Sobre Sérgio Campos

Sérgio Soares de Campos, nasceu em 11 de novembro de 1961, em Santana do Ipanema, Alagoas. Possui crônicas publicadas em sites e livros como: À Sombra do Umbuzeiro e À Sombra do Juazeiro. É membro idealizador e cofundador da Associação Guardiões do Rio Ipanema (Agripa). Criou o projeto musical Canteiro da Cultura, lançado dia 14 de dezembro de 2019.


A grande importância que as professoras exerceram em minha vida

15 outubro 2019


Sérgio Campos e sua professora Laura Chagas, no dia em que recebeu seu certificado de 4º ano primário (Foto: Arquivo Familiar)

Recordo-me de minha mãe me aprontando para ir à escola, a primeira que frequentei, o meu Jardim da Infância. Uma lancheira com a estampa do Capitão América, quase sempre abastecida de refresco e bolachas, era basicamente tudo que eu carregava. 

Decorria-se o ano de 1970, e a escola se localizava nas dependências da igreja Sagrada Família, na Avenida Dr. Arsênio Moreira.

Eu estava ingressando na alfabetização, no “ABC”, como chamávamos à época, e minha primeira professora foi Lucia Carvalho, “Lucinha”, uma vizinha nossa na Praça da Bandeira.

A escola, que se destinava exclusivamente à educação infantil, objetivando preparar a criança para o ciclo escolar básico, tinha pouco tempo de existência e era uma novidade na cidade, trazida pelas freiras holandesas irmãs Letícia e Ana.

A disciplina era bastante rígida. Me recordo de colegas que eram obrigados a cumprir determinado castigo que poderia ser considerado torturante: ficar de joelhos, com um determinado peso na cabeça. E, caso voltasse a cometer o mesmo erro, o castigo aumentaria para, além do peso na cabeça, permanecer ajoelhado sobre uma porção de grãos de milho.

Nossa classe tinha cerca de quinze alunos. Dois deles ficaram bem destacados nas paredes de minha memória: a Ligia Sibele, que todos os dias chegava chorando  por ter que ficar na escola. Eu não entendia o porquê daquela sua agonia. O outro colega foi Rosival Sobreira. Este, depois de uma divergência que tivemos, me deu uma carreira. Hoje, rimos quando eu lembro a ele que a primeira carreira a gente nunca esquece.

Como Deus criou batatas?

Em 1971 eu estava apto a ingressar no primário. A escola mais próxima da minha casa era o Grupo Escolar Padre Francisco Correia, onde eu passei os inesquecíveis quatro anos do Curso Primário. Fiquei um tanto apreensivo com a expectativa de ingressar naquela escola, pois, se no jardim da infância já estávamos suscetíveis àqueles duros castigos, imaginava o que poderia ocorrer na próxima etapa, quando já tínhamos idade mais avançada, portanto, logicamente, capazes de suportar punições ainda mais rigorosas.

Quem já estava lá e fez o papel de me alertar e, ao mesmo tempo me assustar, foi o meu irmão Fábio, um ano e meio mais velho do que eu. Me recordo que ele falava da rigidez disciplinar imposta por Dona Marinita Peixoto Noya, a diretora.

Certa ocasião, próximo à celebração do Sete de Setembro, fui assistir a um ensaio da banda marcial da escola em que iria estudar no próximo ano.

Estávamos a poucos dias do desfile, portanto aquele seria um ensaio geral, envolvendo músicos e alunos num treino conjunto.

O ensaio era realizado num espaço ao lado do prédio escolar, uma área da própria escola, cercada por um muro baixo, que permitia aos passantes assistirem aos movimentos cadenciados das formaturas, que se faziam por classe. 

Os alunos começaram a marchar batendo o pé com muita força e até arrastando o calçado sobre a terra ressecada. Não demorou muito para que o local ficasse empoeirado, a ponto de quase não se enxergar outra pessoa a poucos metros.

Eu estava descontraído e apreciando aquela cena, admirando o vigor dos alunos, quando ouvi os gritos: “Epa! O que é que está acontecendo aqui?!”

Olhei para trás e vi aquela mulher de olhar e passo firme, se dirigindo para perto de mim.

Ali mesmo ela parou e todos ficaram quietos, inclusive os músicos.

— Que bagunça é essa? — perguntou Dona Marinita, mas não obteve resposta, bateu aquele silêncio geral, não se ouvia um “pio”. 

Ela, então, continuou, agora proferindo verdadeiro sermão: “Vocês estão pensando o quê? Que podem fazer aqui o que fazem em suas casas, é?! Escutem bem! Eu vou sair agora, vou chegar em casa, almoçar e tirar um cochilo. Eu quero sonhar que algum de vocês fez alguma bagunça”. Em seguida Dona Marinita disse uma frase que ficou ecoando em minha cabeça por algum tempo: “Vocês pensam que vão viver aqui como Deus criou batatas, é?” 

Fiquei pensando o que ela quis dizer com aquilo. Naquela época a gente não contava com o Google, portanto não se tirava dúvidas tão facilmente. Eu me lembro de ainda ter perguntado a dois colegas meus o que aquilo significava. Como era que Deus criava batatas? No entanto, eles também não sabiam.

O tempo passou, meus pensamentos também passaram e de repente eu já estava estudando o 1° ano no Padre Francisco Correia.

Durante os quatro anos, eu tive algumas professoras que marcaram a minha infância escolar. Entre elas Dona Dione, Dona Laura Chagas e Dona Carmem Lúcia.

Também me traz boas recordações as merendeiras que cuidavam do nosso lanche na hora do recreio: Dona Nazilha e Dona Nanete. 

Naquela época, às vezes, nos partilhávamos a merenda. Tinha dias que as professoras nos pedia para trazer algum complemento para a sopa do dia seguinte. Em geral, cada aluno levava um tipo de legume, uma verdura, no final todos tomávamos uma excelente sopa.

Também não dá para esquecer o Dia do Professor. Me recordo que íamos à escola, mas nunca havia aula naquele dia. Era só comemoração. Lembro-me quando a professora entrava na sala de aula e nós começávamos a cantar dando-lhe parabéns. Ela, geralmente, dissimulava, fingia não estar entendendo o que nos motivava aquele canto. E aí, todos se levantavam e iam cumprimentá-la. Isso sem esquecer o presente: revezava entre um sabonete e uma caixa de bombons.

Em 1973, conclui o Curso Primário, foi quando recebi o meu diploma, num dia de festa, das mãos da professora Laura Chagas. A partir daí comecei a me preparar para o curso Ginasial. Para isso eu tinha que passar no “Exame de Admissão”, uma espécie de vestibularzinho, para ingressar no Ginásio. Para isso minha mãe achou por bem me colocar para ter um reforço escolar. Naquele momento, entra mais uma professora na minha vida, Dona Jarina Carvalho. No final eu fui bem sucedido e passei de primeira no Admissão. Daí teve início uma nova etapa nainha vida escolar, foi a vez do Ginásio Santana fazer parte da minha história. Mas, ai já é outra história que eu conto em outra oportunidade.

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