Sobre Djessyka Silva

Djessyka Silva é servidora pública, atuando como Educadora Social em Santana do Ipanema. Bailarina e amante de todas as artes. É Assistente Social e graduanda em Ciências Biológicas pela Uneal


Escravidão

30 março 2019


Foto: Reprodução

Somos educados para crescer, estudar, continuar estudando até produzir, e chegar ao ápice de nossas vidas, que é viver da nossa produção. Seja lá qual a carreira profissional que escolhemos seguir (ou temos a oportunidade de conseguir), ela só nos basta se conseguirmos manter um status constante de produção.

É irrevogável que nós alimentemos o sistema. Precisamos ser máquinas ininterruptas, ou as próprias máquinas, produzidas por outros criadores, tomam conta de todo o espaço. E a nós, só resta produzir mais. Bater metas. Trabalhar, criar e produzir incansavelmente, até que todas as gotas de suor sejam devolvidas em forma de zeros à direita.

De maneira geral, a sociedade está cada vez mais frustradas, e com índices constantemente crescentes de depressão. Vez ou outra, observo grupos sociais distintos de uma mesma comunidade, e me questiono em um calculo que não fecha: quantos zeros à direita são necessários acumular, para um indivíduo extinguir a ideia (ou sensação) de ser um zero à esquerda?

O que quero dizer é que, quanto mais desenvolvida parece se tornar uma sociedade, mais os seus componentes trocam suas vidas para que este desenvolvimento aconteça. E quanto mais se produz, mais produção é cobrada, e mais números são almejados.

Os pequenos criadores, invencionistas, produtores, investidores, quanto maiores (e cito aqui um potencial financeiro) ficam, mais se tornam escravos de sua própria criação. A vida é vendida. Por mais que os resultados em uma conta bancária mostrem satisfação, a estabilidade se desestabiliza quando, ao tempo em que acumulamos, deixamos de viver.

Além do tempo que reservamos para comer, sem nem saborear a comida; dormir, sem qualidade e em curto tempo; suprir com as necessidades de higiene e/ou fisiológicas, geralmente feitas de forma automática, quanto tempo sobra? Você tem aproveitado o intervalo?

Nós vamos a um bar com os amigos, e não soltamos o celular onde está sendo marcada a próxima reunião. O almoço em família precisa ser rápido, pois seu chefe te espera às 13:00 horas em ponto, e não aceita atrasos. A viagem que você sonhou durante a adolescência inteira, não sai da utopia, pois agora que tem dinheiro, não lhe sobra tempo. Aquele esporte que te fazia bem, já não cabe mais na agenda… A frase mais falada dos últimos tempos se tornou também a desculpa pra tudo: “não posso, estou sem tempo”.

Por mais paixão que tenhamos a uma profissão, uma carreira acadêmica, ou quaisquer outros fatores como estes, se encarados com extremismo, transforma-se em um sentimento de curto prazo, e logo se esvai. Se fizermos das nossas ocupações, a nossa vida, chegaremos ao fim dela com acúmulos de bens que só servirão para pagar a nossa morada final. Mas e a vida, viveu?

É muito mais provável que você ouça anciões, contando com riqueza de detalhes sobre aventuras, experiências e histórias de vida incríveis. Enquanto que da geração coca-cola pra cá, os contos de vida sejam sobre o trabalho, a casa que conseguiu comprar, o condomínio, o carro do ano, a chácara com piscina que financiou, o restaurante de luxo… E quanto mais zeros à direita, mais vazios em essência.

Até que ponto vale a sua estabilidade, quando ela tira de você o seu direito de viver, e cobra a duras penas uma constante manutenção? O problema está na normalidade de tudo isso. O ato de sabotar a vida vai se tornar cada vez mais natural, à medida que você permitir. Logo, trocar o lazer por trabalho será corriqueiro. Estar estressado, cansado e infeliz, será uma condição natural. Não ter tempo, já é algo normal.

O tempo passa, os filhos crescem, os familiares se vão. A nova geração de criadores e produtores nascem, e você, se vê na terceira idade, sem mais conseguir produzir. É passado para trás rapidamente, por uma tecnologia anos luz mais avançada (das quais outras pessoas pararam de viver para desenvolvê-las), com uma conta bancária gorda, e um amontoado de bens e propriedades. E cabe aqui citar um breve pensamento de Friedrich Nietzsche: “O sucesso tem sido sempre um grande mentiroso”!

Mas agora, já não pode gozar da vida. Está cansado demais. Produziu o bastante. Devolveu para o sistema tudo que esperavam de você. Foi, literalmente, uma máquina. Um criador, escravo da criatura. E agora, só consegue pensar em dormir todos os anos de insônia acumulados, e descansar todos os anos de falta de tempo. Se vê em uma bolha viva e nervosa, prestes a explodir para um despertar de vida, mas já não consegue contemplar o viver.

A vida está à venda. Quanto vale a sua?

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