Abrigo seguro

8 julho 2012


Colegas de todos os bares e de todos os refúgios

Me desculpe Sigmund Freud, mas para mim o maior concorrente do divã do analista é a mesa de bar. Não importa se em Paris, Rio de Janeiro ou no sertão nordestino, a mesa de um bar é o lugar mais procurado por aqueles que querem esquecer os problemas, as paixões, as dívidas e outras mazelas da alma, com a vantagem de que o freguês, digo o paciente, pode fazer uma terapia cujos efeitos podem não ser muito duradouros, mas, com certeza, é muito mais prazerosa.

Nos meus tempos de rapaz, durante as férias escolares, lá pras bandas da Ribeira do Panema, era exatamente os bares o local preferido para relaxar, jogar conversa fora e fazer o congraçamento dos jovens estudantes da cidade, tanto aqueles que estudavam em cidades distantes como Maceió, Recife ou Campina Grande, como também aqueles que haviam permanecido na cidade, alguns estudando e outros já encarando uma vida profissional.

Naquela época era comum que, tanto os bares quanto outras modalidades de pontos comerciais funcionassem na própria residência dos seus proprietários que destinavam o salão da frente para o atendimento à clientela, ficando os demais cômodos reservados ao uso familiar. Atualmente a cultura moderna de separação do ambiente familiar do comercial também chegou ao sertão, mas tem um traço cultural que nas pequenas cidades permanece até os dias de hoje. Pois, independentemente dos bares ostentarem letreiros luminosos com os nomes escolhidos pelos seus respectivos proprietários, até hoje é comum que estes estabelecimentos sejam conhecidos pelos nomes ou apelidos dos seus donos. Lembro-me de alguns nomes como o “Bar do Biu”, o “Bar do Dema”, o “Bar de Gedalva” e o “Bar de Zé de Pedo”, não estranhem a escrita porque é exatamente assim como são conhecidos. Fugindo a esta regra, havia também o “Alto da Fé”, cujo nome não está associado ao nome do dono, mas sim ao fato de que próximo a ele havia umas estátuas religiosas que foram posteriormente retiradas.

Havia também outro bar que funciona até hoje com um nome pra lá de curioso, que é o “Restaurante João do Lixo”. O que vocês esperariam de um bar ou restaurante que tenha tal denominação? Devo admitir ser natural que se pense ser um lugar sujo e pouco recomendável, mas também devo alertá-los, ser um ledo engano. O que acontece é que João trabalhou durante muitos anos dirigindo o caminhão que recolhia o lixo da cidade, passando assim a ser conhecido por todos. Um belo dia resolveu mudar de ramo e começou a servir comidas e bebidas na sua própria casa, que ficava lá na Rua Delmiro Gouveia, em cuja calçada o mesmo colocava as mesas. Servindo uma boa comida e com um atendimento cortês, o ponto tornou-se conhecido. Com o passar do tempo ele foi ampliando o negócio, de modo que hoje em dia ele já não precisa colocar as mesas na calçada. Seu restaurante tornou-se um lugar bastante frequentado, tanto pelas famílias locais quanto por aqueles que visitam a cidade. No começo João batizou seu restaurante com um nome que eu nem me lembro mais, o problema é que a clientela só se referia ao ponto como “João do Lixo”. O costume foi tão forte que João terminou cansando e o jeito foi estampar um letreiro com o nome pelo qual ele e o estabelecimento ficaram tão conhecidos.

Havia também outro lugar que costumávamos frequentar que era a casa de Marinosa, localizada num sítio a cerca de seis quilômetros do centro da cidade e às margens da rodovia BR 316. Naquele tempo não havia telefonia celular, então, quando a gente queria ir à sua casa, tinha que mandar um aviso por um portador qualquer para que ela matasse uma galinha e, no dia e hora combinados, a turma chegava para traçar a penosa.

Foi nesse contexto gastronômico-regional que, certo dia, alguns amigos se encontraram casualmente na rua e, entre uma conversa e outra, resolveram ir para um bar, para poder relaxar, jogar conversa fora e fugir por alguns instantes do “stress” diário. Eram apenas três: Airles, Chico e Pãozeiro. O grupo era pequeno e logo surgiu a idéia de convidar alguém mais, para que o encontro fosse mais abrangente e divertido. A escolha recaiu sobre Hiram, um sujeito que não era de perder uma boa farra e que, pela sua inteligência, humor e perspicácia, seria uma garantia de sucesso daquele encontro. Uma vez decidido quem seria o quarto componente do grupo, partiram os três em direção à loja dele que se dedica ao comércio de rações e ferramentas agrícolas. Perguntaram a um funcionário e souberam que ele não se encontrava. Imediatamente a turma raciocinou que estavam atrasados e que Hiram já estava em algum bar, relaxando dos aperreios do dia-a-dia, então resolveram procurá-lo.

Entraram num carro, deram uma volta na praça central e a primeira parada foi o “Bar de Zé de Pedo” que ficava bem ali no centro da cidade, funcionando como restaurante comercial, na rua que desce para a Ponte do Padre. Chegando lá, logo viram que Hiram não se encontrava e, seguindo a mesma direção, resolveram procurá-lo no “Bar do Biu” e em “João do Lixo”, visto que ambos estão situados na mesma rua. Constatando que o amigo não se encontrava em nenhum dos dois, seguiram descendo a Rua Delmiro Gouveia em direção ao “Bar de Gedalva”. Chegando lá e diante de nova negativa, resolveram agora procurar no outro lado da cidade. Foram ao “Bar do Dema” e em seguida ao “Alto da Fé”. A essa altura dos acontecimentos e já se sentindo um pouco órfãos, os amigos resolveram ir à casa de Marinosa e pegaram a estrada. O certo é que eles passaram a tarde inteira procurando em todos os bares da cidade até que, finalmente, cansados da busca, cada um foi para sua casa, para repousar e se preparar para um novo dia.

No dia seguinte os três acordaram com aquela pergunta que não conseguia calar: Onde estava Hiram que ninguém conseguiu encontrá-lo. O mistério tinha um peso tal que, sem que houvesse combinação prévia, quando o comércio abriu as portas, a primeira atividade do dia para eles foi passar na loja do amigo para saber o seu paradeiro. Lá chegando, a pergunta foi direta:

– Ô Hiram! Onde é que você se meteu que ontem ninguém conseguiu encontrar você? – Perguntou um.

– A gente veio à sua loja e não te encontrou, foi em todos os bares da cidade e você não estava. Onde é que você tava, homem?

Hiram olhou para eles, abriu um sorriso de satisfação e disse:

– Vocês não iam me encontrar nunca.

– E finalmente onde você estava?

– Vocês não iam me encontrar nunca. Eu estava em casa.

Conhecendo os hábitos do amigo, os três perceberam ser aquele o mais improvável dos lugares onde se imaginaria encontrá-lo.

Caros colegas, me desculpem. Faz um bocado de tempo que não mando notícias minhas. Culpa do trabalho? Talvez. O certo é que além do trabalho também estou fazendo um curso, realizando outros projetos e buscando mais histórias para contar para vocês, tudo ao mesmo tempo. A verdade é que eu estou tão assoberbado que tem horas que me dá vontade de também procurar um refúgio e eis que o melhor de todos eles é, para mim, aquele que me permite contato com a família e com os amigos, é por isso que eu posso até demorar, mas não paro de escrever. Aproveito como sempre para desejar a todos uma boa semana, ao mesmo tempo em que me coloco a disposição de qualquer um que queira fazer uma terapia de mesa de bar, garanto que serei solidário até a última gota.

Saúde, luz e paz

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