Crédito fácil aumenta risco de endividamento entre brasileiros
Especialistas alertam que confundir limite de crédito com dinheiro disponível compromete a saúde financeira, mesmo com programas de renegociação de dívidas.
Ter acesso a mais crédito nem sempre significa ter uma vida financeira mais saudável, em meio ao lançamento do Novo Desenrola Brasil, que amplia as possibilidades de renegociação de dívidas para milhões de brasileiros, especialistas alertam para um comportamento que ajuda a alimentar novos ciclos de endividamento, pois a facilidade para obter cartão de crédito, limites pré-aprovados e compras parceladas pode levar consumidores a confundirem poder de compra com capacidade financeira. O resultado é uma percepção distorcida da própria condição econômica, que frequentemente incentiva decisões de consumo incompatíveis com a renda disponível.
Para Ricardo Hiraki, administrador, empreendedor e CEO e cofundador da Plano Fintech, empresa de educação financeira que desenvolve soluções para organização e decisões conscientes sobre dinheiro, o principal risco do crédito não está na sua existência, mas na forma como ele é percebido pelas famílias. A facilidade de acesso ao crédito altera a leitura que muitas pessoas fazem da própria capacidade financeira e influencia decisões de consumo incompatíveis com a renda disponível. "O crédito não amplia a capacidade financeira de uma família; ele apenas antecipa consumo. É essa confusão que, muitas vezes, está na origem dos ciclos recorrentes de endividamento", afirma.
Capacidade de compra não é capacidade financeira
Segundo o executivo, esse comportamento ajuda a explicar por que muitas pessoas mantêm um padrão elevado de consumo mesmo com parte significativa da renda comprometida por parcelas e financiamentos. A facilidade para acessar novas linhas de crédito também reduz a percepção imediata do impacto das despesas sobre o orçamento familiar.
"O limite do cartão ou o crédito pré-aprovado não representam patrimônio nem aumento de renda. Eles apenas ampliam temporariamente a capacidade de consumo. Quando essa diferença deixa de ser percebida, as decisões financeiras passam a ser tomadas com base em um recurso que ainda precisará ser devolvido ao sistema financeiro", explica.
O parcelamento esconde o custo real das compras
Na visão do fundador da Plano Fintech, outro fator que contribui para essa percepção distorcida é o parcelamento. Embora facilite o acesso a bens e serviços, ele reduz a percepção do impacto financeiro das compras quando o consumidor observa apenas o valor da prestação mensal.
"O parcelamento fragmenta a percepção do gasto. Em vez de avaliar o custo total de uma compra, o consumidor passa a analisar apenas o valor da parcela. Esse mecanismo diminui a sensibilidade ao comprometimento da renda e favorece o acúmulo silencioso de obrigações financeiras", diz.
O especialista em planejamento financeiro ressalta que programas de renegociação, como o Novo Desenrola Brasil, cumprem um papel importante ao reorganizar o passivo financeiro das famílias. No entanto, a renegociação, por si só, não altera a forma como o consumidor se relaciona com o crédito.
"A renegociação reorganiza o passivo financeiro, mas não modifica automaticamente o comportamento que levou ao endividamento. Sem revisar critérios de compra, capacidade de pagamento e planejamento do fluxo de caixa familiar, existe uma tendência de retorno ao mesmo ciclo financeiro", afirma.
Para o executivo, alguns comportamentos indicam que o crédito deixou de ser uma ferramenta de gestão financeira e passou a mascarar a realidade do orçamento:
- considerar o aumento do limite do cartão como sinal de melhora financeira;
- depender de compras parceladas para custear despesas recorrentes;
- utilizar uma linha de crédito para quitar outra;
- não conseguir identificar quanto da renda permanece disponível após os compromissos mensais;
- manter o padrão de consumo com base no limite disponível e não na renda efetivamente recebida.
O indicador que realmente revela a saúde financeira
Na avaliação do educador financeiro, a capacidade financeira de uma família não deve ser medida pelo quanto ela consegue consumir, mas pela renda que permanece livre depois que todas as despesas obrigatórias já foram pagas.
"O maior erro é utilizar o limite de crédito como indicador de capacidade financeira. A referência deveria ser sempre a renda disponível após os compromissos fixos, porque é ela que determina a capacidade real de consumir, investir, construir patrimônio e absorver imprevistos. Quem consegue comprar mais nem sempre está financeiramente melhor; muitas vezes apenas está assumindo obrigações futuras maiores", conclui.






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