Assentados de Maragogi produzem polpa e café de açaí

08 nov 2021 - 23:00

Sucos e sorvetes são produzidos a partir da polpa. O café é beneficiado a partir do caroço. (Foto: Assessoria)

Assentados de Bom Jesus, assentamento da reforma agrária no município alagoano de Maragogi, a 134 quilômetros de Maceió, estão produzindo polpa e café de açaí. O cultivo dessa fruta e a produção de café são uma novidade em assentamentos de Alagoas.

A família de Vera Lúcia da Silva já faz o plantio há dez anos. Ela produzia a polpa e, há alguns anos, passou a produzir o café.

Vera Lúcia tira o sustento da família exclusivamente do lote. Ela é assentada há 21 anos. O marido, José Adelson, trabalha com ela. Eles possuem quatro hectares de terra e também plantam graviola e limão.

Em outros assentamentos desse município há agricultores produzindo mudas de açaizeiro para vender. Isso amplia as possibilidades econômicas do açaí.

Com esses exemplos, mais famílias passaram a se interessar e iniciaram o plantio em diferentes assentamentos do estado.

Técnicos do Incra identificaram a ocorrência de açaí nos assentamentos Itabaiana, Costa Dourada, Pau Amarelo, Buenos Aires e Aquidaban, todos também em Maragogi.

Os assentamentos Sebastião Gomes, no município de Flexeiras, Flor do Bosque (Messias), Zumbi dos Palmares (Branquinha), Duas Barras II (São Luís do Quitunde), Conceição (Porto Calvo) e Fidel Castro (Joaquim Gomes) também já fazem o cultivo.

PRODUÇÃO

O açaizeiro é uma palmeira de frutificação demorada. Pode chegar a mais de três anos entre o plantio e a primeira colheita. Vera Lúcia conta que foi difícil a introdução da cultura no trabalho da família.

“Houve um certo desânimo no começo, quando recebemos as mudas e o apoio da Coopeagro, mas da própria cooperativa veio o encorajamento para manter o plantio”, destaca. “Depois, começamos a receber orientação do Incra e decidimos expandir.”

A Cooperativa dos Pequenos Agricultores Organizados citada por Vera atua na zona rural de Maragogi e incentiva a produção do açaí na região Norte de Alagoas.

São três safras anuais. A produção do lote de Vera Lúcia alcança 10 toneladas da fruta in natura por ano. A família foi orientada por técnicos do Incra a produzir uma polpa consistente. E consegue fazer uma média de 35 kg de polpa para cada 100 kg de açaí colhidos.

O engenheiro florestal José Ubiratan Rezende Santana, analista em Reforma e Desenvolvimento Agrário do Incra, explica que a polpa de açaí comercializada por Vera é diferente das conhecidas e adquiridas no mercado.

“A polpa de Bom Jesus não possui mistura com nenhum outro produto, é 100 % natural, de um tipo que não era encontrado antes em Alagoas, e isso garante um espaço próprio de mercado.”

Segundo o engenheiro, a consistência é obtida com a mesma técnica de beneficiamento usada no estado do Pará, maior produtor e consumidor de açaí no País.

Sucos e sorvetes são produzidos a partir da polpa. O café é beneficiado a partir do caroço.

PANDEMIA

A queda na comercialização durante a pandemia reduziu a produção. Contudo, uma iniciativa do Incra ajudou no escoamento e comercialização dos produtos.

A Assistência Técnica e Extensão Rural (Ater) da autarquia passou a articular grupos de compradores de açaí em Maceió. A produção foi mantida. “Com esse apoio do Incra, conseguimos quem adquirisse o açaí nessa fase difícil”, explica Vera.

Ela se refere a um grupo de compras coletivo para fazer a mediação entre consumidores e a família produtora e escoar a produção represada.

José Ubiratan participou dessa articulação. “Inserimos o açaí no coletivo de consumo ecológico chamado Saúde na Roça, no bairro de Riacho Doce, que já comprava alimentos diversificados do assentamento Zumbi dos Palmares, em Branquinha, e adicionou o açaí no cardápio”.

As vendas num dia de domingo pré-agendado, costumam alcançar 150 kg de açaí, de acordo com o engenheiro.

ASSISTÊNCIA TÉCNICA

A equipe do Incra também orientou sobre o beneficiamento do fruto. A polpa apresentava quantidade elevada de resíduos do açaí e comprometia a qualidade para o consumo.

“Orientamos na troca do motor e também da peneira, inserindo uma mais fina para reter melhor os resíduos, e isso resultou numa consistência adequada do açaí.”

Essas mudanças foram feitas para melhorar o método de produção. O beneficiamento do açaí e a produção da polpa e do café ocorrem na Casa da Fruta, como é chamada por Vera.

A família teve acesso a alguns créditos disponibilizados pelo Incra. Já recebeu o crédito Instalação para Construção e Reforma de casa e o crédito Instalação Apoio Inicial. Agora, se prepara para acessar o Fomento Mulher.

Técnicos do Incra farão visitas ao lote para acelerar o acesso a esse e outros créditos liberados para assentados de todo o estado.

Essa linha de crédito é específica para mulheres da reforma agrária e apoia projetos de segurança alimentar e nutricional. O valor do crédito Fomento Mulher é de R$ 5 mil, com taxas de juros de 0,5%. Do total, o governo federal entra com 80%. A assentada assume a obrigação de pagar 20%.

Vera tem planos para a aplicação do recurso. Pretende equipar e ampliar a Casa da Fruta. “A gente está esperando receber esse projeto para comprar mais um freezer, adquirir balcão e baldes de inox.”

IRRIGAÇÃO E FOCO ECOLÓGICO

O superintendente do Incra, César Lira, pretende trazer a parceria da Companhia de Desenvolvimento do Vale do São Francisco (Codevasf) e da Universidade Federal de Viçosa, de Minas Gerais, para apoiar a fruticultura na região, incluindo o açaí.

Lira explica que já existe um Termo de Execução Descentralizada entre as duas instituições, com ações em Alagoas. “Levamos os técnicos da Codevasf no assentamento para estudar a implantação de um sistema de irrigação, e isso vai expandir a área de açaí para a chamada ‘terra firme’, gerando mais potencial produtivo.”

O açaizeiro é uma espécie nativa da Amazônia. Com a expansão comercial do fruto, produtores de outras regiões, em especial o Nordeste, vêm mostrando interesse no cultivo.

A palmeira é encontrada, naturalmente, em solos de várzea, na região de origem. E é assim que tem sido cultivado no assentamento Bom Jesus.

César Lira afirma que o plantio é uma alternativa para ambientes com solos encharcados, possível de entrar no manejo sustentável de áreas de reserva legal. “Estamos falando de áreas pouco ou nunca utilizadas pelas famílias e que, agora, passam a ter uso econômico.”

O superintendente do Incra pretende incentivar outros assentados a perceberem as vantagens produtivas do açaí. Ele destaca que o plantio contribui para o restabelecimento das funções ecológicas.

“É uma produção diversificada e já traz um potencial para geração de renda, o fruto possui valor nutricional, além de ser alimento para a fauna silvestre.”

CAFÉ DE AÇAÍ

A parceria trazida pelo Incra chega num momento importante para Vera Lúcia e sua família. Eles estão satisfeitos em divulgar o trabalho, sobretudo o café de açaí, mas reconhecem dificuldades.

“O trabalho com açaí é cansativo. Passamos um dia inteiro trabalhando na colheita e na obtenção da polpa, e, no dia seguinte, já temos que nos dedicar a um trabalho demorado na torra para a produção do café”.

Vera Lúcia afirma que o acesso à irrigação e a aquisição de novos créditos vão fortalecer a produção e comercialização. A assentada demonstra conhecimento e dedicação ao tema e chama atenção para os benefícios da bebida.

“O poder do café do açaí é tanto que pode melhorar os níveis de colesterol e tratar outras enfermidades, como doenças cardíacas e diabetes, tudo isso por conta dos altos níveis de taninos existentes”.

Estudos diversos confirmam a presença de taninos no açaí. São compostos orgânicos que atuam como defesa contra pragas e estão presentes em especiarias, no cacau, açaí, romã, castanhas e algumas leguminosas. Embora não conclusivas, pesquisas indicam a eficácia dos taninos na prevenção e combate de enfermidades.

Além dessa vantagem nutricional e medicinal, em razão dos taninos e de uma gama de vitaminas presentes no fruto, o café do açaí, ao contrário do tradicional, não possui cafeína.

O produto de dona Vera se apresenta, portanto, como uma alternativa para os que evitam o uso dessa substância em sua dieta. Mais argumentos que ajudam na divulgação do café de açaí de Bom Jesus.

Por Assessoria

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