Livros que libertam: Entenda o poder da leitura no sistema prisional alagoano
Histórias de pessoas privadas de liberdade revelam como a leitura tem transformado comportamentos, fortalecido vínculos e despertado novos projetos de vida.
José Adriano vê nos livros uma oportunidade de transformação. A leitura de Carla é lenta, pausada. Ela tropeça nas palavras e interrompe a frase diante de um trecho mais longo. Sorri, recomeça. Apesar das dificuldades, celebra cada avanço. “Eu me orgulho de mim. Botei na cabeça que vou aprender e quero aprender”.
O mundo da leitura não foi apresentado à Carla na escola, mas na prisão, por meio do projeto “Livros que Libertam”, do Poder Judiciário de Alagoas. A iniciativa, além de promover a remição da pena, amplia conhecimentos e possibilita uma nova perspectiva de futuro.
“Eu não sabia ler. Quando pegava um ônibus tinha vergonha. Tinha vez que eu me perdia e ia parar no terminal porque não queria perguntar às pessoas. Hoje eu não tenho mais vergonha”, contou Carla, de 44 anos, detida no Presídio Santa Luzia, em Maceió.
Ela não é a única que se aproximou dos livros. Sobre a cama estreita de Jane Kelly, na cela 8, romances dividem espaço com escovas de cabelo, cremes e maquiagem. “Acho que já li mais livros aqui do que na minha vida inteira”.
Jane, de 33 anos, disse que a leitura melhorou sua forma de se expressar e se relacionar com as demais detentas. “Eu melhorei a minha fala, a minha escrita. Aumentei o meu conhecimento e estou remindo a minha pena. Quando começo a ler, saio do cárcere”.

Romances de época passaram a fazer parte do dia a dia de Jane Kelly no Presídio Santa Luzia, em Maceió. Foto: Itaciara Albuquerque
Histórias como a de Carla e Jane mostram o impacto do projeto. Instituído em outubro de 2022, com apoio da Secretaria de Ressocialização (Seris), o “Livros que Libertam” alcança quase 5.000 dos 6.300 detentos do sistema prisional alagoano.
Para o juiz Alexandre Machado, idealizador do projeto de remição de pena por meio da leitura, o mais importante é a transformação que a iniciativa tem causado na vida dos presos.
“Mesmo sabendo que só vale um livro por mês para fins de remição, os detentos terminam lendo dois, três, às vezes quatro livros. A gente vê presos lendo para os filhos. Em algum momento há uma transformação dessa pessoa por meio da leitura”, avaliou.
O papel dos monitores
Entre os presos, há quem exerça um papel diferente: o monitor. Ele é responsável por entregar e recolher livros, ler para outros detentos em processo de alfabetização e auxiliar nas atividades educacionais.
Essa liderança, segundo o juiz, antagoniza com a figura do líder de facção. “O monitor passa a ser um bom exemplo, uma referência para os demais presos. Enquanto as facções buscam se estabelecer através do poder, do domínio e do medo, você tem outras lideranças surgindo por meio da educação”, disse Machado.
Os monitores viram um referencial pelo conhecimento e disposição em ajudar o próximo. É o caso de Maria Nadine, de 29 anos, que desempenha a função desde abril, no Santa Luzia. Ela trabalha de perto com detentas que têm dificuldade na leitura e na escrita.
“Tem sempre uma mais rebelde, que não quer participar. Eu vou lá e digo: 'Minha gente, olha, vocês precisam participar. São quatro dias a menos [de pena, por mês] com a leitura. Nem todas aceitam de primeira, mas estou sempre ali pegando no pé tentando ajudar”.

Maria Nadine encontra nos livros um lugar de recomeço. Foto: Itaciara Albuquerque
Segunda chance
A biblioteca do Santa Luzia é pequena, repleta de livros e caixas. Clássicos de Tolstói, Garcia Márquez e Machado de Assis se sobrepõem uns aos outros nas prateleiras e estantes de madeira, formando um acervo construído ao longo dos anos por doações e novas aquisições.
“Peguei um amor pela leitura e leio sem ser pela obrigação da remição. Estou presa, mas a minha mente está totalmente livre”, disse Nadine.
Dos livros lidos por ela, o que mais deixou marcas foi o “Segunda Chance”, da escritora norte-americana Colleen Hoover. A obra conta a história de uma mulher que passa anos na prisão e, quando sai, tenta se aproximar da filha pequena.
“Todo mundo é digno de uma segunda chance. Aprendi através do livro que aqui não é o fim. Aqui é um recomeço. A gente não pode apagar o passado, mas pode construir um futuro diferente”, defendeu.

Biblioteca no Presídio Santa Luzia reúne obras que inspiram reflexão e aprendizado. Foto: Itaciara Albuquerque
Além da remição
O projeto que começou de forma tímida, com 130 participantes, em 2022, cresceu e hoje alcança 4.929 presos, sendo 4.779 do regime fechado e 150 do aberto. No Núcleo Ressocializador da Capital, o universo da literatura chega aos reeducandos por meio de leitores eletrônicos, disponibilizados com recursos oriundos de penas pecuniárias.
Para além dos números, o impacto está na mudança de comportamento e na perspectiva de futuro.
“A pessoa passa a se expressar de forma melhor, a buscar outras ações educacionais, como a alfabetização. Familiares também relatam mudança de comportamento dos presos. Não são poucos os casos de pessoas que realmente mudaram por meio da leitura”, disse Alexandre Machado.
Para o magistrado, a educação é a principal política de segurança pública dentro do sistema prisional.
“Todas as pessoas que estão aqui em algum momento vão sair, porque não existe prisão perpétua. É importante que a gente trabalhe essa pessoa para que ela possa sair melhor do que entrou”.
Detentas do Santa Luzia realizam atividade de validação das leituras. Foto: Itaciara Albuquerque
Caminho para a liberdade
Aos 45 anos, Adriano caminha pelo corredor do Presídio Cyridião Durval com uniforme vermelho e chinelos azuis. Nas mãos, segura o livro “Epifania das Estrelas para Galileu Galilei”, do escritor Álvaro Pacheco.
“Vou começar a ler essa semana. Gosto dessa coisa de universo, estrela e espaço”.







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