Ulisses. De geração em geração, as vidas seguem seus dramáticos destinos: Daqueles que só vivem para serem servidos, e daqueles que acham que só servem para servir. Josuel rapaz de feições morenas. Dedicado no trato com as coisas rurícolas, aprendera a arte e o ofício com seu pai. É alto e forte, como o pai. A labuta no campo acrescentara ao rapaz, musculatura potente, rija, viril. Um mancebo de feições atraentes. Um rosto interessante, boca de lábios finos, olhos astuto, de águia, cabelo serrado, rente a cabeça. Braços e mãos de Titã. Pernas firmes.

Sofia, o observa com naturalidade. Muito embora no âmago, no mais intrínseco de sua alma, ela vai encontrar-se traída pelos instintos de mulher à admirar o belo rapaz. Volta o rosto para o Cavalo. Acreditando que o meneio de cabeça vai acabar por afastar o pensamento impróprio. O Cavalo é realmente uma bela espécie. Aqueles belos animais estavam ali disponíveis, servis, à suas ordens. O cavalo ela poderia montá-lo. E galopar pelos arredores da fazenda. Sob aquela montaria, verdadeira deusa grega, tendo um reinado inteiro a seus pés. Um dos vassalos ali, pronto pra obedecer às ordens de sua bela rainha. E ela Ordenou:

-Josuel! Traga-me o cavalo até o alpendre da casa.

E foi vistoriar os afazeres na cozinha. O cavalo que Josuel foi pegar pra sua patroa ir ao passeio, é um animal puro de origem. Cavalos possuem uma elaborada linguagem corporal para comunicar-se com seus pares. Dotados de ilhargas suaves que lembram a sensualidade das ancas femininas. Firmes e bem apoiadas em suas patas traseiras bem delineadas. O rabo é um acessório importante, se excluído propositadamente ou não, tira parte da beleza do animal. Sua cabeça conelínea, estreita próxima a boca e levemente alargada nos flancos e orelhas. Quando pressente sinal de perigo aresta as orelhas. Aguça visão e olfato dilatando pupilas e narinas. O pescoço é firme e largo, adornado pela crina, que quanto mais cuidada imprime mais beleza e sutil sensualidade ao animal. Cavalos selvagens são ainda mais fascinantes. Cavalos permeiam a história da humanidade. -Meu reino por um cavalo! Diria Calígula. O grande orador Cícero nomearia seu belo equíno, senador da republica romana. Josuel não ficando muito atrás, denominou o seu de Príncipe.

Sofia pediu que providenciasse outra montaria e a acompanhasse, não gostava de cavalgar sozinha. Nem suas filhas, nem Agamenon estavam na fazenda. O filho do capataz, estava radiante, gostava de acompanhar a patroa, nos passeios. Achava-a engraçada, pela sua falta de habilidade pra conduzir o animal. O equídeo, acabava levando-a pra onde bem queria. Josuel a socorria, servindo-lhes sempre de bate-esteira, função do segundo cavaleiro na vaquejada. Andaram pelos pastos, verdejantes. Um gado preguiçoso pastava, com paciência. Nem levantavam a cabeça com a aproximação do cavaleiro e da amazona. Tanto andaram que se aproximaram do início da mata. O misterioso emaranhado verde, contemplava-os em silêncio. Um descuido, e de repente o rapaz ouviu Sofia gritando:

-Socorro Josuel!

Ao ver a cena, ele ficou totalmente sem ação. Era um problema, surpreendente, inesperado. Nunca pensou que sua patroa, uma pessoa tão segura das suas atitudes, tão séria. Fosse cometer um ato tão infantil. Digno de criança travessa. Ao passar por baixo de um pé de cajueiro, agarrara-se a um galho e lá se encontrava suspensa pelos braços. Mas não era hora pra pensar, no ato traquino da senhora do patrão. O fato era real, e ela estava lá, dependurada a lhe pedir socorro. Por milésimos de segundos ainda contemplou aquele corpo tão lindo. Que ele tanto admirava, mas era a mulher do seu dono, totalmente proibido olhar se quer, com outra intenção que não fosse pra dar-lhe a atenção necessária quando falava. Quantas vezes, desviara os olhos, cheios de pudor, pra não ver seus lindos seios, às vezes com, outras vezes sem sutiã, quando curvava-se pra ver-lhe fazendo a ordenha. E agora ali, totalmente dependente dele. O lindo corpo a balouçar. Os braços esticados pra cima, delineava muito mais sua cintura, a blusa folgou atrás e exibia uma nesga de suas costas alva. Pele sedosa, que liberava no ar, um cheiro estonteante, pra aquele menino-homem, cheio de virilidade. Não precisou ela fazer um segundo pedido de ajuda. A mente do habilidoso vaqueiro trabalhou rapidamente e agiu. Colocou seu cavalo abaixo do local onde Sofia estava pendurada. Seus pés, balançavam, um pouco acima da linha do lombo do animal, sua cintura ficou praticamente a altura da cintura de Josuel que colocara-se de pé ao animal. Ele a enlaçou com seus braços fortes. Segurou-a firme pela cintura. E a colocou suavemente, a sua frente na montaria. Ao tempo que se pôs à garupa. Tudo isso durou apenas milésimos de segundo. Uma eternidade que ele não queria nunca que acabasse. Ter sua patroa, ali nas mãos era a realização de um sonho nunca antes sonhado. Sentia-se seu herói naquele instante, evitara que ela levasse talvez um tombo. Os cabelos de Sofia esvoaçavam no rosto do vaqueiro, que ao sentir o perfume liberado daquele corpo, seus desejos mais instintivos se acenderam. Se mais segundos perdurasse aquele instante, não mais responderia pelos seus atos. E o servil filho do capataz poderia cometer a mais louca das loucuras. O que poderia custar a sua vida. Mas a vida era nada, comparada ao prazer de ter nas mãos o objeto de um desejo proibido. Uma, uma grande insensatez. Prazerosa insensatez que acabaria por dominar o rapaz. Estaria ele, liberando o instinto mais humano e mais selvagem que existe em cada ser, em cada animal, em cada indivíduo macho ou fêmea. Há um dito que diz: o homem é o momento.

Sofia estava agradecida, talvez por isso deixou-se ficar mais aquelas resumidas frações de segundos envolvidas nos braços daquele que a tirou do perigo. Pra ele tanto significado tinha. Um ato bobo cometera, pensou ela. Precisava recompor-se urgentemente. Aquelas mãos, aqueles braços potentes a enlaçá-la, tirava-lhes do sério. Por frações de segundos esqueceu-se quem era. A mulher poderosa, não por ser esposa de quem era. Poderosa pela capacidade de neutralizar as forças de um gigante. De anular a fúria de um titã. Força de Eva, de mulher que seduz, que arrebata e doma, seja ele o mais bravo, o mais forte dos homens. E o coloca submisso à seus pés. Tudo vinha como vulcão do mais íntimo de seu ser. Tudo isso sempre esteve lá dentro dela. Só que estava adormecido. Tantos anos de dedicação somente a família. E agora sentindo-se mais mulher, mais senhora, muito mais poderosa. Não apenas por ser patroa. Aquela Sofia estava ali de volta, antes quieta, escondida num cantinho muito recolhido de sua alma. E aquele menino a resgatara. Era seu herói, não por tirá-la daquela situação boba. Pois o máximo que podia acontecer de grave, caso ele não tivesse feito coisa alguma, era ter conseguido uma torção no pé, isso curaria em alguns dias. O ato heróico, pra ela, estava em ele ter acordado, a Sofia mulher à muito adormecida nela. Que ela própria tinha posto pra dormir no seio de sua tão aconchegante e morna alma.

De repente um estampido ecoou pela montanha. Josuel foi atingido na perna à altura da coxa. Era o prefeito Agamenon que chegara naquele instante, e presenciando a cena de sua esposa entrelaçada com o mancebo no lombo da montaria, atirou no rapaz. Ferido, Josuel desceu Sofia do animal e cavalgou em direção a floresta. Dois tiros mais foram disparados, sem atingirem o alvo. A primeira dama novamente montou seu cavalo. Sem nada falarem os dois retomaram as veredas rumo à fazenda. Nuvens cinzas se fizeram pros lados de Santana prenunciando chuva. Enquanto se iam, a mata fechada mais e mais engolia o filho do capataz. Outro que tornar-se-ia mais uma lenda do serrote do pintado.

Fábio Campos 03/11/2010 É Professor em S. do Ipanema-AL.

27 fev

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Aloe Vera

Já havia três dias que o céu se fazia nubiloso. Três dias que o astro-rei, não dava o ar da sua graça. Ora chovia uma chuva fina e intermitente, ora torrencial e abundante, castigando Santana do Ipanema. Era manhã de inverno de um ano da década de trinta. Terceiro dia de precipitação consecutiva, Orimídio Bastos, à sua farmácia, na ladeira da Barão do Rio Branco, confabulava:

-Seu Antonio de Campos, costuma dizer, que os meses mais quente do ano são março e novembro, nesse sertão de meu Deus. E eu estou a dizer, que o mais chuvoso, sem medo nenhum de errar, é maio. Quando conheço alguém, nascido nessa região, nesse mês, penso logo: -Esse escapou! Não é brincadeira vir ao mundo num mês de maio, por aqui. Chove tanto! E tem que pedir a Deus pra não adoecer! As estradas com essas chuvas ficam intransitáveis.

Zeca Passaré, o jovem ajudante do farmacêutico, braços apoiados no balcão, apenas ouvia calado. Dedicava-se ao melancólico prazer de admirar a chuva. Não apenas olhava, via através dela. Seu Bastinho continuava:

-No livro de Gênesis, depois do dilúvio, Deus prometeu, que nunca mais ia acabar o mundo com chuva. Das duas uma: ou Deus se esqueceu da promessa, ou Santana está fora do mapa do criador, pois já faz três dias que chove! E não é chuvinha pouca não! É chuva dessas que molham com vontade. Dessas que se a gente for daqui pra ali, sem agasalho, molha até os ossos. Se brincar molha até o pensamento do camarada! As vezes dá a impressão que vai parar, mas apenas diminui. E torna a engrossar. O panema está em toda largura!

A cidade tinha cheiro de água barrenta. Do rio, um aroma forte de água nova, cheiro de piaba. As telhas das casas, sobejava gotejante, saturadas de água. As paredes soavam, sem conseguir dispersar em suas entranhas, tanto líquido. Os passarinhos de Seu Bastinho, bufos por conta de umidade, careciam de calor solar. Os borbotões de água da chuva nas sarjetas desciam dançantes alegremente pro rio, graças ao declive das ruas aladeiradas. Iam se ajuntar ao braço d’água que os índios batizaram de ypa nema, água ruim de beber. O riacho Camoxinga feito uma veia inchada ia dar sua contribuição e tornar ainda mais ameaçadora a cheia do rio.

-Bom dia! Seu Bastinho. Tião mandou avisar pra o senhor ir até a casa dele. Ainda agora mesmo!

O recado chegou na farmácia por Dona Maroquita. A casa de Sebastião Ganga ficava na rua Nova. Já sabia de que se tratava, Sofia a filha asmática de Tião com certeza tivera mais uma crise. Nesse tempo, não tem jeito, piora.

As cores das coisas esmorecem no inverno. Em tempo de chuva os recipientes de vidro embaçam de umidade. As vasilhas de estanho deslizam ao toque dos dedos. Bastinho tem no fundo da farmácia um pequeno consultório. Há ali um pequeno birô abarrotado de objetos: Estetoscópio, medidor de pressão arterial, martelinho medidor de reflexos, lanterninha, bisturi, luvas cirúrgica de borracha e bombinha de inalação. Talões, bulas e receitas médicas. Atrás do birô, uma espécie de bancada com uma imensa variedade de provetas e tubos de ensaio. Potes de porcelana com bastões de socar pra misturar ou obter o sumo de ervas. Numa prateleira acima da bancada diversos depósitos de vidro com tampas todos etiquetados, contendo plantas medicinais. A etiqueta informa o nome popular da erva, o nome científico e data que foi armazenada. Há uma tirada na prateleira só de livros, muito antigos,de folhas encardidas, todos de capa duras com letrinhas doiradas indicando na lombada o título e autor. A maioria de temas científico: Anatomia Humana; Plantas medicinais e Puericultura. Na parede um quadro com a efígie do presidente Getúlio Vargas.

Bastinho colocou diversos objetos dentro de sua malinha preta, pegou seu guarda-chuva. O aguaceiro dadivoso de Deus continuava sem dar trégua. Saiu dizendo a má sorte de ser boticário num fim de mundo daquele. Resmungava ladeira à fora. Criticava lá com seus botões, a administração municipal ao atolar o sapato na lama; a Sebastião por exigir tão empreendimento até sua casa naquela ocasião; e de São Pedro reclamava por mandar tanta chuva pra um só lugar por tanto tempo seguido. Podia suspender aquela amostra grátis de dilúvio, guardar uma parte pra quando viesse um ano seco. Pensando assim chegou ao destino. A porta da casa foi aberta pra dar entrada ao famoso homem das curas de Santana. O homem que abaixo de Deus, salvava dos males que atormentava o corpo. Porque os tormentos da alma isso era lá com o padre Bulhões.

-Bom Dia! Seu Bastinho. Seja Bem vindo! Vamos entrar a menina está no quarto, pode entrar…

-Bom Dia Seu Tião. Está vendo? Parece que São Pedro abriu as portas do céu e jogou a chave fora. Nunca vi tanta chuva por aqui, desde que cheguei de Pernambuco. E olhe que faz tempo.

Bastinho fez um exame médico na menina e receitou um xarope que ele próprio trouxe da farmácia e recomendou que se fizesse uma infusão com umas folhas de plantas.

-Faça pra ela um chá com essas folhas de Eucaliptus globulus Labill.

-Isso aqui é eucalipto!

-Eu sei apenas falei o nome científico. Assim que ferver apague o fogo e bote o vapor da vasilha pra ela cheirar isso vai aliviar muito o incômodo. Essa planta possui uma propriedade medicinal muito boa, o eucaliptol que não pode ser usado com muita freqüência pois pode irritar a mucosa nasal.

Bastinho ainda bem nem tinha encerrado o atendimento a Sofia e chegou um recado pra ir urgente a casa de Dona Genuína, esposa de Seu Sidronio machante, esta entrara em trabalho de parto. Não foi sem antes tomar uma xícara de café com as broas de Dona Isaura, a mãe de Sofia pois esta fez questão que ele não saísse dali sem provar.

Quando o farmacêutico saiu ainda caía uma garoa fina, tinha que ir a rua Tertuliano Nepomuceno, mais um santanense estava pra vir ao mundo por lá. Quando chegou ficou sabendo que Dona Flora parteira havia chegado primeiro. Não achou ruim. Recomendou pra que se providenciasse um fortificante pra parturiente e chá de Melissa officinalis. Isso segundo ele iria ajudar na produção de leite pra criança além de ser um ótimo calmante.

-E onde eu vou encontrar essa tal de Melissa, Melissa o que mesmo?…

-É erva Sidreira Seu Sidônio! Eu sei que vocês tem guardado folhas dessa planta em casa. Todo mundo tem.

Já ia perto do meio-dia quando retornou a farmácia. Havia uma ruma de gente querendo se consultar com o boticário. Um vaqueiro com uma luxação na perna, uma senhora e seu filho com catapora e um rapazote com um dente pra extrair. Esse atendimento levou a tarde inteira. Todos saíram com suas receitas à mão. Numa recomendava um pó anticéptico, um bálsamo e chá de Sambucus nigra “chá se sabugueiro”; noutra indicava um anti-térmico e chá de Jatropha gossypiifolia “chá de Pinhão-rôxo”; na terceira receita um analgésico em comprimidos e chá de Psidium guajava “chá de goiabeira”

Zeca Passaré se inventou de dizer que achava que ia gripar. Seu Bastinho recomendou em cima da bucha:

-Pois cuide de tomar um chá de Menta piperita a nossa tão popular hortelã-da-folha-miúda, Zeca!

Se ele próprio reclamava de dores nos rins. Prescrevia pra si mesmo:

-Preciso de um chá de Phyllathus niruri!

-E o que é isso Seu Bastinho?

-É o famoso chá de quebra-pedra, meu filho!

Já era noite quando Bastinho se dirigiu a sua residência. Ao descer a ladeira em direção a rua Professor Enéas, um tropel de cavalos ouviu às costas, ignorou pensando que fosse vaqueiros indo tardiamente lá pra o bebedouro. Não era, tratava-se de dois cangaceiros, que o arrebataram e levaram na garupa de um deles. Já era noite e a chuva continuava. Próximo ao Cachimbo eterno periferia de Santana indo pra Olho D’agua das Flores eles pararam os cavalos e vendaram seus olhos. Não sabe quanto tempo andou nem pra onde ia. Chegaram ao destino. Era uma grota escura. Quando tiraram-lhe as vendas, viu que estava bem no meio da corja do capitão Virgulino. Todos em silêncio o fitavam. Esperavam recompor-se. O capitão encarando-o severamente lhe disse:

-Seu Bastinho eu tenho um serviço pro senhor.

E mostrando uma tenda improvisada para amparo da chuva indicou-lhe:

-Ali tem um cabra ferido de morte. Eu quero que salve a vida dele.

Bastinho tentando enxergar no breu, adiantou-se até a tolda. Um homem ali jazia agonizante.Verificou o ferimento, era um corte profundo, feito a faca, a altura do peito esquerdo de onde jorrava muito sangue. Um candeeiro de querosene iluminava e enchia a lona de fumaça preta. As sombras tremiam. A chuva permanecia sem parar.

Bastinho olhou envolta, e viu muita catingueira e facheiro. Praguejou alto.

-Tanacetum vulgaris e Nerium oleander vocês não me servem!

Taterando no escuro feriu a mão mas sentiu uma imensa alegria por isso. E exclamou:

-Achei você! Aloe vera!

Um pé de Babosa ele quebrou uma hastes da planta tirou o gel gosmento e de forte cheiro untou toda a ferida do homem. E esperou o milagre acontecer. Pensava consigo: Aloe vera sarou as feridas de Jesus depois que o desceram da cruz, aloé verdadeiro vai sarar também esse desgraçado. O dia amanheceu. O cabra estava escape. Lampião deu ordem a dois homens pra levar Bastinho recomendando que o matasse num lugar distante dali. Por um tempo andaram a cavalo, finalmente jogado num banco de areia e depois o silêncio. Ficou horas amarrado com as mãos para trás, os olhos vendados, formigas selvagens a lhe roer as carnes. Esperava a hora fatal. Ouviu uma voz familiar, alguém se aproximou:

-Oxente Seu Bastinho! Quem peste fez isso com o senhor!

Foi desamarrado e a luz do sol veio bater-lhe no olhos, doeu mas sentiu prazer nisso, que saudade tinha do sol. Viu um rosto ainda mais conhecido que a voz. Era Passaré que tinha ido na beira do panema urinar e encontrou o farmacêutico seu patrão naquela situação. E voltaram pra farmácia. Orimídio Bastos sorria, achando aquele sol o sol mais bonito do mundo que lhe devolvia o sorriso.

10 jan

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A vida é bela

O sol iluminando, e acendendo as cores das coisas. O céu, infinitamente azul, as folhas das árvores esplendorosamente verde, o passarinho cantando docemente, muito além do fio de alta tensão. Pense nossa história como se ouvisse música. Uma bela canção, chamada vida. Como que embalados por uma melodia cotidiana, vamos contar dum tempo, especial. Início dos anos sessenta na cidade de Santana do Ipanema. É preciso que recordemos que à época, estávamos a apenas uma dezena e meia de anos, do término da Segunda Guerra Mundial. O mundo se recuperava fisicamente, dos horrores da guerra. Recuperava-se ainda mais, emocionalmente. Talvez por conta disso, as pessoas estivessem ainda mais sensíveis, mais humanas. Depois duma tragédia. As coisas adquirem novo sentido, novo significado. Santana, era parte desse mundo ressurgido das cinzas.

Um oceano inteirinho, milhares de quilômetros de espaço aéreo, centenas de quilômetros de estradas de rodagem e outro tanto de pistas asfaltadas, separava os sertões das Alagoas donde ocorreram os fronts de combates, os pelotões em ordem de batalha, as trincheiras, dos combates sangrentos. No entanto tudo isto estava muito presente, em nós. Como nuvem sombria, pairava sobre as mentes, sobre as ações. Ainda que cem décadas se passassem, não seriam suficientes para cicatrizar, as feridas de uma guerra mundial. Ainda mais que vivíamos, a espelho do resto do mundo, sob um sistema totalitário, o regime militar.

A escola copiava o sistema vigente. A farda, a disciplina, o amor a pátria. Cantar o hino nacional antes de adentrar as aulas. Ter respeito aos símbolos nacionais, a bandeira, o brasão da república. Todo soldado era símbolo de dedicação, honradez e disciplina. Na semana da pátria um militar era convidado à escola para instruir os estudantes como deviam se comportar por ocasião do desfile cívico. Nas casas vivia-se o modelo patriarcal de viver. O pai era a figura central da família, a ele se devia todo respeito. A mãe era símbolo de amor, de dedicação a sua prole. A mulher ao se casar, no mais das vezes renunciava de qualquer ideal puramente seu, para dedicar-se exclusivamente a família.

A vida é bela, se nobres são os ideais. Tecnologia de ponta era máquina de costura Singer, onde em casa, se fazia as roupas. Um rádio receptor anunciando o “Repórter Esso”. Uma geladeira arredondada nas curvas de puxador engraçado, com um pinguim capitaneando por cima. Televisão em preto e branco era pra poucos. O melhor programa para a tarde, era ir até a casa da vizinha, conversar, falar da saúde dos filhos, de uma receita de bolo, um remédio caseiro, pra tosse, óleo de rícino e mastruz com leite pros vermes, banho de Samba Caitá pra cicatrizar mais rápido as brotoejas e o sarampo. Rever cartas à muito guardadas, amarradas com fita de filó, cheirando a Colônia de Alfazema. A vitrola ABC “a voz de ouro”, tocando Dalva de Oliveira.

“Vê estão voltando as flores

Vê nesta manhã tão linda

Vê o sol iluminando

Vê há esperança ainda”

Sobre a cristaleira a compota com doce de goiaba em calda, semeado de cravos da Índia. Peças de porcelana esmaltada com desenhos que lembram a aristocrática corte francesa de Luiz XV. Na parede o retrato do pai a cryon. Biscuit na copa e a “Santa Ceia” na cozinha. Um cena bucólica da caça a raposa ao estilo inglês. O álbum de fotografias com capa dura, plastificada, com gravura de um buquê de rosas vermelhas sobre um lenço violeta. Ao ser aberto acabava deixando cair uma foto velha desbotada, em preto e branco, picotada nas bordas, largada das cantoneiras. Uma bela moça com cabelo em coque olhava sabe Deus pra onde, talvez pro futuro, pois sorria. No verso escrito a lápis grafite: “Cara irmã! Guarde esta lembrança que lhe dou com muito carinho. Daquela que muito te ama! Ass. Maura 12.12.63”. Noutras fotos várias moças pousam num lugar público, uma praça talvez. Vestido tubinho, um lenço entrelaçado no queixo, óculos de grandes lentes escuras, bolsa de mão a tiracolo, laquê no cabelo. Lembravam Jacqueline Kennedy, ao fundo um aero willys conversível, rabo de peixe .

Uma lata de biscoitos lembrança do natal passado, contendo sucrilhos caprichosamente feito de nata e manteiga, sobre a mesa. Os homens iam ao passeio matinal vestindo calças justas, de tecido, camisa tergal e volta-ao-mundo, no cabelo muita brilhantina pra imitar Elvis Presley. Papai ficava na cadeira de palhinha, folheando a revista Seleções de Reader’s Digest, o Almanaque da Fé, a Revista “O Cruzeiro”, sempre lia em alta voz, a coluna do Davi Nasser. As propagandas eram desenhos e mostravam pessoas felizes com suas famílias: Toddy, Arrozina e Maizena, sabonete Phebo Life Buoy, Creme Dental Kolynos, as pílulas da vida do Dr. Scholl, pomada Minâncora e Biotônico Fontoura. E o mundo, do pós-guerra se dividira em dois blocos, o Brasil ficou do lado dos norteamericanos. O presidente John Fitzgerald Kennedy combatia duramente o governo de Fidel Castro, na Ilha de Cuba, porque era comunista. Comunismo chegou pra nós como símbolo de anarquia. Seus simpatizantes eram perseguidos com mão de ferro. Versos considerados subversivos eram recitados às escondidas nos porões das reuniões secretas dos dissidentes políticos:

“Cuba sy! Cuba sy!

As fileiras americanas

Fidel Castro é comunista

Até disse que Batista

Matou vinte mil cubanos!”

A casa de Felício era vizinho a Bodega de Seu Ozéias. A gente estudava no Grupo Escolar Padre Francisco Correia. Um dia chamou-nos para mostrar mais um de seus inventos. Pois ele se considerava um cientista. Apelidavam-no cientista maluco. Era apenas um menino. Numa sala escura, fez passar o feixe de luz de uma lanterna através de um orifício numa caixa de sapatos, onde previamente havia inserido uma lâmpada de bulbo, cheia d’água. Interpondo um pedaço de película cinematográfica à luz e ao bulbo, projetou sobre a parede uma imagem gigantesca! Eureca! Felício reinventou o cinema.

07 jan

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O sujeito que matou outro por causa de uma pecha

Essa é a história de como e porque um amigo matou o outro por causa de um apelido. Metódio Calixto nunca foi desses almofadinha saído das entranhas de escritor romancista, que nem sabe o que é sofrer na vida, não foi não. Seu Metódio foi gente de verdade, homem de carne e osso, cabra macho do sertão das Alagoas. Metódio rijo, substanciado. Substancial também, criado com leite de vaca no tempo comum, leite de cabra, no tempo da fartura, e leite de jumenta no tempo das vacas magras, ou mesmo pra tirar uma maleita do corpo. Esse caboclo lanzarino, de quem vos falo, tinha as mãos calejadas, e seus braços eram dois verbos chamados trabalho.

E quando vinham os dias grandes, de festas. Festa do feijão e da padroeira Senhora Santana. Seu Metódio e a família rumava pra cidade. Nessas ocasiões, punha traje caprichado. Tradição de pai pra filho. O homem colocava um terno de tecido azulão com uma camisa de manga comprida por dentro, uma gravata borboleta, uma flor na lapela. Na cabeça, um Prada enorme. De botas canos longos e espora montava em seu cavalo alazão e puxava o cortejo. Atrás vinha o carro de boi com os filhos e a esposa. Os meninos todos com camisas e calça de tecido dum azul claro, monocromático. Nos pés, alpercatas de couro cru, na cabeça chapéu de couro. A esposa com o filho mais no novo no braço, trajava um vestido de chita, com estampa de flores, uma sombrinha colorida. O eixo cantando, carro de boi avançando, deixando pra trás um rastro de bosta de boi e cheiro de água de colônia.

Eulâmpio Dorotheu também era homem do campo. Tão real que, se o que a gente escrevesse exalasse cheiro, só em falar dele, daria pra sentir o bodum, entranhado nele, dos bodes e dos porcos que criava. Galinhas de capoeira no terreiro, e se dessem chance entravam de casa adentro. E galinha sabe como é não é? Elas emporcalham tudo por onde passam. Na época da seca, se valia dumas tarefas de palmas que cevava o ano inteiro pra alimentar meia dúzia de cabeça de gado. Um silo de trincheira cheio de forrageira, capim búfeo, capim pangolão e guandu pra aplacar a fome dos bichos. Sua propriedade ficava vizinho a de Seu Metódio. Família numerosa tanto quanto. Se inverno era tudo fartura. Tudo verdinho, verdinho, no aceiro, pega-pinto, pião roxo, catingueira. Os meninos iam tudo na roça colher feijão. Por trás de casa se formavam grotas o que propiciava a semeadura de hortaliças. Esparramava que era uma beleza, tomate, abóbora, melancia. No dia de bater o feijão, os vizinhos juntavam todos os filhos e iam para o terreiro de casa era uma festa.

Os dois amigos vizinhos se conheciam desde pequeno. Ali nasceram e cresceram. Herdaram as propriedades dos seus pais. Estudaram na escola isolada de Olho D’água do Amaro, sem que chegassem a concluir o primário. Sabiam ler, malmente escrever um bilhete, porém cubar a área de uma propriedade os dois sabiam. Mas entre aqueles dois roceiros haviam lá suas diferenças. Seu Metódio era organizado pra tudo que fazia, e gostava da limpeza, já Seu Eulâmpio era um jeca, desleixado, e não se importava com a aparência. Isso dava pra notar olhando pra um e pro outro, pra suas casas, pros bichos que criavam e pra roça também. Dava gosto ir até a casa do primeiro, tudo muito simples, pois pobreza nunca foi sinônimo de miséria. As galinhas ficavam presas num Grajaú, o chiqueiro do porco bem cuidado. O curral limpo e a ordenha ele fazia observando toda uma técnica de higiene. Seu Metódio era metido a inteligente, quando recebia a visita do agrônomo do banco deitava conhecimento pra cima do homem. Dizia ele que todos os dias lia a Bíblia. Sempre que os dois amigos conversavam acabavam discordando um do outro. Sempre divergiam de opinião, fosse lá o fosse. Isso vinha desde a infância. Quando eram pequenos lá no pátio do grupo escolar, nas brincadeiras em que havia disputa, eles acabavam brigando. Quando isso acontecia, e sempre acontecia, eles não se intrigavam, porém inventavam apelidos um com o outro. E na primeira ocasião apelidavam-se mutuamente.

Aqueles homens severos, dados com a lida no campo. Tinham gosto em comum. Quer ver uma coisa que eles gostavam. Gostavam de corrida de vaquejada, da festa de apartação, de corrida de argola. De correr na pega de boi brabo solto na caatinga. E todo um ritual teria de haver antes de se embrenharem na mata. Um padre desses que gostam de dinheiro, de política e buchada de bode, era trazido pra rezar missa no terreiro da fazenda do prefeito, e recebia entre as oferendas, os paramentos do vaqueiro, chapéu de couro, perneira, peitoral e gibão, corda e chocalho. E em meio ao canto lamuriento do aboio, e o toque do berrante, sorviam grandes goles de aguardente, engoliam nacos de carne assada com farinha e punham um sinal da cruz sobre a fronte. Vida de gado não é adjetivo metido a besta, que vive de boca em boca todo boçal. Vida de gado é objeto direto. Espinho de mandacaru furando a carne, ferro e brasa. Assum preto cego dos olhos, goela seca, poeira vermelha entupindo as ventas, gosto de sangue pisado, na boca. Suor escorrendo na testa e moscas sobrevoando versos e pronomes.

Tem um ditado que diz que Deus não dorme, e parece que o diabo fica lá longe espiando. E não é que os dois vizinhos se meteram em mais uma discussão e Seu Metódio num rompante de fúria, sem saber como, lembrou-se do apelido que o vizinho tinha na infância: “-Barrão coxo!”. É que Seu Eulâmpio realmente tinha um defeito que o fazia puxar duma perna. Pra ir pra cidade Seu Metódio tinha que passar na frente da casa de Seu Eulâmpio, e como permanecia a rixa, Seu Metódio sempre que passava apelidava o amigo desamigo. Uma semana, quinze dias, um mês e toda vez o apelido. E veio uma manhã de sábado que o homem amanheceu pelo avesso, no momento que o vizinho ia passando que o apelidou recebeu foi o tiro. De espingarda em punho Seu Eulâmpio saiu direto pra delegacia, foi se entregar as autoridades.

E eis que veio o dia do julgamento. O advogado de Seu Eulâmpio iniciou a defesa caprichando no pronome de tratamento do “Meritíssimo senhor juiz de direito!”. Até aí tudo bem, as formalidades no trato entre os integrantes das causas forenses exigia o protocolo. Ocorreu que o causídico continuou insistindo no pronome tratamentoso, não parando mais de repetir o tal jaculatório. O excelentíssimo senhor juiz, irritado de tanto repetência, do “Meritíssimo”, explodiu aos berros dizendo pra o advogado parar com os comprimentos iniciais, e prosseguir a defesa. Porém o jurisconsulto contra argumentou: “Meritíssimo Senhor juiz! Até o presente momento tudo o que tenho feito foi elogiá-lo, com um pronome de tratamento, que em muito enaltece, o nobre colega. No entanto vossa excelência se mostra profundamente irritado!” E virando-se pro corpo de jurados concluiu. “Agora imaginem senhores jurados, o Meritíssimo senhor juiz, que é um homem versado nas letras, se irritou com palavras polidas que só lhe teciam elogios. Agora imaginem este homem rude, trabalhador rural. Todos os dias apelidado, pelo seu vizinho. Todo dia sendo humilhado, diminuído na sua moral, com adjetivos depreciativos perante sua família. Quantos de vocês aguentariam isso?” Seu Eulâmpio foi absolvido.

24 dez

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Um milagre de natal

Era natal. A mata branca com sua vegetação tórrida, e suas veredas tortuosas. Com um pouco de imaginação, daria pra comparar às paisagens igualmente inóspitas do pólo norte, coberto de neve, dos singelos cartões. No sertão, apenas a noite, é que dizia que era natal. Nos piscas-piscas dos jardins, nas fachadas das casas, nas bolas coloridas enfeitando as árvores. E nas vitrinas das lojas, com seus papais Noéis de bochechas rosadas, longa barba branca e gorro vermelho, sorridentes, diziam que era natal. Dois jovens enamorados Breno e Cláudia se encontravam na saída do Ginásio Santana.

Manhã natalina, algazarra de estudantes a saída do educandário. E ele percebeu-a preocupada. Sentados ao banco da Praça do Monumento. A farda azul e branca, combinado com o céu anil salpicado de nuvenzinhas de algodão. O semblante carregado, olhando lá pra torre da igrejinha de Nossa Senhora da Assunção, ela disse-lhe: -Estou grávida. Disse como alguém que diz que está com uma doença grave. Como alguém que talvez não fosse ela, havia acabado de falecer. Virando-se pra Breno encontrou um fantasma. Pobre rapaz, lívido, que mesmo sem falar dizia: -E agora o que faço? -O que digo? Não tinha a menor ideia do que deveria dizer numa hora daquelas. A confusão de pensamentos não lhe permitia emitir qualquer palavra. Talvez fosse melhor pensar que tudo não passasse de uma brincadeira. E que ela estivesse revivendo uma cena de novela que tinha visto na televisão. Enganava-se, era a novela da vida, vivida em tempo real. Não se sentiam culpados por nada.

Em fração de segundos, suas vidas passariam como um filme. Todos os personagens desfilaram pelos seus pensamentos. Cláudia comentou que se sentia enganada, por tudo que estava acontecendo. Disse que Breno era igual a todos os outros rapazes, que pra conseguir o que queriam, diziam que tudo ia dar certo. Sem saber por que Cláudia se lembrou do pai, Seu Alfredo. Lembrou do dia que fora se despedir dele, na Estação Rodoviária, indo embora pra São Paulo, se separou de dona Carmen sua mãe, cinco anos já haviam se passado desde então. Lembrou de sua mãe também, deixando-a com vó Emília e indo embora pra Belém do Pará, com um caminhoneiro chamado Zé Ribamar, que transportava madeira. Aquela união acabaria não dando certo. Sua mãe Carmen, não voltaria mais pro sertão, não tinha dinheiro. Em Belém, fez de tudo. Foi diarista, trabalhou de cozinheira, garçonete, recepcionista de hotel. Quando completou cinquenta anos, fez uns exames e descobriu um câncer no útero. Morreria abandonada num leito de hospital, sem mais ver sua única filha. Sem saber que Cláudia, apenas uma menina um dia qualquer iria ser mãe.

Breno, um belo rapaz. A mãe professora estadual e o pai funcionário federal da Companhia Telefônica. Decidiram que mandariam o filho pra capital pra terminar os estudos. O deslize que cometera com aquela menina, não poderia comprometer o futuro brilhante que sonhavam pra ele. E Cláudia teve que se virar sozinha, continuou morando com a avó Emília na Rua Ormindo Barros, em Santana do Ipanema. Com a ajuda das amigas fez chá de bebê. E nove meses depois, saudável, pesando dois quilos e trezentas gramas, de cor branca como era o pai, no hospital Doutor Arsênio Moreira nasceu Maria Vitória. Não se parecia com a mãe que era uma linda morena.

O mundo continuou dando suas voltas. Muito sol brilhou no sertão fazendo o suor pingar da testa do caboclo no rabisco do arado. E na capital Bruno se formou, terminou o curso de advocacia. Em meio a vida de República, muita bebida e farras, mesada dos pais todo mês, o suor vertido no rosto ali, somente na praia, sentindo a brisa do mar balançando as palhas dos coqueirais ao som de música preguiçosa:“Ai Ai que saudade ai que dó/ Viver longe de Maceió/Alagoas tem jóias tão raras que meus olhos não cansam de olhar/Uma delas és tu Pajussara/Praia linda na terra não há ”.

Breno era idealista, esteve à frente das lutas sindicais e universitárias. Nos movimentos grevistas enfrentou a polícia, saiu nas manchetes dos jornais. Virou líder estudantil, dissidente político. Candidatou-se a vereador em Maceió, ganhou. Conheceu e casou-se com uma jovem arquiteta cujo pai era dono de uma empresa imobiliária, renomada no estado de Alagoas. Contratado pela empresa do sogro ascendeu economicamente. E só vinha a Santana do Ipanema, pra rever a família, na Festa da Juventude. Parecia pouco interessado em saber como estava sua ex-namoradinha Cláudia, do tempo de rapaz, muito menos se o bebê que tivera era menino ou menina e que nome tinha. Pouco lhe interessava saber que Cláudia tornara-se enfermeira, trabalhava no Posto de Saúde Municipal da Rua da Praia. E que havia se juntado com um rapaz chamado de Renato, que gostava de vaquejada, e vivia da venda de motos e carros usados. Feito pião lá se ia o mundo, fazendo redemoinho com a poeira das estrelas.

Maria Vitória, estudou no Grupo Escolar Padre Francisco Correia. Numa das muitas vezes que foi encontrar a mãe, conheceu um rapaz, lá da Rua da Praia, chamado Clovis, que sonhava em ser jogador de futebol, não gostava muito de estudar, que só tinha dezesseis anos e Maria Vitória catorze. Por isso a mãe proibiu o namoro. Com a ajuda da avó Emília, Cláudia conseguiu mandar Maria Vitória pra estudar na Escola Técnica de Satuba. Desde então ela só vinha pra Santana na Festa da Juventude. Numa dessas festas Clovis encontrou Maria Vitória, os dois ficaram. Ao ir ao banheiro um rapaz da cidade de Batalha desentendeu-se com Clóvis e atirou contra ele. Levado ao hospital de Arapiraca, ficou em coma. Um dia abriu os olhos. A primeira coisa que viu foi um teto branco, uma luz acesa. Na parede ao lado, um papai Noel. A porta se abriu, duas pessoas entraram. Os olhos embaçados, a boca seca. Reconheceu apenas sua amada, que num largo sorriso, disse-lhe sussurrando ao ouvindo: -Feliz Natal, futuro papai!

12 dez

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O Quinto Dia

“…Deus criou os monstros do mar, e todas espécies de seres vivos que em grande quantidade se movem nas águas, e criou também todas espécies de aves que voam no céu. A noite passou e veio a manhã. Esse foi o quinto dia. Gênesis 20-22”

Essa é uma história bem antiga. O que vamos contar se sucedeu há trezentos mil anos atrás. Sobrevoando iremos por toda a extensão do vale do Caiçara, por ali vamos. De cima dava pra ver bem, o delta do rio Ipanema, deitado eternamente em berço fulgurante. Dantes, coberto por esplêndida vegetação. Aonde um dia, surgiria o município de Santana do Ipanema. Uma floresta tão densa que não dava pra ver o solo da primitiva pátria mãe. E a flora era dum colorido fantástico, reluzente. Como se briófitas e liquens emitissem raios de luz, produzindo um efeito etéreo, mágico. Como se lá no meio da mata escura, cogumelos luzidios alumiassem aldeias, algumas imaginárias. Não fazia muito tempo, e estávamos na Era do Gelo. Imagine que o céu, se apresentava em duas tonalidades, no horizonte uma nuance violácea, no firmamento um azul de um céu profundo, se tornando cada vez mais escuro à medida que afastava da estratosfera do recém criado, novo mundo. Deus, por essa época, se ocupava, experimentando a Criação. Os planetas, já Ele os havia feito, porém ficaram muito próximos da Terra, de modo que ao observar o céu, dava perfeitamente pra vê-los, sem necessidade de aparelho algum. Saturno com seus anéis, multicoloridos, alternando camadas de pequenos meteoros, e nuvens de gás neon. Plutão, imenso, misterioso, como se a qualquer momento fosse sair de lá dentro, da sua superfície gasosa, um ser mitológico, alado, dotado de três cabeças com potentes chifres, a boca demasiadamente aberta com presas ofídicas, uma couraça revestindo seu corpo, e a ponta da calda terminando em seta. Ameaçava atacar a Terra, porém passava, rente, de modo que se alguém escalasse uma montanha e estirasse o braço seria capaz de tocá-lo. Mas o dragão seguia seu caminho. Ia pela via láctea espalhando as estrelas, deixando um rastro de poeira cósmica.

O sol, uma gema em fogo, mais parecia uma lua vermelho-alaranjada. A quentura mal chegava a terra, E sua luz parecia iluminar somente a ele próprio. A lua ao seu lado, ainda maior do que se apresenta hoje, parecia soprar sobre a terra, uma brisa cor de prata, gélida, que tornava o ar rarefeito, metálico. Deus havia feito tudo isso. Ele o fez. E todas essas coisas estavam muito próximo da terra. De modo que ao longo de muitos milênios lentamente iria se expandir, indo ocupar o lugar, onde se encontram hoje. Essa proximidade de todos os astros e estrelas com o nosso planeta, acabaria por tornar a gravidade da Terra inconstante, de modo que imensas porções de terra e pedras flutuavam na atmosfera. Olhando o horizonte, via-se ilhas de blocos de terra e pedras, como que navegando feito balões. E eram habitadas por gigantescas aves de penas, bico e garras, mas havia também aves com características de répteis, que ao voar emitiam um canto, um longo silvo estridente, como se comunicassem com outros da mesma espécie. Dentre todos eles o mais temido era um que tinha cabeça semelhante ao cavalo, e que lhe cairia bem o nome de Pegassus bucefalus. Dotado de patas que permitia cavalgar, e asas que atacava outras espécies em pleno vôo.

Briófitas que emitiam luzes de cores variadas que correspondiam e identificavam cada uma das espécies. Colibris e mariposas específicas para fecundar cada espécie. Plantas com sensibilidade ao toque, que se abriam somente em determinados momentos e fechavam-se ora pra facilitar os animais alados que promoviam sua fecundação, ora pra capturar suas presas. Escaravelhos que eram atraídos por feromônios. Essas plantas revestiam o solo sedimentar. E possuíam sensibilidade tanta que se recolhiam ao simples toque de elementos invasores. Pterodófitas se elevavam a muitos metros do chão. Os elementos mais presentes ali era oxigênio e hidrogênio. E em menor quantidade enxofre liberado de algumas fendas que existiam no solo. Angiospermas e gimnospermas rica em flores e frutos, de variadas espécies. Ananás, de nuance vária, que brotava nos cardos e pântanos. Árvore de frutos nodosos e atraentes que muitas vezes escondiam armadilhas biológicas, seivas leitosas, resinas odoríficas. Algumas possuíam glândulas por onde liberavam nuvens de pigmentos e tinturas, caso se sentissem ameaçadas. Enormes tapires, javalis e porcos selvagens habitavam as margens do rio e cavavam tocas onde moravam e se refugiavam de tigres de sabres, jaguares e lobos do gênero Canis lupus. Micos habitavam as copas das árvores, e para se camuflar escolhiam árvores de acordo com a cor de sua pelagem. Azuis, amarelos e vermelhos.

Mamíferos, de linhagem mais evoluída que os símios habitavam palafitas ao longo do delta do rio Ipanema. Tribos de primatas, homens das cavernas. Havia os que moravam nas grutas, e outros que para se protegerem das feras, moravam em palafitas, assim era. Ao contrário do homem de Neanderthal, nossos ancestrais não possuíam o corpo coberto de pelos, provavelmente por não viverem em terras geladas. Nossos primeiros habitantes tinham o corpo liso, cabelo espesso e duro, eram pardos. O crânio levemente achatado. Olhos fundos, bocarra, e não tinham barba. Tronco e tórax e membros superiores bem desenvolvidos. Eram exímios nadadores. Viviam da caça e da pesca, da extração de frutos e tubérculos. Já moldavam suas armas e utilizavam o fogo. Feições de homens e mulheres eram muito semelhantes, somente as mamas desenvolvidas nelas, os diferenciavam.

Nesse paraíso viveu Joaracy e Coaracy, um casal de nativos. Nas imediações das terras onde um dia seria o Sítio Laje dos Barbosa. Teve uma ocasião que veio uma tempestade, o rio Ipanema avançou sobre as palafitas, afogando muitos primatas. Joaracy e Coaracy estavam caçando, interromperam a caçada e retornaram a gruta que habitavam. Os afluentes do Ipanema também transbordaram. E as águas soterraram a gruta onde o casal de nativos se abrigava. E o mundo girou, e o tempo avançou. Trezentos mil anos depois, e chegamos a Era Cenozóica da Terra. Período Quaternário, Idade Contemporânea. Lá estava Inácio, professor de história, estudioso de arqueologia, realizando escavações naquele mesmo local. Passou quatro dias escavando, sem nada encontrar, estava pra desistir daquele lugar. E eis que no quinto dia, encontrou. Os corpos fossilizados de nossos heróis, e a ossada de outros monstros que também pereceram na grande tempestade.

01 dez

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Correntes e Acorrentados

Conto por Fabio Campos

Cidade de Santana do Ipanema, de ruas e praças espraiadas no tabuleiro inconstante do rio. As casas, teclado vivo de um órgão descomunal, melodiavam uma melodia diuturnamente, intensa, incansável. Ora suave e relaxante, ora extravagante e profusa. Ainda assim sonoridade semi Vivaldiana.

Magníficas elevações serranas circundantes lembravam, aos deslumbrados contempladores, ursos hibernantes. E o povo como que em êxtase, dormia um sono acordado, e o mais que sabiam, era ouvir e contar histórias. Reais ou inimagináveis, de sujeitos e pátria desimportantes até. Porém criam.

Glauco e Otávio ali se haviam um dia. Num tempo, que a gente jamais esquece. Tempo em que os trovões eram roucos de se ouvir. E o céu de toda manhã se abria como fenda de fogo vivo que aparece. Tempo, em que Deus estava ainda terminando de fazer o mundo. E ao separar as águas do elemento terra, acabou por ficar tão escasso ali. Glauco era homem do campo. Amava o cultivo do solo. Ainda bem cedo, quando os primeiros raios de fogo tocavam-lhe as faces, punha-se de joelhos. E fincando suas duas mãos no solo do sertão, pedia a benção, a mãe terra. Elevando os olhos aos céus, atirava um punhado de pó ao vento, e agradecia a Deus. E nas festas da Padroeira Senhora Santana, não importava se o ano fora seco ou de fartura, não faltaria com a oferenda, ao templo de Jerusalém, remanescente de Israel. Tantas sacas de feijão e milho doaria para o leilão. Pra o compadre Ermíndio, dono da farmácia, certamente não faltaria um peru gordo cevado, no natal. Doutor Cleófanes médico obstetra, ganharia um queijo, uma galinha, um dúzia de ovos de capoeira. O prefeito que atendera seu pedido de limpar o açude seco, planear a estrada, pra ele uma marrã de ovelha, que ele mandaria matar, e com os amigos comeria, regado a bom uísque.

Otávio, nosso outro personagem, vivia vida de gado, um povo marcado, um povo feliz. Porque gado aquela gente marcava, a ferro e fogo. Mas com gente, não era muito diferente. E o mundo vivia girando sob as patas de seu cavalo. O elemento água também essencial era ali. E Otávio trouxe até sua propriedade um mago. Um homem sábio de lugar longínquo veio. Conhecedor das ciências ocultas, deitava orações para afastar maus-olhados, curava doenças. Livrava da morte certa animais picado por bichos peçonhentos. Pras os confins da terra afastava pragas da palma, enxames de abelha, cupim da madeira, mosca do chifre, maleita, macacoa e sezão. Tudo isso fazia. E tinha outro dom especial, sabia os locais onde havia água no subsolo. De olhos vendados, portando uma forquilha, de um pau que ele sozinho ia buscar no mato, localizou água quase na divisa da propriedade com o vizinho Glauco. Em parceria cavaram um poço, e ambos utilizavam a água. Assim o fizeram. Otávio também doava seu dízimo na festa da padroeira Senhora Santana. Tantas cabeças de gado. E os dois eram como aqueles irmãos, tementes a Deus, narrado no livro sagrado. Suas casas louvavam ao senhor todos os dias. E os filhos pediam a benção, em três momentos no período de um dia: Ao levantar-se, após as refeições, e ao deitar-se.

Um dia, ao cair da tarde Otávio pastoreava seu rebanho, pitando um cigarro de palha. E eis que foi se encontrar, olhando pras bandas do fim do mundo. Justamente do lado oposto da sua propriedade e de seu amigo, que apontavam rumo ao sol nascente. E caiu em si, numa pergunta. O que haveria pra além do que seus olhos alcançavam? Sem dizer nada a ninguém, quis ele mesmo tirar suas dúvidas. Na manhã seguinte partiria, assim o fez. E Otávio sumiu no oco do mundo. Os seus entes queridos deram-no como morto. Seus filhos e esposa tocaram a vida, como se órfãos e viúva fossem. Porém Otávio morto não estava, e depois de sua longa jornada voltou. Voltou pelo outro lado do mundo. Pois uma volta completa sobre a terra ele dera. E chegou justamente na propriedade do amigo Glauco. Por aquele, teria sido muito bem recebido. Como a um filho pródigo. Recebido com honras e festa, assim o fora. Porém notou que o amigo havia voltado com outro semblante. Os cabelos tornaram-se grisalhos, cultivara uma longa barba igualmente branca. Assemelhava-se a Moisés, depois que descera do monte Horebe. O amigo adquirira sabedoria. E passada a euforia do reencontro, quis o amigo viajante ter uma conversa com o amigo arraigado. Eles que, desde que se entendiam de gente, nunca, jamais haviam deixado suas propriedades. Otávio afinal havia rompido com aquele interdito, imposto por eles mesmo. Deus não tinha participação naquela decisão deles.

E tiveram um diálogo. Disse Otávio: – Glauco! Quero lhe falar do que vi nessa viagem que fiz. Imagine um muro bem alto, separando o mundo de fora, desse nosso mundo. Pra que você entenda melhor, chamarei de caverna. A caverna é o mundo onde só existimos nós, a minha e a sua propriedade, a minha e a sua família. Todos os dias chega um raio de luz, o sol que nasce a cada manhã. Como aqui permanecemos desde que nascemos e crescemos, só conhecemos essa realidade. Apesar de ter uma vida livre, de poder ir e vir por toda extensão de nossas propriedades, vivemos como que acorrentados. Sem poder nos movermos, forçados a olhar somente a parede do fundo da caverna. Não deixa de ser um belo cenário que aprendemos, desde de pequenos, a contemplar, amar e se sentir feliz. Ali no firmamento, todos os dias, vemos projetadas sombras de outros homens que estão para além do muro, separando o fim do mundo. E aqueles mantêm acesa uma fogueira. A luz projeta uma imagem que julgamos real, porém não passa de imagem. A realidade Glauco, está para além do fim do mundo. Ao fazer essa viagem em torno da terra, eu rompi com esse eterno estado de sonho, um mundo fantasioso, não real, em que vivíamos. Acatar tudo que nos é imposto, leis, proibições, governo, religiões. O sistema perverso hierarquizado, saúde, educação para todos, direito a ir e vir, liberdade de expressão. Tudo conversa pra boi dormir, um eterno faz de conta. E nós isolados do resto do mundo achando que assim éramos felizes.

Otávio, disse que, o que tinha pra dizer já havia dito. E que o amigo agora também passara a conhecer a realidade, cabia a ele continuar aceitando tudo como dantes. As correntes que nos prendem, fomos nós mesmos que a criamos. Ninguém está livre delas, resta-nos pelo menos entendê-las. Somos todos atores, partícipes duma grande encenação. “E você ainda acredita que é um doutor, padre ou policial, que está contribuindo com sua parte para o nosso belo quadro social”.

24 nov

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Um menino da Camoxinga

O menino da Camoxinga, ainda mora no meu imaginário. Morar mesmo morava na Camoxinga. A casa ficava além da ponte e do riacho que dividia Santana do Ipanema ao meio. Na ladeira do Cemitério Santa Sofia. Num tempo, tão lá atrás, que nem havia calçamento de paralelepípedo, ladrilhando as ruas, afastadas. E tão pouco era o número de casas, que de cá do Monumento, dava pra ver o alto. E apontando dizia: -A casa que eu moro é aquela, amarela! Tá vendo? Nossos olhos iam pra lá. Um aceno de cabeça pra confirmar. Apenas confirmar, pois era muito provável que nem estivéssemos enxergando a tal casa amarela. E tendo certeza da dúvida, ele fazia questão de descrever como era: -Tem uma área na frente, um portão de ferro, muitas plantas! Com um pouco mais de atenção, talvez desse pra ver, sua mãe, cultivando uma nesga de húmus, que chamava de jardim. E haveria de debulhar um rosário de imprecações, se a bola traquina, dos meninos, fosse esbarrar nas suas plantinhas queridas, velhas amigas com que conversava toda manhã.

Às vezes fico pensando se tenha existido de verdade, o menino da Camoxinga. Se não teria sido apenas fruto da imaginação. Mas era tudo tão real. Porque meninos são seres de mente muito fértil, capazes de inventar histórias, inverossímeis, inimagináveis. E menino, era o que a gente nunca devia deixar de ser. Mesmo que o tempo se encarregasse de naufragar, lá bem dentro do corpo aumentado, a frívola, a mágica energia dos verdes anos.

Luiz André era um menino diferente. Jamais entenderei porque, seria necessário gastar quatro decanos de calendários, separando-nos tempo e espaço, pra chegar a tal constatação. Diferentes uns dos outros todos somos. Mas não seria dessa diferença, a que me refiro. Luiz André era um menino azul. Não que trouxesse o anil na tez. Azul cobalto era sua alma, e isso brotava no oceano dos seus olhos. Transparecia no piano do seu sorriso marinho. E mesmo o azul do céu, a brisa vespertina, vinha intrometer-se em seu cabelo liso em desalinho. E de tanto vê-lo trajado no brim da farda do Grupo Escolar Padre Francisco Correia, ficou assim, um menino Azul Cecília Meireles. E numa daquelas magníficas tardes, depois que a gente saía da escola, esteve a contar-me mais uma de suas inúmeras histórias fantásticas, que tanto me fascinavam.

Sentados a um dos bancos da praça, remexendo no que restara dos nossos lanches do recreio. A sua lancheira azul, em alto relevo trazia o desenho do capitão América. A minha, o Homem de Ferro. Observando outros meninos fazendo estripulias nos brinquedos do parque da praça, calmamente disse: -A minha casa é mal-assombrada. Estávamos no final de outubro daquele ano, e remendou: -Por esses dias fica ainda mais mal-assombrada! –Como assim? Quis saber. Com a proximidade do dia de finados, o Cemitério Santa Sofia ficava muito movimentado, o povo ia limpar e ornamentar as catacumbas. As almas dos defuntos, que não tinham ido pro céu, ou pra lugar algum, surtavam. Incomodadas com a presença de tanta gente barulhenta acabavam por vagar pelas redondezas. Iam perturbar a vizinhança. Derrubavam panelas na cozinha, quebravam pratos na pia. À noite acendiam as luzes dos quartos. Abriam torneiras da pia do tanquinho, do chuveiro. Ligavam ventiladores e o liquidificador. Espalhavam discos pelo chão, punha a vitrola pra tocar. O gato coitado, eles conseguem ver esses espíritos desencarnados, era o primeiro a desaparecer naqueles dias, pois não o deixava em paz. Também o cachorro lá no quintal, latia freneticamente e uivava de modo sombrio. Era como se chorando dissesse: –Socorram-me! Eles estão me perturbando! O próprio André presenciara, numa das vezes que fora acalmar o cão, de lá do breu do quintal, atiraram-lhe uma manga verde, sem que houvesse possibilidade alguma dum ser vivente ter feito aquilo. E os galhos da mangueira balançaram violentamente, ainda que não houvesse o menor resquício de ventania, na noite quente abafada.

Teve uma vez que estava dormindo, e acordou com alguém lhe chamando, pelo nome. Era voz de um menino. Procurou embaixo da cama, não estava. Revistou os cantos, nada. Abriu o guarda-roupas, encontrou. Um menino bem afeiçoado, bonito. De cócoras todo molhado, a roupa colada ao corpo, tremia de frio. Os cabelos castanhos, lisos, molhados, escorridos na testa. Os olhos grandes, de longos cílios, pareciam ainda maiores, arregalados. Disse que tinha medo. Medo de um homem muito mal que queria lhe fazer algo muito ruim. Disposto a ouvi-lo, sentou-se ao seu lado. Ouviu dele que o homem mal era seu tio, que havia perdido os pais, num acidente de carro. Por isso foi morar no sítio, com o irmão de seu pai, mas a esposa não gostava dele, lhe batia chamava-o de afeminado. Um dia o tio, que era alcoólatra, encontrou-o a buscar água no açude, arrastou-o pro mato, e abusou sexualmente dele. Pra ter certeza que não contaria a sua esposa, afogou-o. Também pra parecer que tinha sido ele mesmo que se afogara. André e Augusto ficaram amigos, e combinaram uma vez por ano se encontrarem. Dia de finados, seria o dia.

Muitas outras histórias seriam compartilhadas, bem como, muitos outros momentos bons. Nos banhos do rio Ipanema. Tantas foram as vezes que foram juntos a uma tropa de meninos, na maior algazarra, rumos pra além da Maniçoba. A um lugar chamado “Escondidinho”. Chegavam ao início da manhã. Escalavam rochedos pra se atirar perigosamente no turbilhão das águas bravias. Desafiando todas as leis do universo, o mundo era daqueles meninos. E se o gasto energético ocasionava a fome, saiam à cata dos frutos dos umbuzeiros, tubérculos, frutos e mesmo folhas. Ao aproximar-se a hora de deixar o “velho” amigo ficavam todos nus. Estendiam os calções para enxugar ao sol. E pareciam um bando de índios. E ficavam excitados e masturbavam-se por puro prazer, sem mesmo recorrer à visão de uma vulva feminina. Uma versão da Terra dos Meninos Pelados, nua, crua, sem poesia, longe de Quebrangulo, distante do sonho de Graciliano Ramos.

André convidava-me a fazer determinadas estripulias que sozinho jamais teria coragem de fazer. Roubar uvas no pomar de Doutor Clodolfo, desfrutar os mamões do terreno baldio do Grupo Escolar. Tirar tamarindo, escalando o muro do quintal de Dona Marina Marques. Surrupiar amendoim, um pouco de fubá e farinha de mandioca, dos mangaieiros, no meio da feira. Tomar banho no proibido, açude de Seu João Augustinho, ou na piscina da chácara de Doutor Aderval Tenório. Tentar entrar no circo por baixo da lona, sem pagar. Acompanhar o palhaço no meio da rua, anunciando o espetáculo, pra ganhar um ingresso. Tentar entrar no cine Alvorada, num dia de filme impróprio para menores. Um dia compramos uma garrafa de vinho de jurubeba, meio quilo de salame e alguns pães. E fomos pescar pitu no riacho do bode. Cheguei tarde e levei uma sova de meu pai por isso. Acabei aprendendo a usar o menino da Camoxinga como subterfúgio, atribuindo a ele, as coisas erradas que fazia e eram descobertas. Dizia: -Foi o menino da Camoxinga! Um menino que simplesmente nunca passaria de fruto do meu fértil imaginário.

Fábio Campos


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