Aprendizes de pai

8 agosto 2012


Quando meu filho disse que ia embora. Naquele instante, lá bem dentro, num cantinho onde dorme a tristeza dos meus pensamentos. Aquela música da dupla sertaneja veio me embalar. Consolar-me talvez. Acho que consegui disfarçar, embora os olhos marejados denunciassem-me. Em questão de segundos, toda uma vida, num relampejo, passou na mente, como um trailer dum filme. Ali na frente dele, não podia chorar. Pior, tinha que ser forte o suficiente para incentivar, passar sensação de confiança, de apoio. Bocado difícil. No nosso excesso de zelo e proteção, nós pais, achamos que os filhos nunca estão prontos, preparados pra cair na vida. Estarão sempre, terna e eternamente, a precisar de nós.

À noite, trancado no quarto, embaixo das cobertas de dormir, o choro veio. Um choro morno, bom de chorar, a um só tempo contido e desatado. Quis volver no tempo, num retrocesso de vinte e poucos anos. Lembrei quando sua mãe, em estado gestacional avançado, entrou em trabalho de parto. Tudo estava devidamente preparado, para àquela hora. Uma semana antes, bolsa contendo o enxoval. Tudo, premeditadamente organizado, carro pra levar ao hospital Dr. Arsenio Moreira. A obstetra permitiu-me, assistir. Antes, havíamos optado em não fazer ultrassonografias. Bom a expectativas, a surpresa. E foi. No dia quatro de agosto daquele ano, veio ao mundo. Nosso primogênito, filho amado, um varão, da descendência de Davi, de Israel. Veio encher duas vidas. Preencher o vazio duma casa, ser luz. Passamos a ser um casal de três, o que a família um dia almejara.

E agora, eis que estava ali, a dizer que iria embora, morar com a namorada, em Maceió, num apartamento no farol. Renunciava o emprego em Santana do Ipanema, sua terra natal. Ia tentar conseguir ocupação semelhante, na terra do sol, paraíso das águas. Só tínhamos que concordar. Abençoar aquelas vidas, pedir que Deus colocasse sua mão protetora selando seus destinos. Afinal, havíamos trilhado caminho parecido. Agora era a vez dele. E o tempo se encarregou de aplacar nossas angústias, nossas incertezas. De longe rezávamos, volvíamos nossos olhos a Deus pedindo por eles, e pra eles, proteção divina.

Um belo dia chegou e disse: – Pai você vai ser vovô! De novo! Como Deus é bom para com os seus. Antes de vir ao mundo, ela já sabia que se chamaria Sofia. A ansiedade fê-los descobrir que era uma menina, antes do parto. Amada, antes de concebida, mais ainda depois. Nove meses amada, amplamente aguardada. Mesmo nós em Santana, eles em Maceió, conseguíamos nos transportar pra lá. Em sonho, íamos parar dentro do seu apartamento e víamos. Belo casal, assemelhado ao casal lá da Judéia. Tudo tão simples. Cabeça apoiada no ventre de sua amada. Ventre planeta redondo, onde a única forma de vida habitava o interior. Como se da obra de Antoine Saint-Exupéry o Pequeno Príncipe cabelos revoltos conversava com Sofia:

-Que quer dizer “cativar”

-Tu não és daqui – disse a raposa – Que procuras?

-Procuro os homens – disse o pequeno príncipe

– Os homens – disse a raposa – têm fuzis e caçam. É assustador! Criam galinhas também. É a única coisa que fazem de interessante. Tu procuras galinhas?

-Não – disse o príncipe – Eu procuro amigos. O que quer dizer “cativar”?

-É algo quase esquecido – disse a raposa. Significa “criar laços”.

Dentro da barriga da mãe, Sofia ouvia o pai, que contava histórias só pra ela, e cantava cantigas de ninar, entrecortadas, pela metade, em ritmo de rock’in roll, a som de guitarra. Dizia das histórias que lia, e do quanto era aguardada. Dizia do enxoval que estava sendo preparado com muito carinho, do quarto. Seu quarto, com esmero, por ele próprio pintado. Um pedaço de céu aqui na terra pra Sofia. Bibelôs, travesseirinhos – tudo tão minúsculo, como se trazido da “Terra do Nunca” de Peter Pan, das viagens de Gulliver – Chuquinha de chá, chuquinha de água, babadores, toquinhas, pares de sapatinhos com cara de coelhinhos. Macacões com carinhas de ursinhos, e fraldas, muitas fraldas. E Sofia flutuava no seu planeta de bolha, dormia e sonhava. Ainda não sabia de falsos contos de fadas, onde Chapeuzinho Vermelho, era do comando vermelho, Branca de Neve na favela era pó, e dava cadeia. Ainda nada sabia dos vilões, Lobos Maus nos porões dos poderes, Bafos-de-Onça e Coringas que riam de tudo e de todos. Ainda aprenderia que o bem sempre, vencia. Sempre venceria. A Mônica, o Cebolinha, Margarida, Mickey, o Pato Donaldo, também sentia suas presenças. Sabia, estavam lá, nas paredes do seu quarto, no frasco de colônia, no pacote de fraldas, na toalhinha, sorrindo-lhe, dizendo: Seja Bem-vinda Sofia!

E Sofia resolveu dar o ar de sua graça. Escolheu um dia especial. Quis vir ao mundo num dia perto da data natalícia da mãe. E se o choro do vovô era de emoção, pela boa nova. O de Sofia era pra dizer, tenho frio, tenho fome, tenho cólica, limpem-me por favor! Estreou a vida daqui de fora, num mês que no calendário, à muito, começava o ano. Sofia quis começar a dar sentido à vida daquele casal, que se amavam e a amava, desde antes da concepção. E o pezinho de Sofia, pra sempre foi parar no braço do papai. Deusa grega, da sabedoria. Veio ser sábia, trazer serenidade, sabedoria pra um lar. Todo construído, pensado só pra ela. Antes de ser, já existia. Sofia existia nos planos de Deus. Criaturinha frágil, de colo. Carecida de toda atenção, todo amor do mundo, carinho pra tomar banho, se alimentar, arrotar, botar pra dormir. Primeiro álbum de fotos, os primeiros dentinhos. Mãos desengonçadas, ampliadas de cuidados, manuseando Sofia, como se de nitroglicerina pura. Mãos aprendendo a paternidade. Experimentando a experiência do Criador, de ser pai e filho a um só tempo.

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