17 nov

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Um navio, o rei, o país do monumento

Era uma vez um gigante. Não um gigante como aquele da história de João e o pé de feijão. Porque pra eles existirem, só dependem do ponto de vista de quem vê. Pra nós, meninos moradores da Praça do Monumento, do início da década de setenta, Zé Reis se nos aparentava um gigante. Tronco minotáurico, braços colossais. A cabeça como que implantada em cima duma montanha de músculos, e um rosto talhado na pedra. Os olhos enterrados rente as espessas sobrancelhas, e a bocarra como que cortada a faca. Assim era Zé Reis.

O Rei Teria surgido no Condado do Monumento, assim de um jeito muito semelhante à Gulliver quando surgiu na ilha de Lillipute. De uma terra distante, sem experimentar o naufrágio, em seu navio, teria chegado. Alvissareiros, os ventos noroeste fizeram com que conseguisse aportar com certa tranquilidade, no país do Monumento. Porque pra aqueles moleques, a Praça do Monumento, era um país. Menor que o Principado de Mônaco, porém igualmente rico. Tanto quanto o Vaticano. Não tinha ali a Capela Cistina, porém ao centro ostentava-se a Igreja de Nossa Senhora Assunção. O ouro espalhado no leito do Largo, pra quem quisesse pegar, era só estender a mão e tocá-lo. Sentir seu calor, sua luz, incandescente chegado do Leste nas primeiras horas, o sol se derramando. À esquina a casa de Seu Artur e a bodega de Seu Ozéias, delimitava o Norte do mais novo reinado que já se vira. A fileira de casas recuada por trás do quiosque “O Pinguim”, o limite a Nordeste. O consultório odontológico de Dr. Adelson olhando pro Grupo Escolar Padre Francisco Correia acessava o Leste. Ao mesmo quarteirão, ficava o oitão do velho educandário, o Ginásio Santana, juntamente com o Tênis Club Santanense apontavam e delimitavam o Sul do menor país do mundo. Seus citadinos, os moleques da praça, exerciam sua cidadania digladiando-se em constantes guerras. Havia quase todas as noites a Batalha pelas Bandeiras. Os meninos e suas clãs a tudo disputavam. Pela conquista das bandeiras, azul e encarnada se sucediam infinitos combates. A batalha com caroço de mamonas e a batalha das balas de barro de louça. Seguidores do Ipiranga e do Ipanema. A busca ao ouro (Ourobusca). A conquista do garrafão. A Revolta dos Queimados.

O Navio Aportado à praça era o símbolo da conquista do território ocupado: o País do Monumento. A nau concebida e construída das mãos do rei, com esmero a fez. De madeira nobre seu casco revestido, em latão e zinco hermeticamente calafetado. Azul de colbato, branco e vermelho carmim, em cores vivas, luzidia a couraça do monstro náutico. Imponência culminando a bandeira dizia “Liberdade, Fraternidade, Igualdade” no alto do mastro a observar o horizonte. Escotilhas blindadas com acabamento de vitrais. Botes salva-vidas, encordoamento de arremesso. Possante timão envernizado, adiante do painel de controle a casa de máquinas. Antenas e sonares, radares e campainha de alarme. Um soldado de chumbo fixado à proa e mais dois guardiães das pás da hélice arrematando a popa. A estibordo e a bombordo, gradil e parapeito caprichosamente arrematado por boias salva-vidas. Admoestação a lua, ofuscando a noite opulência de luzes da nave nauta. Afronta inconcebível! Se ia o monarca a outros países, singrava os ares a imensa nau, pelo próprio rei timoneada. Os moleques do país do Monumento jamais aceitariam pacificamente aquela ocupação. Um decreto foi baixado “ninguém podia aproximar-se do navio, salvo exceções se na companhia do imperador”. Decerto nisso residia os segredos da conquista territorial. As mentes febris dos meninos maquinavam e maquinavam planos. O rei invasor não perdia por esperar.

O País O dia sete de setembro. Parada militar pra marcar o dia da Independência do país. Mas que independência? Se ainda havia o rei mandando no povo? Zé Reis punha vestes de fuzileiro naval para passar em vista as tropas de guerrilheiros da Corte. Fazia uma trança com o cabelo, ficava parecendo um cavalheiro de infantaria, da guarda do palácio da condessa Beatriz. O rei também garbosamente desfilava. Constituía-se de arcos medievais a entrada do Palace Hotel da Condessa Beatriz uma pequena saleta, o hall. Adiante do lado direito os quartos dos hóspedes. Do lado oposto as janelas. Indo adiante a cozinha, ornada de belas mesas, naturezas mortas nas paredes, compostas de avelãs, uvas, damascos, vinho tinto em garrafões de palhinha trançada, obras por Zezinho assinaladas. A hospedaria de esquina acessava a Alameda Rotary que acessava outro país, a ilha de Liliputas. Ali liliputanos viviam sob o regime da anarquia. Vida aventureira, cassinos: jogos de cartas, gamão, xadrez. Libertinagem, mulheres. Dada início a década de sessenta, os liliputianos santanenses que já haviam crescido se organizaram e criaram “Os I Jogos de Inverno” que ganhou o simpático de apelido de Festa da Juventude.

O Combate Os meninos se organizaram “Fora o Rei com seu Navio!”. Era o grito de ordem. Bombas de cordão atiradas a Arca, na campanha de São João. A Companhia de Jesus apoiava a Corte. O ataque não surtira o efeito desejado. Permanecia o reinado. Os negros que levavam os dejetos dos senhores feudais pra lugares ermos, estavam do lado dos meninos, e na calada da noite catapultaram fezes a nau. Duro golpe! A fedentina emporcalhou o país, mesmo assim o monarca resistiu bravamente. Numa tarde que o rei saiu a passear, os meninos colocaram um pé de fícus sobre o navio para que seus galhos ferissem o casco. Lançaram mão de sua âncora pondo a deriva, no leito da rua. Acionaram-lhe a campainha de alerta, provocando alarido. Foi golpe fatal. Finalmente o rei combalido. Dando-se por vencido abandonou o país.

O Reencontro Quase metade de século já havia se passado. Fui encontrar o rei deportado, no degredo. Cumprimentei-o. Humilde prestava serviços na prisão de Alcatraz. Na terra dos Cavalos inteligentes, que faz fronteira com o país das Liliputas. Apenas contemplei seu rosto e encheu-se de um sorriso, reconheceu-me. Apertou-me a mão, e o coração. A pronúncia de Seu nome José Paulo Soares Morais e deu-se em água meus olhos. Decidi seguir minha jornada, intencionava encontrar-me com o rei. Não havia mais rei, nem gigante era mais.

Por Fábio Campos

11 out

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No poço das águas corredeiras

A menina estava lá. Talvez dez anos, ou dois anos mais que isso. Um pequeno chapéu de rendinha de filó, engomado, pousado a cabeça. Donde por baixo derramava-se, exuberante cascata de negro cabelo liso, que lhe ia ao colo. O vestido alvíssimo quase que tocava as meias brancas suplantadas num singelo par de sapatos igualmente brancos. Parecia estar muito triste. De verdade, triste estava. Sentada a um dos bancos da Praça do comércio de Santana do Ipanema. Olhava… Uma borboleta? Sim era. Uma pequena borboleta de asas amarelas, pousada no encosto de braço do banco. Fixamente olhava. Era uma fria tarde, triste, plúmbea. Havia lágrimas que se derramavam pelo rostinho. Teimosas, caíam, em suas mãos inertes. Demorou-se por um tempo infindável e levantou-se dali. Pôs-se a andar, e era como se a calçada de veludo fosse. O menor barulho, nada se ouvia. O vento, nem o pipilar dos pardais, vozes dos transeuntes, nada. Santana do Ipanema como que deserta. No passeio só a menina. Tendo de vida mesmo, só o inseto alado. Desceram a Rua Barão do Rio Branco. A borboleta borboleteando a menina, indo para além da ponte do padre.

À porta da igreja Matriz de Senhora Sant’Ana belo mancebo, do breu interior surgido. Chapéu de palha, roto nas pontas, às duas mãos. Com leve sofreguidão amassava as abas. Posto à cabeça cobrir-lhe-ia parte do escorrido cabelo negro. A fronte, de tez mais alva. Barba rala a desenhar-lhe a face. Surrada camisa, calça igualmente velha, enrolada ao meio da perna, alpercatas de couro cru. Rosto borrado de fumo denunciava-lhe carvoeiro. Todos os dias, sacos de carvão enchia e rumava pelas ruas a anunciar: “-Olha o carvão!”. Em vão tentara se confessar com o padre Bulhões. O pároco estava em jornada missionária. Se tivesse conseguido, talvez saísse dali menos desolado. O serrote do Cruzeiro por testemunha, calado, de verde esmaecido. Um céu desbotado, de nuvens cheias de angústia, pros lados do Alto da Cajarana. Ampliando-lhe n’alma vontade de morrer, morto estava. Diria ao padre do crime que cometera.

Do que fizera à filha do Coronel Serra Negra. Se o descobrissem, jamais o perdoariam, era melhor dar fim a própria vida. Rememorava o dia fatídico. Era só no que pensara, desde então, por horas, dias, meses, anos a fio. Era só em que pensava. Ao levar o saco de carvão para a dispensa do coronel, outra vez, mais uma vez a viu. A menina deitada à cama, no quarto. Sempre vira, todas as vezes que ali fora, cândida cena. A porta entre aberta. O corpo sob luz diáfana varando a cortina fina, aura rósea, virginal. Perfume de suave fragrância das cobertas fluindo, da intocável flor de lótus, guardada sob a calcinha de algodão e fitas de cianina. Indo o cheiro às aguçadas narinas encarvoadas. Não podia tocá-la, mesmo assim aquele homem o fez. Não podia, ainda mais por ele! Cometia dolo de crime qualquer que o fizesse! Amava a menina, ela nunca poderia saber. Um pecado incrustado a sua carne, sobre a pele, nunca, jamais deveria dali ganhar forma, do consciente sair. Como jamais saiu. A ponto de invadir o quarto da ninfeta, a tocar-lhe os pequenos seios. Não o fez, nunca faria, delirava. Suas imensas mãos desadestradas na rudeza do campo, nunca tocariam a púbis inefável, crime imperdoável! Pecado venial. Sentia ele, merecedor de morte e morte cruel! Por tudo o que vira e desejava não ter visto! O coronel! Não! Não queria acreditar que fosse capaz daquilo!

Coronel Serra Negra, homem talhado no bronze. A sisudez no trato e o caráter ferrugíneo de quando vivera, assim retrataram-no à praça. Pelo que representava virou figura no rol dos vultos de nossa história. Figura imorredoura. Tudo pronunciado de sua boca, lei seria. Seus atos, alguns até corriqueiros virados lenda. Causos densamente narrados de roda em roda de conversas de outrora. Diziam de feitos heróicos, de atos bravios na guerra do Paraguai. De medalhas de honra repousando em cofre depositadas. Orgulho de família, passado glorioso. O coronel tivera com dona Domiciana oito filhos, sete varões e a caçula Maria Engrácia, a menina do banco da praça. Coronel fundou em Santana do Ipanema a primeira escola de esgrima. E o primeiro pelotão dos aspirantes a Agulhas Negras das matas e sertões.

A um terreno baldio, por trás da casa do padre encontraram o corpo da menina. Havia dois dias desaparecida. Chovia à dias. O coronel havia suspendido as buscas, ao longo do rio por conta da cheia. Os meninos que voltavam do mato, com alçapões e gaiolas, encontraram-na morta. Um deles viera chamar alguém pra ver. O delegado Bento e o soldado Faustino, esbaforidos chegaram ao local. Os lindos olhos vitrificados contemplavam o céu, o nariz afilado pra lá apontava. A boca entreaberta, como se por ali, tivesse escapado o último halo de vida. O vestido branco, o frágil corpo comprimindo a relva contra o solo negro, úmido. Hematomas no pescoço indicavam que talvez tivesse sido morta por asfixia. Formigas subindo-lhe pelo pescoço e braços, a explorar aquela imensa boneca de pele alva, levemente rosácea rica em proteína que se decompunha. Uma borboleta de asas amarelas, como se costurasse no ar uma sinfonia muda, convidou a menina pra passear, e se foram as duas.

Percival, o carvoeiro, estava profundamente perturbado. Estava no poço das águas corredeiras, além do Bebedouro. Na encosta do rio as mulas pastavam. Afogado em pensamentos o rapaz contemplava o torvelinho da correnteza bravia. Buscava sem encontrar, coragem para ataviar os animais. Impor-lhes cargas, e ganhar a vereda que dava pra rua. Coronel Serra Negra partira em seu encalço. Enquanto avançava o cavalo, outro sinistro se delineando, a acontecer em breve. O coronel conjecturava se abordaria o carvoeiro, indagando-lhe sobre o que conseguira ver naquele dia, ou se chegava sacando sua arma e desferindo-lhe os tiros fatais. Estava decidido, não mais importava saber o que vira o carvoeiro. Se o que ele presenciara acabara levando sua filha à morte, também ele teria que morrer. Chegou atirando. Tanto era o ódio que fez o cavalo avançar por pedregulho falso, íngreme. Os projéteis ricochetearam na pedra sem alcançar o alvo. Cavalo e cavaleiro despencaram no precipício. Já o rapaz, dum salto projetara seu corpo ágil no ar. Alçou vôo indo parar no ventre do espumante turbilhão d’água sanguineo. Tudo estava consumado. Homens, cavalo, armas, para sempre, selando seus destinos. O rapaz à porta da igreja matriz perdido em pensamentos. A menina ao banco da praça brincava com a borboleta. O coronel talhado no bronze, do alto do pedestal contemplava – as pedras, que um dia fora – o profundo poço das águas corredeiras.

28 set

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“Passarinho” e Virgulino Fúria de Titãs

O povo santanense, civilização surgida às margens do Nilo do sertão, o rio Ipanema, cujo delta em terras alagoanas, banha o vale do Ka-Içara. Santana do Ipanema de três raças. Os nativos primórdios deram nome às duas principais fontes de vida, à mata chamaram de Ka-á-tinga e o curso d’água de “Águas amargas”. Cobiçada pelos donatários, a rica e fértil planície seria incorporada à sesmaria dos irmãos Vieira. Ocupação que marca a chegada do homem genuinamente branco, de origem portuguesa. Em meados do século XVIII chegariam às primeiras levas de negros escravos. Mercantilizados na feira livre, em meio a toldas de legumes, frutas, cereais e a manufaturas de couro e madeira. Mercadoria valorada conforme a condição física que se encontravam. Pelos senhores feudais comprados para os mais variados trabalhos. Agropastoril ou doméstico, segundo suas habilidades.

Nossa história, vem de um século depois que a princesa Isabel decretou o fim da escravidão negreira, em terras brasileiras. Num tempo em que índios e negros legendavam suas sagas. Eram maioria, e poucos se atinham disso. Tempo em que negros e nativos mais prolíferos e sem posses, acabariam pelo inchamento da plebe, empurrados pra periferia. Margearam a reboque o braço do rio. A montante de sua várzea direita a cidade serpenteou, se expandiu. No centro, soergueram sobrados, instalaram entreposto, empórios e intendência municipal. O padre reconheceu firma, em livros cartoriais registrou a freguesia de Senhora Sant’Ana, ergue a Matriz. A periferia alastrada em mocambos. Do tronco tupi-guarany, os nativos aqui existentes se disseminaram da linhagem I-atés ou Kaá-r-nijós que significava “Os que habitam as margens da água forte” e “nascidos do ventre da mata”.

Índios

Santana do Ipanema, imenso legado indígena herdou. Costumes, cultura muito ainda se teria deles para sempre. Nomes de ruas, lendas, plantas: Baraúna, Maniçoba, Velame, Kaa-mo-xinga. Famílias tradicionais de consolidadas raízes aborígenes, Cinésio conhecido por “Caboclo”. Professor Valter, cujas veias, flui sangue da descendência I-até. “Índio” ex-goleiro do Ipanema Atlético Clube. Aman-tá -y- Çá que significa “mãe-da-chuva-que-vê”, era minha avó, cuja mãe viveu e a criou numa aldeia. Aportuguesado, seu nome virou Amância de Sá. Índio se conhece pela cor da pele amarronzada, o cabelo, a compleição facial. Deixou pra civilização o hábito de cultivar milho, usar plantas alienantes como a diamba, em rituais de cura. O tabaco para selar acordo de amizade entre tribos. Deles que depois terminariam sendo estivadores, por não terem tido oportunidade de estudar. “Carrinho” índio”, “Passarinho”, dentre outros, ganhavam a vida no carrego e descarrego de secos e molhados, dos caminhões que chegavam e saiam todos os dias, levando e trazendo o progresso pra Santana. Açúcar, café, e manufaturados. E levavam feijão, milho e algodão. “Passarinho” era um de estatura física fenomenal, braços fantasticamente musculosos. Seu corpanzil titânico daria a atribuir-lhe feitos formidáveis, enaltecido pelos contadores de causos nas noitadas de luar à praça São Pedro. Narrativas apoteóticas de suas caçadas. Numa delas teria enfrentado a cobra Norato, uma serpente gigante de dez metros de comprimento, que engolia um boi inteiro. “Passarinho” teria matado-a na ocasião que dera uma cheia no Ipanema, ao tentar atravessar o rio a nado pelo poço das corredeiras próximo a foz do riacho João Gomes a bichona se atracou com ele dentro d’água, o ofídio gigante teria o engolido. Dentro das entranhas do réptil, sacou seu punhal e destroçou suas tripas. Uma vez livre teria nadado chegando são e salvo a margem do rio.

Negros

Os primeiros autenticamente negros em Santana do Ipanema, teria vindo de duas linhagens Bantus e Nagôs traficados da mãe África. Era fácil diferençar uns dos outros, os de origem Nagôs, vindos de Nova Guiné e Guiné Bissau, eram negros retintos, o pretume da pele era tanto que reluzia. Bem alimentados, aumentavam no porte físico. Muito prolíferos. Arredios no manejo com lavouras preferiam trabalhos domésticos, tinham dificuldade de aprender nossa língua. Exímio no manejo de armas brancas. Sonhavam com a liberdade por isso eram muito fujões. Ficaram conhecidos como a raça dos Baus. Bantus eram originados de Moçambique e Angola, eram negros fubentos, a pele parecia coberta de cinza, não eram dóceis com seus donos. Praticavam rituais de macumba, com holocaustos de animais e fetos humanos. Eram bons capoeiristas. Ficariam conhecidos e temidos pela fama de antropófagos, a raça dos Bius.

A Briga

Foi num final de tarde, de um dia de sábado. Mais um dia de feira livre findo. Mangaieiros começavam a desarmar suas toldas. Início da Rua Tertuliano Nepomuceno, quase à porta do mercado da Carne. A via ficava imunda, frutas e legumes estragados jaziam no leito. Cães vadios catavam o comer no meio dos despojos do burgo. Conhecida também como “Rua dos porcos”. Leitões e galinhas – entre grunhidos e cacarejos, fezes e lama – vendidos. Aquela artéria acessava a Intendência Municipal e o baixo meretrício. Virgulino um estivador morador do mocambo da Lagoa do Junco – da raça dos Bius – com “Passarinho” se encontrou por acaso. Estavam intrigados por uma desavença anterior. Por ter ingerido vários grogues de cachaça Virgulino esbarrou com violência contra seu desafeto. Isso foi suficiente para darem início a uma briga.

Entre gritos da populaça e curiosos, os raçudos titânicos se atracaram. O choque de músculos produzia quase um som metálico, como de espadas. Golpes magníficos de capoeira desferidos atingiam o alvo. Tenazes braços, claves de bronze, catapultavam bancas dos mascates. Fantasticamente pesadas, flutuavam como se feitas de isopor. Como num passe de mágica, um machado foi parar na mão do índio que vibrou no ar, buscando destroçar carne e osso humano. Conseguindo apenas arrancar um silvo do ar. Virgulino de posse de uma cangalha arremessou-a contra o oponente, atingindo a espádua de “Passarinho” que foi ao chão. Uma vez engalfinhados desferiram golpes um no outro. Numa sincronia e reciprocidade de pura fúria de brutamontes, como se trocassem cortesias. Eis que abrindo passagem entre os espectadores surgiu um homem, trajado em paletó e de gravata, encheu os pulmões de ar, emitiu um grito, que tornaria estático o burburinho. Parado no ar o murro, o golpe a ser desferido congelado. Tudo e todos estratificados por um grito de “parem em nome da lei”. Diante da voz do homem, os gigantes virados estátuas. Quisera, o tempo tornasse em pedra aqueles dois titãs, no meio da rua, eternamente. E ao cimento fresco, o artista autor da obra assinasse: Doutor João Ioiô Filho, juiz de Direito da comarca de Santana do Ipanema.

 

17 ago

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O voo do Rouxinol

Olhos, cabelos. Rosto de índio tinha Martins. Muito de selvagem havia nele. De manso apareceu nas nossas vidas. Chegou, pediu uma cerveja, e ficou. Mesmo sem dizer o que era terra, disse. Sem falar do amor que sentia, disse. Jeito texano, caubói do asfalto. Cativou-nos o jeito apaziguado. Nunca olhava. Contemplava, e punha poesia no que via. Acalentava, como que fosse por as coisas pra dormir. Acendia o cigarro como aquele da propaganda da Marlboro. O caminhão, a estrada sua casa. Nem bem chegava – deitava a girar a bola do mundo embaixo dos pneus – partia aventureiro. Se ia, deixava pra trás seu coração dentro do peito de minha irmã. Não prometia, se voltaria. Sempre voltava. Quis criar limo, cravou os pés em Santana do Ipanema.

Um dia foi, e levou um pouco de nós. Agora era dois. Iam, e voltavam. E dois virou família. Fez-nos tio, duas, três vezes mais. Vivia e se entendia – em constante diálogo, sem precisar falar – com a natureza. Sabia de calos doídos, sinalizando chuvas, de aura acinzentada entorno do luar, avisando trovoadas. De ir lá num canto do muro catar um punhado de uma plantinha, pra colocar em ferimentos, dar pro cachorro e pros passarinhos – se lhes diziam estarem – com dor de barriga. Quando podia, e por vezes podia, levava bichinhos e plantas pra dentro de casa. Cães vagabundos. Deles, apiedava-se. Cria em coincidências, e na providencial mão do destino. Num pedacinho de selva, que os homens comuns chamam de quintal, cágados, saguis, porquinhos da índia, jabutis, iguanas, hamsters. O rouxinol que gostava de canários, pintassilgos, cancãos, ferreiros, cacatuas, calopsitas. E educar papagaios pra chamar os donos pelos nomes, cantar arremedando o canto de seus pares. Encheu de mar um vão de acesso a cozinha, rei Netuno submergindo de dentro de baús, caravelas, sereias, era de aquário. Um cão amigo, amigo cão. Cúmplices de afagos e brincadeiras, e conversas sérias também, de passeios nas tardes douradas. Camisa pólo, calça jeans índigo blue, sapato mocassin. O longo cabelo escorrido, penteado com esmero – se molhado, camuflava os fios brancos – conferindo-lhe jovialidade. Ameríndio redesenhando seus caminhos. Saído da zona da mata, indo desbravar veredas do sertão.

Quando fui à primeira vez a sua terra natal, apresentou-me aos amigos. No bar preferido, a cerveja preferida. À mesma mesa, que sempre estaria lá, lhe esperando, morrendo de saudade. O barman sabia a música que devia tocar. Bebemos, brindamos à vida, ao prazer de ser o que éramos, e viver tudo o que havia: o instante. O momento era, e pronto. Martins tinha história, histórias várias. Em cada lugar que ia, a cada esquina um enredo, novos protagonistas. Moleque engraxate ganhava moeda, carinho, e apelido. Cumprimentos, acenos ao carroceiro, o estivador, o relojoeiro, a vendedora de peixe na porta do mercado. Havia história em tudo, em cada canto da sua cidade. Espraiando no horizonte a Serra da Barriga, gigante verde, encerrado adormecido. Corpo de negro, deitado de bruços, alma de negro, carne de negro incorruptível. Impregnado de húmus, de vermes, amalgamado, muito embora, em profundo sinal de respeito não pervertia. No ventre de barro, soterrado o grito nagô nos ventos da aflição. Zumbi havia em todo canto, músculos severos, suados, voltando da roça. Sangue dos Palmares, derramado no canavial, na lida com o facão ferindo a touça de cana. Bíceps e peitorais Inflamados do quilombo estrangulando saca de açúcar. A lança de Zumbi cruzou o ar, foi se encravar no coração da onça. Pés negros desnudos resvalando entre a pedra e a areia do chão antigo, chão encharcado de império. Vento assoviando ordem, impondo respeito e temor, nas flâmulas tremeluzentes dos umbrais desenhados.

O mar de cana ia engolindo tudo. Engolindo os olhos da gente. Estúpida voracidade de redemoinho. Engolindo carroções, bovinos, camponeses, negros, cães, latidos e lamentações. O choro do canzil indo longe, e voltando cego do sal da maresia sufocada de Inferno verde. Dava pra ouvir o roçar de pele de negro no capinzal, os grilhões, o canto pra espantar fadiga. As casas rústicas. O fogão a lenha, no meio do terreiro, o jumento cangalhado aguardando carga. O pano de chita gritando pra gente olhar. Sob a pele fubazenta dos banhos nos córregos cristalinos, mulatas, carnes vistosas, as partes íntimas de coito com o sol, pele luzindo n’água, pelos negros e sedosos de cheiro adocicado de banho com sabão de coco. Corpos desejados pelos capitães do mato, pelos jagunços, velado desejo dos senhorios de engenho, bem casados com nobres brancas da corte. O ar labaredeando palha da cana de dois homens de altura.

O matagal, misterioso olhava ameaçador, dizendo pra manter distância. Não excitaria em devorar-nos vivo. Árvores gigantescas se projetando pro anil celestino, e quando à pujança do rei-sol se ia, viravam dragões, monstros fantasmagóricos, paridos do ventre da mãe terra, incontestavelmente transportados da idade medieval. Caía o véu da noite e dava pra ouvir os atabaques e afoxés, vindo da mesa da montanha. Cujo cume custodiava a negrada fugidia. Refugiados na crista da mata elevavam preces, ofereciam holocaustos a pai Oxalá, Ogum e Yãssan. No cruzamento da seara, sexta-feira, meia-noite arupemba com garrafa de cachaça, galinha preta, espelho, cédulas, moedas, colares, pulseiras, anéis, flores, fumo de rolo, perfume e quindim. Despacho pra Pomba-Gira e Zé Pilintra. Trabalho feito. Pra conquistar mulher difícil, pra quebrar senhorio cruel. Lá vinha Jorge de Lima todo de branco surgido no clarão da noite montado no cavalo do seu santo guardião, empinando a crina, troteava o pangaré enquanto se ouvia o canto pro acendedor de lampião e pra Nega Fulô.

Se janeiro, Santa Maria Madalena, chamava o povo pra igreja. União era festa. O estandarte da santa – roto de tempo e de história – esmaeceu de colores. Guimarães palmarino deitou contrato pra pintarmos outra bandeira. Índio Martins apenas observava – por entre a fumaça azulada do cigarro – acompanhava as voltas que a tinta e o pincel davam sobre o algodãozinho. Ao cair da noite depois da novena cantava o rouxinol, canto mavioso de cordas acompanhado. Os janeiros áureos se foram, tragados feito fumo, pra dentro do abismo do tempo. O rouxinol aturdido por não saber mais de cantar, alçou vôo, voou.

08 ago

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Aprendizes de pai

Quando meu filho disse que ia embora. Naquele instante, lá bem dentro, num cantinho onde dorme a tristeza dos meus pensamentos. Aquela música da dupla sertaneja veio me embalar. Consolar-me talvez. Acho que consegui disfarçar, embora os olhos marejados denunciassem-me. Em questão de segundos, toda uma vida, num relampejo, passou na mente, como um trailer dum filme. Ali na frente dele, não podia chorar. Pior, tinha que ser forte o suficiente para incentivar, passar sensação de confiança, de apoio. Bocado difícil. No nosso excesso de zelo e proteção, nós pais, achamos que os filhos nunca estão prontos, preparados pra cair na vida. Estarão sempre, terna e eternamente, a precisar de nós.

À noite, trancado no quarto, embaixo das cobertas de dormir, o choro veio. Um choro morno, bom de chorar, a um só tempo contido e desatado. Quis volver no tempo, num retrocesso de vinte e poucos anos. Lembrei quando sua mãe, em estado gestacional avançado, entrou em trabalho de parto. Tudo estava devidamente preparado, para àquela hora. Uma semana antes, bolsa contendo o enxoval. Tudo, premeditadamente organizado, carro pra levar ao hospital Dr. Arsenio Moreira. A obstetra permitiu-me, assistir. Antes, havíamos optado em não fazer ultrassonografias. Bom a expectativas, a surpresa. E foi. No dia quatro de agosto daquele ano, veio ao mundo. Nosso primogênito, filho amado, um varão, da descendência de Davi, de Israel. Veio encher duas vidas. Preencher o vazio duma casa, ser luz. Passamos a ser um casal de três, o que a família um dia almejara.

E agora, eis que estava ali, a dizer que iria embora, morar com a namorada, em Maceió, num apartamento no farol. Renunciava o emprego em Santana do Ipanema, sua terra natal. Ia tentar conseguir ocupação semelhante, na terra do sol, paraíso das águas. Só tínhamos que concordar. Abençoar aquelas vidas, pedir que Deus colocasse sua mão protetora selando seus destinos. Afinal, havíamos trilhado caminho parecido. Agora era a vez dele. E o tempo se encarregou de aplacar nossas angústias, nossas incertezas. De longe rezávamos, volvíamos nossos olhos a Deus pedindo por eles, e pra eles, proteção divina.

Um belo dia chegou e disse: – Pai você vai ser vovô! De novo! Como Deus é bom para com os seus. Antes de vir ao mundo, ela já sabia que se chamaria Sofia. A ansiedade fê-los descobrir que era uma menina, antes do parto. Amada, antes de concebida, mais ainda depois. Nove meses amada, amplamente aguardada. Mesmo nós em Santana, eles em Maceió, conseguíamos nos transportar pra lá. Em sonho, íamos parar dentro do seu apartamento e víamos. Belo casal, assemelhado ao casal lá da Judéia. Tudo tão simples. Cabeça apoiada no ventre de sua amada. Ventre planeta redondo, onde a única forma de vida habitava o interior. Como se da obra de Antoine Saint-Exupéry o Pequeno Príncipe cabelos revoltos conversava com Sofia:

-Que quer dizer “cativar”

-Tu não és daqui – disse a raposa – Que procuras?

-Procuro os homens – disse o pequeno príncipe

– Os homens – disse a raposa – têm fuzis e caçam. É assustador! Criam galinhas também. É a única coisa que fazem de interessante. Tu procuras galinhas?

-Não – disse o príncipe – Eu procuro amigos. O que quer dizer “cativar”?

-É algo quase esquecido – disse a raposa. Significa “criar laços”.

Dentro da barriga da mãe, Sofia ouvia o pai, que contava histórias só pra ela, e cantava cantigas de ninar, entrecortadas, pela metade, em ritmo de rock’in roll, a som de guitarra. Dizia das histórias que lia, e do quanto era aguardada. Dizia do enxoval que estava sendo preparado com muito carinho, do quarto. Seu quarto, com esmero, por ele próprio pintado. Um pedaço de céu aqui na terra pra Sofia. Bibelôs, travesseirinhos – tudo tão minúsculo, como se trazido da “Terra do Nunca” de Peter Pan, das viagens de Gulliver – Chuquinha de chá, chuquinha de água, babadores, toquinhas, pares de sapatinhos com cara de coelhinhos. Macacões com carinhas de ursinhos, e fraldas, muitas fraldas. E Sofia flutuava no seu planeta de bolha, dormia e sonhava. Ainda não sabia de falsos contos de fadas, onde Chapeuzinho Vermelho, era do comando vermelho, Branca de Neve na favela era pó, e dava cadeia. Ainda nada sabia dos vilões, Lobos Maus nos porões dos poderes, Bafos-de-Onça e Coringas que riam de tudo e de todos. Ainda aprenderia que o bem sempre, vencia. Sempre venceria. A Mônica, o Cebolinha, Margarida, Mickey, o Pato Donaldo, também sentia suas presenças. Sabia, estavam lá, nas paredes do seu quarto, no frasco de colônia, no pacote de fraldas, na toalhinha, sorrindo-lhe, dizendo: Seja Bem-vinda Sofia!

E Sofia resolveu dar o ar de sua graça. Escolheu um dia especial. Quis vir ao mundo num dia perto da data natalícia da mãe. E se o choro do vovô era de emoção, pela boa nova. O de Sofia era pra dizer, tenho frio, tenho fome, tenho cólica, limpem-me por favor! Estreou a vida daqui de fora, num mês que no calendário, à muito, começava o ano. Sofia quis começar a dar sentido à vida daquele casal, que se amavam e a amava, desde antes da concepção. E o pezinho de Sofia, pra sempre foi parar no braço do papai. Deusa grega, da sabedoria. Veio ser sábia, trazer serenidade, sabedoria pra um lar. Todo construído, pensado só pra ela. Antes de ser, já existia. Sofia existia nos planos de Deus. Criaturinha frágil, de colo. Carecida de toda atenção, todo amor do mundo, carinho pra tomar banho, se alimentar, arrotar, botar pra dormir. Primeiro álbum de fotos, os primeiros dentinhos. Mãos desengonçadas, ampliadas de cuidados, manuseando Sofia, como se de nitroglicerina pura. Mãos aprendendo a paternidade. Experimentando a experiência do Criador, de ser pai e filho a um só tempo.


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