• Santana do Ipanema, 01/08/2026
  • A +
  • A -

Especialista aponta equívoco do mercado brasileiro sobre moradia para idosos

Segundo especialista, o país ainda confunde moradia voltada à longevidade com instituições de cuidados, freando o crescimento de um mercado em expansão.

Foto: Assessoria
Especialista aponta equívoco do mercado brasileiro sobre moradia para idosos

O Brasil está envelhecendo em ritmo acelerado, mas continua planejando suas cidades e seus empreendimentos imobiliários como se o envelhecimento começasse apenas quando surgem limitações físicas ou necessidade de assistência. Para a especialista em longevidade e fundadora da Söderhem, Daline Hällbom, essa confusão tem impedido o desenvolvimento de uma das categorias imobiliárias mais promissoras do mundo: comunidades voltadas para adultos maduros independentes.

O alerta ganha força diante da transformação demográfica do país. Em apenas uma década, a participação das pessoas com 60 anos ou mais passou de 11,3% para 14,7% da população brasileira, enquanto os domicílios com apenas um morador cresceram de 12,2% para 14,9%, refletindo mudanças profundas na forma de viver, envelhecer e constituir família.

Ao mesmo tempo, o Censo Demográfico de 2022 mostra que os domicílios unipessoais são mais frequentes justamente nos estados mais envelhecidos do país, reforçando a relação entre envelhecimento populacional e novos modelos de moradia.

Apesar dessa nova realidade, Daline acredita que o mercado imobiliário brasileiro ainda parte de uma premissa equivocada: “o Brasil continua tratando a moradia para a longevidade como assistencialismo. Confundimos morar com cuidar. E essa confusão fez o país ignorar uma categoria inteira de habitação que já está consolidada em mercados muito mais maduros."

Enquanto países como Estados Unidos, Suécia, Holanda e Reino Unido desenvolveram comunidades planejadas para pessoas que desejam envelhecer com autonomia, serviços, convivência e qualidade de vida, o Brasil praticamente eliminou essa etapa da jornada habitacional.ER

"Ouvimos a expressão senior living e imediatamente pensamos em asilos, instituições de longa permanência ou espaços para pessoas dependentes”, lembra Daline, que enfatiza: “mas essa associação está completamente equivocada. Senior living é mercado imobiliário. É um casal de 62 anos que decide vender uma casa grande porque os filhos já saíram, compra um apartamento em uma comunidade com restaurante, academia, coworking, programação cultural e vizinhos vivendo a mesma fase da vida. Eles não precisam de cuidados. Apenas escolheram uma nova forma de morar."

Nos Estados Unidos, esse segmento movimenta mais de US$ 500 bilhões e se consolidou como uma resposta ao envelhecimento da população e às novas formas de viver a maturidade. No Brasil, entretanto, essa categoria ainda engatinha justamente porque permanece associada ao cuidado institucional, e não à qualidade de vida.

Na avaliação da especialista, essa percepção gera impactos econômicos importantes: “quando confundimos moradia com cuidado, atrasamos decisões das famílias, reduzimos a capacidade de inovação das incorporadoras e deixamos de desenvolver produtos adequados para uma população que viverá mais tempo, permanecerá ativa por mais anos e terá expectativas completamente diferentes sobre onde e como morar."

Para Daline, o desafio do mercado imobiliário brasileiro não será simplesmente construir imóveis para pessoas mais velhas, mas compreender que surgiu uma nova etapa da vida adulta: “existe um enorme espaço entre a casa tradicional e uma instituição de longa permanência. É justamente esse espaço que o Brasil deixou vazio. Em outros países, ele foi ocupado por comunidades planejadas para promover independência, pertencimento e conexões sociais. Aqui, ainda tratamos essas possibilidades como se fossem exceções."

As projeções internacionais mostram que essa transformação tende a acelerar. Até 2030, o mundo deverá reunir cerca de 1,4 bilhão de pessoas com mais de 60 anos, e a América Latina caminha para uma das transições demográficas mais rápidas do planeta.

Segundo a fundadora da Söderhem, esse cenário exige uma mudança profunda de mentalidade por parte do setor imobiliário: “o Brasil não tem um problema de envelhecimento, mas de visão sobre como as pessoas vão querer viver os próximos 30 anos. O futuro da habitação não será definido apenas pela arquitetura dos edifícios, mas pela nossa capacidade de compreender que envelhecer não significa deixar de viver e, sim, significa viver de outra maneira, e o mercado imobiliário precisa começar a construir para essa nova realidade”, finaliza.




COMENTÁRIOS

Buscar

Alterar Local

Anuncie Aqui

Escolha abaixo onde deseja anunciar.

Efetue o Login

Recuperar Senha

Baixe o Nosso Aplicativo!

Tenha todas as novidades na palma da sua mão.