A USINA (Parte Três)

15 julho 2014


Desde o começo, era aquele um dia diferente. De feira nunca era um dia qualquer. As toldas plainavam suas panadas cirandantes trançando vias e ruelas. Vapores de calor se assoprando dum sol bonachão. Risonho sol, de fim de tarde. Bufava uma brisa amarela feno do leste. Esturrava indo esbarrar lá nos beiços do Panema. Redemoinho de gente matraqueava sobre o burburinho dos amantes, flagrados pelo próprio marido traído. Dados a um amor lascivo, tendo a relva macia por coiteira. A zoada dava a vender piaba ao litro, na porta do mercado da carne. A guarnição da polícia, parelha de soldado, assustados seguiram pelo caminho de pedras ladeira. Entre os curiosos, seguravam os revólveres nos coldres para não cair, davam a vasculhar. Como desejavam saber ao certo o que procuravam. O povo também procurava. Cornélio de arma branca empunhada o pioneiro na procurada. Zé de Matias e a amada amante nuzinhos em pêlos simplesmente haviam sumido.

‘’Nossa senhora do Desterro, desterrai o mal de minha vida. Ó Bem-aventurada Virgem Maria, mãe de Nosso Senhor Jesus Cristo Salvador do Mundo, Rainha do Céu e da Terra, advogada dos pecadores, auxiliadora dos cristãos, desterradora das indigências, das calamidades, dos inimigos corporais e espirituais, dos maus pensamentos, dos sonhos pavorosos, das ciladas, das pragas, dos desastres, bruxarias e maldições, dos malfeitores, assaltantes e assassinos.’’

Virados em vultos os amantes, tragados por Caapora. O deus protetor da mata branca abocanhou os amantes, toda a luz do sol, com todo seu calor. Enquanto seus mitológicos pulmões exalavam calor vulcânico em larva fluída por cima das pedras. Seu hálito sorrateiramente se precipitava sobre o céu do sol, feito vento tinto de preto, numa força tão intensa e violenta que não suportando, desmaiou o dia. E desde então ninguém via mais nada sem a ajuda dum luzeiro. A rua foi contar fuxico na madorna da porta. No enfado do dia engenhoso, novamente a diluir-se no oitão da usina de algodão de Seu Luiz dos Anjos. João Dorotheu, Enéas e Antonio Tenório, jogavam: o bispo, a torre e o cavalo. Nem um dos três avançava. Um jogo de palavras, travado. Num campo da sevícia lingual.

‘’Minha amada mãe, eu prostrado agora aos vossos pés, com piedosíssimas lágrimas, cheio de arrependimento das minhas pesadas culpas, por vosso intermédio imploro perdão a Deus infinitamente bom. Nossa senhora do Desterro, atendei o meu pedido!

(em silêncio faça o seu pedido) Rogai ao vosso Divino Filho Jesus, por minha família, para que ele desterre de nossa vida todos estes males, nos dê perdão de nossos pecados e nos enriqueça de sua divina graça e misericórdia.Nossa Senhora do Desterro, desterrai o mal da minha vida!’’

O Bispo disse; ‘’-Eu teve uma conversa com o demônio.’’ Ora mais que história mais sem pé nem cabeça! Enéas e Seu Antonio queriam saber como foi. Seu João estava disposto a contar, foi assim: “-Eu estava escutando o rádio. Toda noite tenho por costume escutar “A voz do Brasil”. Como sempre, “O Guarany” de Carlos Gomes abrindo o programa, a bela voz de Luiz Jatobá dizendo que em Brasília eram 19 horas, daí começou a falou do “Jango”. Disse que o presidente estaria criando a partir daquele mês o 13º salário, para o funcionário público. O governo dali em diante iria taxar os óleos lubrificantes vendidos por empresas estrangeiras e o governo outorgaria o monopólio da Petrobrás. Novamente falou da tragédia no Senado Federal a pouco ocorrido, onde o senador de Alagoas Arnon de Melo em plena tribuna teria sacado um revólver e deu três tiros noutro senador seu conterrâneo Silvestre Péricles, sem atingir o alvo. Porém um dos tiros acabou matando o senador José Kairala do Acre que infelizmente nada tinha a ver com a briga. Daí o rádio começou a chiar como se fosse sair do ar. E uma voz vinda das profundas do inferno soou dizendo: “-João! Eu sou o demônio, fique certo que eu vou soltar as pestes em cima de você! Tá pensando que eu não sei o que anda aprontando? Cabra de pêia safado!” “-Ora, compadre! Não passou pela sua cabeça que o cão estivesse dirigindo essas palavras ao presidente da República que também se chama João!

“Cobri-me com o vosso manto maternal e desterrai todos os males e maldições, e em especial atendei o meu pedido, que tanto necessito agora. Afugentai, ó Senhora, de minha casa a peste e os desassossegos.”

A “Torre” que até então permanecera calado, quebrando o silêncio disse ”-Se for pra contar história de trancoso é comigo mesmo. Conheci um jogador de baralho, que por sinal se chamava João. Certa ocasião passou três dias com três noites numa mesa de jogo. Estava ganhando um dinheiro avultado! Os outros jogadores começaram a desconfiar que estivessem sendo trapaceados. Então lá pro meio da terceira madrugada resolveram acuar meu compadre João! Um deles sacou um revólver, no que tentou disparar a arma engripou. Se aproveitando do tumulto o homem simplesmente sumiu. Invultou-se na frente de todo mundo! E só apareceu uma semana depois quando tudo já tinha se acalmado. Se apresentou na delegacia de Polícia de Santana do Ipanema, contou sua história pra Seu Caroula o delegado, e tudo ficou resolvido.’’

“Que por vossa intercessão, minha família e eu, possa obter de Deus a cura de todas as doenças, encontrar as portas do Céu abertas e convosco ser felizes por toda a eternidade. Amém. Nossa Senhora do Desterro, desterrai o mal de minha vida!’’

Seu Antonio Tenório tinha um belo alazão trotador. Tão belo animal simplesmente fantástico. Homem e montaria uma só criatura. Viviam como se fosse um, a extensão do outro. Sabia um, o que outro pensava. Sentimentos fundidos. A fama de ‘’Apolion’’ em pega de boi na caatinga ia longe. Sempre se sagrava vencedor. Uma coisa intrigava a todos; a longevidade do animal. Ora, era sabido que um cavalo vivia no máximo, por volta dos 30 anos de idade. Fazendo as contas “Apolion” deveria ter mais de 40 anos. Ora, essa nem de longe era a história mais escabrosa sobre o equino. Diziam que o cavalo era cego e quem o guiava era o próprio demônio.

“Ó Nossa Senhora do Desterro! Os que tiverem confiança nas vossas misericórdias serão felizes em seus negócios e viagens. Não morrerão sem a confissão e ficarão livres de uma morte repentina e traiçoeira.”

Certa vez ao retornar duma pega de boi no mato, Seu Antonio deparou-se com uma visão pavorosa no meio da caatinga. Plasmando-se do meio das trevas surgiu um cavalo de fogo montado pelo capeta que com muita fúria investiu contra eles. Antonio bradou alto, a Nossa Senhora do Desterro, que viesse em seu auxílio. Imediatamente uma ponta surgiu na testa de “Apolion” e um escapulário que Antonio trazia no pescoço virou-se numa armadura. Investiram contra o cavalo do cão, em cheio atingindo seu coração. O que provocou uma grande explosão. No outro dia encontraram Seu Antonio desmaiado enquanto o cavalo calmamente pastava ali perto, esperando que seu dono acordasse.

Fabio Campos

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