A CORUJA, O CONDOR

8 maio 2015


Ilustração: Fábio Campos

Ilustração: Fábio Campos

As coisas todas do mundorevolveram a maio de 1976. Em recordações viera quase tudo daquele tempo. Ainda que já houvesseDeus concedido às cores as coisas todas. Relembrar o passado, mecanicamente, só se podia em preto e branco. Apenas a natureza,e os olhos, conseguiam perceber tudo como realmente era. Sonhar, as noivas podiam. Inclusive com buquês de flores, de rosas vermelhas que levariam consigo. Talvez com os dias contados estivesse otão esperado dia de casar. Feijão e milho na roça, se acordando. Debaixo do sol, se espreguiçando. Se preparando pra abençoada colheita. Aos trabalhadores, o primeiro dia daquele mêsdedicado garantindo-lhes o sábado de descanso. Também os negros, no décimo terceiro dia, uma quinta-feira, outra vez eram libertos. As mães, no domingo, ganhariam presentes. O calendário sorria. A folhinha do coração de Jesus falaria de sabiás, de beija-flores,de bem-ti-vis, da Santíssima Virgem e a aparição de Fátima. Dúvida não havia, era maio. Mesmo que tudo estivesse em preto e branco, era maio de 76.

“Ao ver passar no céu as andorinhas

Eu sinto saudade do meu bem

Que talvez me espera

E também desespera”

A manhãzinha vinha que vinha, rodeada de mato. Permeada de veredas, e estrada,enquanto aguardava o sol, que ao chegar tudo expondo a se esquentar. Bem devagarinhoafastaria o terral, e o céu noturno. Fazendo ir-se embora negro frio,da cor de escuro. Tonico era apenas um menino, ao pé da estrada. Se tivesseno que pensar pensaria num céuazul e branco,da cor de sua farda. E no seu céu particular poria umpomar, uma jaqueira, pião, estilingue, passarinho voando pro mato, açude com água por cima. Eo campinho da propriedade de Seu Doroteu, onde mais tarde se encontraria com os amigos, jogaria bola. Roncando na estrada de barro, a camioneta de Seu Antônio vinha que era vindo. Do sítio pra Vila todo dia, ia e vinha. Mansamente desencostando-se da estaca Tonico esticava o braço. Solícito o automóvel parava. A carona detodos os dias, na idapra escola rural do Sítio Santo Amaro, de manhã. Manhãs de estudo. Mais tarde, tarde de trabalho os campos lhe aguardavam. Seolhasse pra casa de Rute, encontraria Seu Irineu sentado no alpendre, olhando com olhar de quem pensa, bem lá no ponto exato onde o mundo aqui do chão, se encontrava com as nuvens lá do céu.E o canto de estalo do pintassilgo, iaque ia longe. Vadiando pelo oitão da tapera, indo amarelar o gomoso cheiro do fruto da carambola, admoestados pelas melipondias. Aquela altura Seu Irineujá havia trazido água pros cochos do curral. Água sofrida, água chorada, água de canto, de carro de boi cantador. Benfazeja colhidados tanques do lajedo chamados de caldeirões. Cedo ainda ia o dia, e tudo já estava quente pegando fogo. O gado, cabisbaixomansamente catando verde verdinhomato, relva de maio. A menina na janela, da casinha velha encostada ao pé do lajedo, era Elisabete. Olhava o que já estava enfastiada de ver, céu bonito, mato, roça e serra. Farta daquela voz fazia de conta que não ouvia dona Gersina lá na cozinha. Falando do que as meninas de sua época brincavam antigamente. A dizerque seu pai costumava, ir lá nomato, tirava uns galhos de catingueira. E fazia móveis pra ela brincar, cadeirinhas, mesinha, uma caminha. Os pratinhos, os talheres e a chaleira, de barro de louça. Essesela mesma fazia. A boneca uma calunga de pano. E sempre ao cair da tarde, depois de lavado os pratos, estendidaasroupas no varal e varrida a casa. Com as amigas, ia pra debaixo duma baraúna,brincar de boneca. Hoje em dia o que pensam essas meninas, em namorar e se formar nas escolas da cidade.

“Passarás passarás/ uma delas há de ficar

Se não for a da frente/ há de ser a de detrás

De detrás, de detrás.

Tenho meus filhos pequeninos/ não posso mais demorar

Demorar, demorar”

Eo que parecianormal, já não o era tanto assim. Talvez maio já não fosse mais. O estado de guerra vivido no Vietnã em nada, ou quase nadainterferia paraos que viviam no sertão. Em nada influindo para que se tornasse nem mais, nem menos triste. Continuava a mesma vida, entre os de cá, ou ao menos uma perspicaz tentativapela permanência do que havia. Enquanto isso o agricultor pensava: “-Quem será que inventoua ‘tá’Festa do Feijão?”E lá do outro lado do mundo a OPEP, a OLP de Yasser Arafat, o estado islâmico de Aiatollah Khomeini,longe estavam de por fim a crise noOriente Médio. E o sertão ainda era o mesmo,silencioso, macambúzio. De que modo coisas outras que ocorriam mundo a fora poderia nos afetar? Explicar isso era tarefa para o professor lá na sala de aula. Papa Pio VI, semblante sereno no jornalestampado, de lá da janela do Vaticano pedindo paz ao mundo! Na cozinha dona Boninha, com um lenço amarado na cabeça, a beira do fogo, punha vigília ao bule que dali a poucoliquidamente verteria seu conteúdo negro no oco branquinho duma xícara em cima da mesa, forrada com forro de xadrez e franja verde esmeradamente bordada. A porção Gaseificada da infusão indo,a excitar narinas e cérebros, evocar outros desejos. E dona Quitéria, irmã de dona Boninha escutava o rádio de móvel. Emesmo sem olhar pro louro atrepado no poleiro perguntava: “-Tu sabe o que é bomba atômica “meu” louro?”Esticandoe encolhendo o pescoço várias vezes, o papagaio respondia: “-Avé, Avé, Avé Maria!” E os meninos instigavam “meu” louro a dizer a reza inteirinha e sorriam dele. Depois corriam lá pro terreiro a brincar. E pediam pra Seu Severino destampar o enorme tacho de fazer sabão, fervendo, fumegante. E queriam saber porque de vez em quandoera destampado e mexido com uma enorme colher de pau, que mais parecia um remo. Dona Berenice a vizinha chegava trazendo massa puba e nostalgia. E dizia que não lhe perguntassem porque, mas toda vez que comia tapioca com coco bem quentinha, se lembrava do presidente Jango,de sua morte inesperada. E repartia a dúvida: Como teria sido o enterro? Certeza que teria sido muito bonito. Dona Quitéria emendaria que a ela, era o cuscuz amarelinho, cheirando no cuscuzeiro que lembrava-lhe Juscelino Kubstchek. Ó tãotrágico acidente que lhe tirara a vida!Teria sido um atentado? Quem porventura desejaria ver morto um homem tão bom? O acender ocachimbo lembrava a Seu Severino, Getúlio Vargas. E jamais esqueceria que durante o estado novo mandara queimar sacas e mais sacas de café, somente pro “pretinhoabençoado”, das mesas do povo brasileiro, subisse de preço.

“Como poderei viver/ como poderei viver

Como pode um peixe vivo/ viver fora d’água fria

Como poderei viver/ como poderei viver

Sem a sua sem a sua/ sem a sua companhia

Dona Tereza a mãe de Tonico dizia em tom de seriedade que aqueles meninos não tinham ideia do valor que era abrir a torneira e ver a água jorrando da mangueira no capim verdinho do jardim. E o sol brincado com as gotas flutuantes daria de fazer um arco-íris particular pros netos de Seu Libônio. Algumas vezes era vista chorando realizando o simples gesto de lavar as mãos. Seu Fernando já morrera, na verdade todas as pessoas daquele maio já morreram. Ainda que vivessem eram outras pessoas agora. Com outros pensamentos, valorando outras coisas que nem existiam mais naquele maio. Bom seria se tivessem vivido o suficiente pra dizer como era. Quem sabe onde estaria o ator daquele velho filme, tão jovem na trama? Já envelhecido em 76. Os filhos se envolveram com drogas, casaram e agora eram avós. Usara tanta LSD porque na Califórnia era liberado até 1977. O vô de Tonico Seu Guilherme, era de maio. No seu aniversário gostava de tomar um bom uísque ouvindo Elvis, e fazia o Long Play repetir várias vezes a música “It’sNoworNever”. Ao cair da tarde, Tonico e Elizabete no domingo iam à matinê. O filme estava tão sem graça que acabaria adormecendo. Depois iam tomar sorvete na sorveteria Maringá. Punha um pouco de guaraná no creme e ficava olhando a taça quase com a sublimação transbordar. Cadeiras e mesas de fórmica com madeira e ferro, o piso num mosaico estampado formado figuras geométricas, na propaganda de Coca-Cola a garotinha loira sorria um sorriso efusivamente americano.

“It’s now or never

Come hold me tight

Kiss me my Darling

Be mine tonight

Tomorrow will be too late,

It’s now or never

My love won’t wait”

Era uma vez uma coruja, e um condor. Não simples aves, como já as concebemos. Muito menos protagonistas de fábula de Cristian Hansen. A coruja de que falamos veio vindo sorrateira pousar sobre a bandeira dos “Iluminados”. Uma ordem fundada em Baviera,no dia primeiro de maio de 1776. Isso aconteceu na famosa noite de Santa Valburga. Um grupo de jovens de idade semelhante a de Tonico e Elisabete inflamados por um ideal revolucionário pretenderam mostrar ao mundo que pela forçaduma ideologia poderiam mudar o destino da humanidade. Dois séculos depoisTal sociedade secreta aportouno Brasil. Nestas paragens seria representado pela figura doutro pássaro, o Condor. As asas do tempo recrudesceram. Jango, J.K. eCarlos Lacerda, três ferrenhos oposicionista ao regime militar intrigantemente em menos de um anomorreriam de forma trágica. Sendo o último, justo no mês de maio. Em 21 de maio de 1977 para ser mais exato.

Fabio Campos 05 de maio de 2015

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