13 nov

0 Comments

Damas de branco

Foto: Wikipédia

Foto: Wikipédia

O inverno prolongado no sertão alagoano pode emendar com trovoadas terríveis e benfazejas em benefício da agropecuária. Retornam as aves migratórias para as telas da paisagem campesina. Entretanto, o Bairro Floresta, em Santana do Ipanema, registra todos os dias ao entardecer, uma cena de colônia. Ocupando metade de um campo de futebol, garças-brancas-pequenas (Egretta Thula), provavelmente, pousam para o pernoite no garçal improvisado.

As garças já viviam no período eoceno (há 40 milhões de anos) e no plioceno (há 11 milhões). Elas são apreciadoras de terrenos pantanosos de águas rasas, onde encontram fartura de alimentos. Aplicam estratégia particular caçando e pescando aos deixar os ninhais. Nutrem-se de peixes, insetos aquáticos, caranguejos, moluscos, sapos e répteis.

Não temos uma região típica do habitat das garças, por aqui, o que faz pensar na razão dessa permanência. Em terreno pedregoso, inclinado e seco, ao lado de uma rua nova e sem calçamento, acomodam-se as aves. Na barreira, entre o hospital Dr. Clodolfo Rodrigues de Melo e o rio periódico Ipanema, formam o garçal pelo chão e sobre os arbustos resistentes às estações. Onde as garças-brancas-pequenas procuram alimentos para centenas de indivíduos? Ali por perto o rio Ipanema está completamente poluído. Os poços estão cobertos por plantas aquáticas e os peixes sumiram. Garça por perto é sinal de rio em condições ecológicas razoáveis, o que não acontece com o trecho urbano do Panema.

Encontramos bandos dessas aves nas proximidades do matadouro público municipal, no leito do rio, lugar denominado Volta. Contudo, as garças também se espalham pelos campos e são vistas ao lado de bovinos em plena pastagem, acompanhando os rebanhos. Dizem que em busca de carrapatos.

O certo é que ao pôr-do-sol, o espetáculo do ninhal na barreira do Bairro Floresta está completamente garantida. Aguardando estudiosos, apreciadores da natureza e máquinas fotográficas, ali estão as elegantíssimas aves. Possuem a perfil de sinuosas e belas mulheres da nossa sociedade, ilustrando verdadeiramente as DAMAS DE BRANCO.

Clerisvaldo B. Chagas, 13 de novembro de 2013.

Crônica Nº 1085

12 nov

0 Comments

Dois ícones e um afano

Encoberto até o pescoço no mar da Geografia, percorrendo a biblioteca de uma antiga escola, quase caio de costas. Nunca havia ouvido falar naquele livro que ao retirá-lo da estante, alisei estupefato e carinhoso a sua capa. “Geografia da Fome”, mas que novidade seria aquela? Ao ler o livro o impacto foi grande, tanto pela profundidade do conteúdo quanto pela apresentação literária que gruda os olhos no papel. Depois, muitos anos depois, o nome “Josué de Castro”, o autor, foi pontilhando aqui, acolá, timidamente, para hoje mostrar ao mundo inteiro que sua obra é feita de ouro em pó e resiste bravamente ao tempo.

Na época da minha descoberta, tive vontade de gritar para todos sobre o livro. Dentro da minha escola, falei da grandiosidade da obra de Josué.

Atualmente várias pessoas bebem dessa fonte, a exemplo de Susana Souto, pesquisadora e professora da Universidade Federal de Alagoas, UFAL. Podemos apreciar uma síntese da ilustre pesquisadora, na revista “Língua Portuguesa”, pág. 34, editada em outubro deste ano, quando ela diz:

“Saber e sabor partilham o mesmo étimo. No entanto, nem sempre vêm associados em textos científicos. Há uma visão disseminada, segundo a qual esse tipo de texto não precisa ter qualidades estéticas. Mas nem todos os cientistas têm essa visão. Muitos dedicam tanto tempo à coleta de dados e às reflexões sobre os resultados de suas pesquisas, quanto à elaboração dos seus textos.

Este é o caso de Josué de Castro (1908-1973), médico e pesquisador pernambucano, autor que se notabilizou ao publicar Geografia da Fome (1946), trabalho traduzido para mais de 25 idiomas. Josué assumiu vários cargos públicos, atuou como representante do Brasil na ONU e teve seu nome duas vezes incluído na lista do Prêmio Nobel da Paz.

Infelizmente seu nome figurou também em outra lista: a dos que perderam seus direitos após o golpe militar de 1964. Josué foi então condenado ao exílio, do qual não conseguiu retornar, após inúmeras tentativas. Cada vez mais abatido pela saudade do Brasil, faleceu em 1973. Seu enterro ocorreu no cemitério São João Batista no Rio de Janeiro e foi noticiado em pequenas notas pelos jornais da época, sem foto (proibida pelos censores da ditadura). Hoje, quando o Brasil discute seu sistema de saúde pública, passados mais de 30 anos de sua morte, lemos Geografia da Fome e ainda ficamos comovidos com a elaboração sofisticada de quadros terríveis da desigualdade social, compostos com palavras pensadas, e mais, sentidas, em sua plasticidade, em sua sonoridade”. E encerra Susana, a pesquisadora da UFAL: “Ouvimos ainda o grito de Chico Science, em sua canção-homenagem a esse pesquisador atento às contradições do país: ‘Ó, Josué, eu nunca vi tamanha desgraça/quanto mais miséria tem, mais urubu ameaça’.

Ah! Mais um reconhecimento a esse ícone Josué de Castro, o que me faz lembrar outro admirável mestre da Geografia, Aziz Ab’Saber. Retornando ao segundo parágrafo, logo o livro Geografia da Fome, criou pernas e, quando à biblioteca retornei, nem rastro Josué deixou. DOIS ÍCONES E UM AFANO.

Clerisvaldo B. Chagas, 12 de novembro de 2013

Crônica Nº 1084

07 set

0 Comments

Educação

Clerisvaldo B. Chagas, 6/7 de setembro de 2013.

Crônica Nº 1083

Como os debates sobre Saúde e Educação estão em voga, vejamos o texto abaixo, na íntegra, identificado no final.

“O renascimento das atividades comerciais e a prosperidade dos centros urbanos estimularam também o desenvolvimento intelectual. As universidades proliferaram-se, pois para a burguesia o conhecimento passou a ser indispensável à plena realização de seus negócios. No decorrer do século XII, as escolas, muitas delas fundadas durante o período carolíngio, tornaram-se excelentes centros de ensino, cujas disciplinas continuavam sendo as mesmas da época de Carlos magno. O curso era composto pelo trivium, em que se ensinava gramática, retórica e lógica; e pelo quadrivium, que iniciava o aluno em aritmética, geometria, astronomia e música.

Depois de completar o curso básico trivium e quadrivium, os alunos podiam preparar-se profissionalmente em escolas de “artes liberais” ou dirigir-se para as áreas de medicina, direito e teologia. Supõe-se que a primeira universidade europeia tenha sido a da cidade italiana de Salerno, cujo centro de estudos remonta ao século XI. As universidades de Bolonha e de Paris, ambas do século XII, estão também entre as mais antigas. Nos séculos seguintes, muitas outras surgiram, como as de Oxford, Cambridge, Montpellier e Coimbra.

Originalmente, estas instituições eram chamadas de studium generale, agregando mestres e discípulos dedicados ao ensino superior de algum do saber. Porém, com a efervescência cultural e urbana da Baixa Idade Média, logo se passou a fazer referência ao estudo do saber, ao conjunto das ciências, sendo o nome studium generale substituído por universitas. As universidades organizavam-se com base nas faculdades, cuja palavra, com o sentido de professores e alunos dedicados a um ramo do conhecimento humano, descendia originalmente de facultas, isto é, o direito de ensinar.

As universidades também gozavam de vários privilégios, destacando-se, além do direito de ensinar dos seus graduados (licentia docenti), a isenção de impostos e contribuições, a dispensa muitas vezes do serviço militar e até o direito a julgamento especial em foro acadêmico para os seus membros, vantagens garantidas quase sempre ou pelo imperador ou pelo papa, as duas maiores autoridades da época”.

VICENTINO. Claudio. História geral. São Paulo, Scipione, 2000. Pág. 156-157.

05 set

0 Comments

A CATEDRAL DE MACEIÓ

IMAGEM  ANTIGA DA CATEDRAL DE MACEIÓ. (Foto da própria Organização).

IMAGEM ANTIGA DA CATEDRAL DE MACEIÓ. (Foto da própria Organização).

Estamos diante da imponente Catedral Metropolitana de Maceió, ocasião que nos faz pensar sobre a quantidade de igrejas construídas no Brasil. São inúmeras, milhares entre pequenas e grandes que ajudaram a povoar o país levando adiante a fé cristã. Quem anda pelos sertões ainda contempla igrejas nos mais inusitados lugares. Fazendeiros construíam capelas, ermidas, e alguns queriam que depois os padres tomassem conta. Talvez não seja muito difícil construir-se um templo de tamanho razoável, mas parece que os construtores esqueciam-se do após, isto é, da manutenção anual que sem ela as casas de orações viravam ruínas. Como a igreja era rica, mantinha essas posses até com ajuda de paroquianos, mas como manter uma igreja de porte de uma gigantesca estrutura como esta de Maceió? No início havia apenas uma capela de engenho que se foi modificando, tornou-se matriz da paróquia desmembrada de Santa Luzia do Norte e agora representa o povo cristão como catedral da arquidiocese.

O lançamento da primeira pedra aconteceu no dia 22 de julho de 1840, quando governava a província Cansanção do Sinimbu. Somente em 20 de dezembro de 1859, o Visitador Diocesano Cônego Afonso de Albuquerque procedeu à bênção do magnifico templo. Foi o Barão de Atalaia quem ofertou uma belíssima escultura da Padroeira, benzida no dia 31 pelo próprio Visitador. Durante à tarde, entra majestosamente D. Pedro II, quando é entoado o hino de ação de graças. Quando foi inaugurada a nova Matriz, era pároco de Maceió, o Cônego João Barbosa Cordeiro, homem dinâmico que fundou várias instituições de peso. O Decreto de 02/07/1900 do Papa Leão III, criava a Diocese de Alagoas, conjuntamente, elevava à dignidade de igreja episcopal e Catedral, a Matriz de Maceió, nela instituindo a sede episcopal para aquele que deveria ser chamado bispo de Alagoas.

Assim como esse belo histórico da Catedral Metropolitana, também existem milhares de histórias mais humildes sim, porém, narradas pela tradição, como vitórias alcançadas e nuances incríveis. Vale à pena conhecer A CATEDRAL DE MACEIÓ.

Clerisvaldo B. Chagas, 5 de setembro de 2013.

Crônica Nº 1082

04 set

0 Comments

O HOMEM/CAVALO

HOMEM/CAVALO NAS RUAS DE MACEIÓ. (AUTOR).

HOMEM/CAVALO NAS RUAS DE MACEIÓ. (AUTOR).

As cidades grandes vão se modernizando devagar ou às pressas, mas os contrastes urbanos mostram-se em toda plenitude. Edifícios modernos surgem ao lado de terrenos originários de sítios com mangueiras e outras árvores que aguardam apenas o capital da especulação. Antigos bangalôs de famílias tradicionais, abandonados, ainda de pé graças à bondade da natureza, ricos falidos, restos de família ou fuga para apartamentos deixam-nos órfãos do passado radioso. Nenhum governo tem condições de ir tombando tantos prédios antigos que fizeram história e nem todos os artistas juntos conseguem salvar esses casarões espalhados vítimas do próprio tempo dos seus antigos donos. Os berros dos vendedores tentam imitar um passado de cinquenta anos, concorrendo com os sons poderosos e irritantes. Casas velhas transformam-se em mercadões iluminados de calçadas repletas de remendos. As barreiras comidas pela ação do homem e do clima mostram prédios gigantes no topo, ao lado de residências capengas como desenhos máximos da pobreza que ameaçam queda fatal com família e tudo.

E nas ruas, desde as primeiras luzes da aurora, a miséria sai à cata da sobrevivência, mostrando as mazelas mais esquisitas de um corpo descomunal de concreto. Chamam-nos invisíveis aqueles seres que passam sem serem vistos, pela situação degradante da pele social. Entre eles, está a criatividade que substitui o animal de tração, pelas mãos dos humanos mais humildes. O catador de papelão mistura-se ao trânsito ligeiro das avenidas apinhadas no fado diário de herói de casa. Arrastando uma carroça entre dois caibros e correntes penduradas, adapta-se o ser humano à condição cavalar. Com precisão e vista de rapina, vai conduzindo aquela carroça enorme cheia dos recortes que encontra nas lixeiras. Passa por todos automóveis, não bate em nenhum, nem relincha, nem escoiceia, mas não deixa de ser o homem/cavalo da sociedade que não o enxerga. Os edifícios continuam furando o céu, o luxo permanece no brilho dos metais e, o dinheiro grosso a circular nos azuis da prosperidade. Enquanto isso, o lixo pede passagem entre pneus, apitos e luzes. Você nem vê, mas bem perto circula O HOMEM/CAVALO.

Clerisvaldo B. Chagas, 4 de setembro de 2013.

Crônica Nº 1081

02 set

0 Comments

Rio Ipanema recebe os Guardiões

Foto: Agripa

Foto: Agripa

O Sol nem havia saído ainda. A neblina dominava os montes que circundam Santana sob ameaça de mais um dia frio e chuvoso, mas os “Guardiões do Rio Ipanema” já estavam apostos para mais uma apurada investigação pelo rio que pede socorro. Como o Ipanema trecho urbano havia sido dividido em seis subtrechos, a saber: Poço Grande/Ponte da Barragem; Ponte da Barragem/Poço das Mulheres; Poço das Mulheres/Poço dos Homens; Poço dos Homens/Passagem Molhada; Passagem Molhada/Poço do Escondidinho; Poço do Escondidinho/Cachoeiras, máquinas fotográficas, cadernetas de anotações e muita coragem acompanharam os Guardiões. Como o primeiro trecho já havia sido percorrido, os Guardiões desceram o rio iniciando pela ponte da Barragem e foram até as Cachoeiras. Muitos obstáculos tiveram que ser vencidos como pedras lisas, lamaçal, águas fétidas, cercas de arame, urtigas, falta de trilhas e outros que não desanimavam aos que se propuseram ao enfrentamento. A incursão só terminou nas Cachoeiras, quando os componentes retornaram pela rua do Bebedouro, passando pela foz do riacho Do Bode, divisória natural do perímetro urbano por ali. A investigação foi encerrada na casa da Guardiã, Dona Joaninha, onde aconteceu agradabilíssimo momento de lazer.

Assim a AGRIPA já possui relatórios e provas do que está acontecendo nos seis subtrechos do rio Ipanema. Agora estão previstas novas incursões pelos afluentes: riacho Camoxinga, Salgadinho, Salobinho e Bode para fechar a fase de pesquisa, organizar os arquivos e partir para a etapa de ouvir as comunidades, associações e escolas das proximidades do rio Ipanema e os tributários acima. Enquanto isso, os dados coletados até agora permanecerão em segredo até que na hora certa, todos os representantes da sociedade organizada serão convidados para a realidade do rio Ipanema e seus afluentes. A partir daí, então, medidas concretas deverão ser adotadas pelas autoridades, segundo se supõe.

Sexta-feira passada (a incursão foi no sábado) houve mais uma reunião ordinária da AGRIPA, em sua sede provisória, Escola Estadual Professora Helena Braga das Chagas, Bairro São José. Profícua sessão quando várias propostas foram discutidas, votadas e aprovadas, muitos informes, tempo de estudo, palavra à bem da AGRIPA e compromisso com a entidade. Os Guardiões continuam firmes na sua fase organizacional e investigativa.

Clerisvaldo B. Chagas, 1º/2 de setembro de 2013 – Crônica 1079

27 ago

0 Comments

LAMPIÃO E CORISCO

coriscoPara quem gosta de história de cangaceiros, apresentamos abaixo, matéria publicada na “Folha da Manhã”, jornal sergipano no tempo do cangaço. Dez dias após a morte de Lampião, era estampada no referido jornal:

“Diz-se que, morto Virgulino, o rei do cangaço, tem em Corisco um legítimo sucessor. Entretanto, somente a impressão exterior é que transfere para a atual eventualidade o prestígio de uma majestade que Corisco há muito adquirira por merecimento próprio.

Lampião, sem dúvida, o maior destruidor de riquezas e de vidas que já viveu no Brasil, criou fama à sombra de perversidades e vandalismos sem limite, Era uma alma esfíngica, um ser incompreendido, que guardava uma surpresa em cada gesto.

Suas atitudes não tinham a execução lógica de um caráter fixado na psicologia, pois a sua conduta era um mundo de fugas e fintas para os observadores mais íntimos. Era aliás, a chave do seu terrível prestígio.

Corisco é mais humano. Tem um caráter definido. Sem nenhum sentimento de bondade, age, porém, como homem lógico. É uma verdadeira máquina de precisão. Lampião ameaçava sempre, mas nem sempre executava a ameaça.

Corisco não diz o que pretende fazer. Faz. E, quando age, vai direto ao objetivo. Será fácil adivinhar-se uma atitude de Corisco, ao passo que era impossível saber o que Lampião faria até mesmo na hora do fato. Mas, na técnica de atacar, Lampião ficava muito a distância de seu antigo subordinado.

Na história sangrenta de Corisco não se registra um assalto frustrado. Ele estuda o terreno, pesquisa, prepara-se com requintes de cuidados, mas quando investe é para vencer sempre.

Não se aventura a um assalto duvidoso, ao passo que Lampião muitas vezes teve que fugir diante de uma resistência inesperada.

Esse homem diabólico ainda vive no sertão, onde sua fama só é menor do que a de Virgulino pela repercussão das barbaridades do rei do cangaço. As forças que combatem o banditismo reconhecem a superioridade técnica de Corisco e compreendem ser ele um bandido mais “duro” do que Lampião.

Morto o “terror do sertão”, resta às autoridades a caça ao bandido louro. Manuel Neto, Luiz Mariano e João Bezerra, a trindade de ferro que luta pelo extermínio do cangaço no Nordeste sabem que encontrarão em Corisco um inimigo se não mais perigoso, pelo menos mais valente e mais difícil de abater. Vai começar, agora, a caçada ao bandoleiro de olhos verdes. Não faltarão aos seus perseguidores a tenacidade e a coragem necessária para enfrentar todos os riscos dessa luta de morte a que os sertões nordestinos assistirão”.

Clerisvaldo B. Chagas, 27 de agosto de 2013

Crônica Nº 1075

26 ago

0 Comments

“O NATAL DE GRECCIO”

Vamos iniciar a semana com uma inspirada lição de moral do nosso saudoso amigo e escritor penedense. Tenha coragem de ir até o fim.

ASSIS“Os homens crescem no acumular riquezas. Lutam e nem sempre com dignidade pela conquista do poder. Procuram solapar a dignidade da família. Agridem à natureza, obra de Deus, a serviço do próprio homem. Nega a Deus, construindo dentro de si, do seu “eu” um ídolo que o atrai e o trai, deixando-o apaixonado pela sua própria grandeza fugidia e passageira. Assistimos, não vejamos nesta afirmação pieguismo e nem cafonismo, um termo do momento, uma total “negação de Deus”.

O mundo da técnica que deveria crescer harmonicamente está perdido dentro de sua própria realidade. Quando o homem que é obra de Deus, deveria como Francisco cantar o ─ “Cântico das Criaturas”, louvando pelas coisas criadas ao Criador, ele com seu egoísmo procura destruir a natureza, pois destruir o próprio homem já não satisfaz.

Tudo isso acontece porque o homem moderno prefere fechar o caminho que o leva a Deus que é a “oração”, construindo dento de si o muro que divide ricos e pobres, povos, filhos e pais, homens e o homem e Deus.

Como o homem do século XX precisaria parar para uma reflexão! Calar, para no silêncio poder escutar. Tomar consciência de que a sua vida é um trânsito longo ou curto. Porque tanta ânsia de acumular riquezas, deter nas mãos o poder? Porque anular o irmão para conquistar posição na sociedade? Porque anular fugir de sua procedência divina, assumindo um comportamento que nega a sua razão de ser? (…)

(…) Nós homens todavia, continuamos com uma atitude covarde, distanciados da nossa própria realidade, surdos ao chamamento, temerosos do encontro com a Verdade, iludidos com o fugitivo, vazios, realmente, vazios.

Viver a nossa realidade de ser criado não significa negar o valor dos “valores de hoje”. Cada tempo tem a sua marca e sempre o homem é o agente da sua realização. Se na Idade Média vivemos um momento inspirado no “Teocentrismo”, no Renascimento assistimos a transformação da sociedade alicerçada no ideal Antropocêntrico. O homem assume a própria dignidade de ser criado e começa a participação da obra da criação que é contínua e perene.

A mística seráfica não objetiva deixar o homem apático, fora da realidade da vida, alienado das exigências do tempo. A mística seráfica soma com muita autenticidade o Teocentrismo como fonte de ser como o antropocentrismo atitude consequente de tomada de posição, onde o homem realiza a sua missão de ser “co-criador com Deus”. Viver o franciscanismo é assumir com dignidade a presença dos desafios porém sem egoísmo, mas com plena consciência em Deus. É aceitar a sua realidade de agente co-criador e na obra de criação que continua. É a aceitação plena da nossa condição de homem”.

MÉRO, Ernani. Retalhos. Maceió, Sergasa, 1987. Págs. 50-52

18 ago

0 Comments

Pelas ruas de Maceió

Parque Gonçalves Ledo, em agosto de 2013. (Autor)

Parque Gonçalves Ledo, em agosto de 2013. (Autor)

Navegando em cima de duas pernas, vamos inspecionando o Comércio da velha Maceió, fundada em 1609 e desmembrada da Vila de Santa Maria Madalena da Alagoa do Sul, em 1815. Sua elevação à condição de cidade, aconteceu em 9 de dezembro de 1839, graças ao movimento do porto de Jaraguá, por onde era exportado açúcar, tabaco e coco.

O Comércio pouco mudou em relação ao nosso tempo de estudante, em seu aspecto físico. Podemos dizer que a única novidade relevante foi o calçadão que veio com a finalidade de revitalizar o Centro, após o advento de Shoppings, pelos bairros. O costume da burocracia brasileira de concentrar tudo nas capitais faz-nos peregrinar repartição por repartição para resolver simplesmente uma folha de papel, graça a arrogância de chefinhos de repartições.

E vamos aproveitando para rever ruas tão faladas e prédios tão pouco conhecidos. Assim nos deparamos com a Rua do Sol, onde inúmeras vezes passamos na luta pela vida. Beco do Moeda, Rua das Árvores, Ladeira do Brito, denominações emplacadas pelo povo que ainda hoje resistem aos títulos oficias das vias.

Ali está o Instituto Histórico e Geográfico de Alagoas, onde entramos pela primeira vez, como estudante, pagando apenas uma quantia simbólica. Em segunda oportunidade, conversamos muito com o escritor penedense Ernani Otacílio Méro − que muito nos incentivou a migrar para a capital − prefaciador do meu romance “Defunto Perfumado”. Pela terceira vez adentramos aquele prédio para pesquisar sobre ”Lampião em Alagoas”.

Instituto Histórico e Geográfico de Alagoas, em agosto de 2013.  (Autor)

Instituto Histórico e Geográfico de Alagoas, em agosto de 2013. (Autor)

O Instituto é uma organização da sociedade civil dedicada ao estudo e à pesquisa nos diversos campos da História, da Geografia e das Ciências Sociais. É um edifício tombado pelo patrimônio estadual e fundado em 2 de dezembro de 1869. Abriga o mais representativo acervo iconográfico e documental sobre a história de Alagoas, além de conjuntos de interesse arqueológico e etnográfico, obras de arte, hemeroteca, fototeca, biblioteca e arquivo.

Mais acima um pouco, do Instituto Histórico e Geográfico de Alagoas, o Parque Gonçalves Ledo que muito me impressionava na época. Não perdeu a beleza, porém, com histórias de tarados, drogados e outras coisas mais, anda um pouco deserto pela falta de segurança nos logradouros da cidade. Vamos navegar PELAS RUAS DE MACEIÓ.

Clerisvaldo B. Chagas, 15 de agosto de 2013. Crônica Nº1068

15 ago

0 Comments

Ponte do Urubu

Espaço começa a passar por obras (Foto: Assessoria PMSI)

Espaço começa a passar por obras (Foto: Assessoria PMSI)

Cochilando no ponto nos dias 13 e 14, estamos tentando recuperar o tempo perdido com um grito bom. É estampada finalmente a notícia do início das obras no chamado “Buraco de Nenoí” ou “Ponte do Urubu”, denominações populares sobre um terreno baldio em pleno centro comercial.

O local fica por trás dos muros de parte da Rua Tertuliano Nepomuceno, Rua Barão do Rio Branco, Rua Siqueira Campos e proximidades do Bairro Artur Morais. O terreno tem forma de anfiteatro, é cortado pelo riacho Camoxinga que hoje não passa de uma grande língua negra no trecho urbano que envergonha a cidade. Desmatado e futucado no final da administração 1993-96, com alegações de que seria uma praça multe eventos, o povo duvidava porque não havia tempo hábil.

Apenas uma ponte foi construída no terreno desbastado e, a cobertura do riacho nunca saiu do papel. Após cerca de dezessete anos de tanta imundície no centro de Santana, sem que uma única gestão colocasse pelo menos uma pedra na malfadada obra, eis que de repente acontece o inesperado: O anúncio da grande transformação. Com tanto abandono, lixo e águas negras, a população ainda chama o local e suas imediações de “Ponte do Urubu”.

A planta apresentada em um dos sites da cidade, não é muito esclarecedora. Esperamos que tenha sido feita por urbanista, engenheiro ou coisa assim e não por aqueles tipos sabe-tudo que sempre estão pendurados nas prefeituras, tão broncos como antigas paredes de igrejas. Após dezessete anos de espera, não se pode desejar mais um mostrengo para nos envergonhar mais ainda. O site não diz se vai haver cobertura do riacho Camoxinga naquele trecho. Não fala em saneamento e limpeza completa no núcleo e periferia, pois não queremos, com certeza, uma noiva de luxo com pés de lama. De qualquer maneira, louve-se a atitude do atual prefeito, professor Mário Silva, que apontou diretamente a fístula urbana para uma ansiada cirurgia, onde faltou a coragem e sobrou malícia em quem, podendo fazer não a fez. O prefeito sempre se baseou em Arapiraca, pois essa obra não deverá ser menor em nada em comparativo com as que temos observado e louvado como grandiosas e modernas na antiga Terra do Fumo. Outra obra que deverá coroar o trabalho do professor deverá ser o grande calçadão do comércio da Praça Emílio de Maia ao Mercado de Carne. Acontecerá?

Com a decisão sobre o Largo Cônego Bulhões, o professor Mário Silva dá uma prova que não vai ficar ESCOVANDO O URUBU.

Clerisvaldo B. Chagas, 13/14/15 de agosto de 2013. – Crônica Nº 1067