Pesquisa mostra necessidades de pacientes com AIDS

07 jan 2013 - 07:36

Trabalho revela as principais necessidades de conforto da pessoa que vive com a doença

A partir de pesquisas realizadas na Escola de Enfermagem e Farmácia (Esenfar) da Universidade Federal de Alagoas, a enfermeira Kely Regina da Silva Lima desenvolveu a pesquisa Necessidades de conforto da pessoa que vive com AIDS: uma pesquisa-cuidado com base no modelo teórico de Katharine Kolcaba. O trabalho consiste na primeira dissertação de mestrado do Programa de Pós-graduação em Enfermagem da Ufal e revela as necessidades de alívio, de tranquilidade e de transcendência dos pacientes que vivem com a Síndrome de Imunodeficiência Adquirida (Aids).

Sob a orientação da professora Maria Cristina Trezza, a pesquisadora buscou compreender as necessidades de conforto da pessoa que vive com Aids por meio das suas vivências de conforto e de desconforto. A pesquisa foi realizada com pacientes em tratamento no Hospital Universitário Professor Alberto Antunes (HUPAA), com base na Teoria do Conforto, de autoria de Katharine Kolcaba, que engloba o levantamento dessas necessidades nos contextos físico, psicoespiritual, sociocultural e ambiental. “Esse trabalho é uma pesquisa-cuidado. Ao mesmo tempo em que pesquisamos, nós cuidamos dos pacientes,” explicou Kely Lima.

Segundo a enfermeira, o projeto uniu conhecimentos teóricos explorados no mestrado e no grupo de pesquisa Procuidado à prática em oficinas ministradas no HUPAA. “O intuito foi ampliar a discussão acerca dos cuidados de enfermagem prestados aos pacientes com Aids. Isso só foi possível por meio de uma metodologia que atendesse aos propósitos da Enfermagem e que integrasse a pesquisa, a teoria e a prática no seu desenvolvimento. Depois de analisarmos as informações que foram coletadas nas entrevistas com 10 pacientes do Hospital Universitário, montamos uma oficina que possibilitou o trabalho com as necessidades de conforto comuns a todos os participantes da pesquisa”, destacou.

Na análise qualitativa, o medo da doença e a luta diária contra infecções oportunistas foram os principais desconfortos apresentados pelos pacientes. Para atender a um dos objetivos propostos pelo estudo – o desenvolvimento de uma medida coletiva de conforto –, as pesquisadoras montaram oficina de cuidados com a pessoa que vive com Aids sobre as infecções oportunistas, como são conhecidos os problemas que se desenvolvem por consequência da doença. De acordo com Kely Lima, isso proporcionou aos participantes vasta compreensão sobre as infecções oportunistas e orientações sobre métodos para evitá-las no cotidiano.

“A oficina aconteceu em três momentos. Inicialmente, os participantes foram apresentados e esclarecidos sobre o objetivo do trabalho. Depois, demos continuidade às atividades com explicações sobre como podemos evitar infecções em nossas vidas. Foi nessa segunda etapa que identificamos o conhecimento que eles possuem sobre agentes infecciosos e que discutimos formas de evitar tais contaminações. Por fim, nós aprofundamos as discussões sobre as infecções em pessoas que vivem com Aids. Nosso foco foi permitir que eles compreendessem melhor a importância do autocuidado, porque neles uma infecção pode ser ainda mais grave do que em outras pessoas”, explicou a enfermeira.

O trabalho também destaca que os profissionais de saúde devem atentar para o acompanhamento das pessoas com Aids não só no aspecto físico. Para a pesquisadora, os cuidados devem englobar fatores psicológicos, espirituais, socioculturais e ambientais dos pacientes, o que possibilita aos assistidos um melhor convívio com a doença. “Uma das formas que encontramos para ajudá-los foi verificando as suas necessidades de conforto. A partir delas, abrimos discussões para que fossem trabalhadas estratégias de promoção da saúde destes indivíduos”, reforçou Kely.

A pesquisa-cuidado foi garantida na instituição hospitalar. Diante de necessidades de conforto imediatas, foram aplicadas técnicas de relaxamento, de posicionamento de leito e de distração às pessoas que apresentaram dores ou outro desconforto. Em paralelo, alguns dos pacientes precisaram receber orientações sobre os serviços do HUPAA e sobre cuidados na ingestão de medicamentos. Além disso, eles foram alertados sobre a importância de hábitos que podem trazer conforto psicoespiritual e oferecer mais qualidade de vida. As orientações também englobaram as dúvidas acerca das relações sexuais, já que muitos pacientes têm questionamentos sobre como se relacionar sexualmente sem transmitir o vírus HIV.

As infecções oportunistas

Os principais desconfortos de indivíduos com Aids estão relacionados aos desgastes físicos e emocionais ocasionados pelas infecções oportunistas. Segundo Kely Lima, elas são provocadas por vários micro-organismos e muitas são transmitidas durante relações sexuais. “O uso do preservativo é sempre importante, mesmo que o paciente se relacione com outra pessoa que também possui o vírus HIV. As pessoas devem ter esse cuidado, porque, durante uma relação sexual sem o uso de preservativo, alguém que possui carga viral alta pode transferir vírus para uma pessoa que tem as taxas controladas. A carga viral alta e o sistema imunológico deficiente aumentam a possibilidade de desenvolvimento de infecções oportunistas”, ressaltou.

A pesquisadora também alertou para outros cuidados, que devem ser atribuídos aos hábitos domiciliares, como a higienização dos alimentos e a lavagem adequada das mãos. Essa orientação previne contaminações por bactérias, vírus e outros micro-organismos. Além disso, a enfermeira destacou que é importante ter a atenção voltada para a pele, que deve permanecer hidratada. A prática de atividades físicas com orientação profissional também é recomendada.

Sugestões apontadas pela pesquisa

De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), em 2011, a quantidade de novos infectados pelo vírus HIV foi de 2,5 milhões de pessoas. Em todo o mundo, cerca de 34,2 milhões de pessoas são soropositivas. No entanto, a doença ainda apresenta grandes mistérios e é foco de pesquisa em laboratórios de vários países. Para a pesquisadora alagoana, o trabalho desenvolvido na Ufal é mais uma contribuição para outros estudos voltados para o cuidado com as pessoas que lutam contra a Aids.

“Na pesquisa, nós verificamos que é preciso um trabalho articulado da equipe multidisciplinar que atua no tratamento dos pacientes. Outro fator importante é a aproximação dos familiares, porque eles também sofrem e precisam do apoio da equipe. Essa dinâmica fortalece a pessoa que possui a doença e a sua família, fazendo com que os mesmos se aproximem dos serviços ofertados nas instituições de saúde. É possível que, desse modo, a equipe de profissionais também fique satisfeita com o resultado do seu trabalho. Mas, para isso acontecer, é necessário um comprometimento dos gestores, que também precisam preparar a instituição para trabalhar no alcance do conforto das pessoas que vivem com a doença”, salientou a enfermeira.

O conforto no contexto social também é destaque na pesquisa. Reuniões em grupo e contato com outras pessoas oferecem suporte emocional aos que passam por esse problema. Além disso, é fundamental o acolhimento por parte da equipe de saúde. “O acolhimento é um cuidado para com a pessoa que chega ao serviço, pois proporciona conforto ao paciente. A escuta qualificada é um instrumento imprescindível para o profissional que lida diariamente com essas pessoas. Os indivíduos que vivem com a Aids não precisam apenas de grandes tecnologias para ser cuidado. Para eles, o toque pode ter um significado particular e aliviar o sofrimento consequente do estigma e do preconceito vividos”, enfatizou Kely.

Por Ascom UFAL

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