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  • Santana do Ipanema, 10/04/2026
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Os cidadãos pesquisadores: Como os moradores da Caatinga ajudaram a encontrar a anta no bioma onde a espécie havia sido declarada Regionalmente Extinta

Em 2012, a anta brasileira foi listada como Regionalmente Extinta na Caatinga, segundo a Lista Vermelha Nacional do ICMBio, mas, em 2024, a espécie foi redescoberta no bioma.

Foto: Caatinga2026
Os cidadãos pesquisadores: Como os moradores da Caatinga ajudaram a encontrar a anta no bioma onde a espécie havia sido declarada Regionalmente Extinta
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A equipe de pesquisadoras da INCAB – Iniciativa Nacional para a Conservação da Anta Brasileira, projeto do IPÊ – Instituto de Pesquisas Ecológicas, fez uma grande descoberta, em 2024: A ANTA NÃO ESTÁ REGIONALMENTE EXTINTA NA CAATINGA, como se acreditava. O animal foi encontrado em localidades do norte de Minas Gerais, oeste da Bahia e sul do Piauí. Mas essa descoberta só foi possível graças aos moradores locais. Desde 2023, a equipe vem realizando expedições pela Caatinga em busca de relatos sobre a presença histórica e atual das antas e, nesse processo, a participação das pessoas locais na coleta de informações científicas tem sido essencial para o estabelecimento das atividades da INCAB-IPÊ no bioma.

A equipe da INCAB-IPÊ acaba de retornar após 20 dias de expedição pela Caatinga da Bahia. Esta foi a quarta expedição realizada pela equipe e, a cada ano, há uma missão a cumprir. Em 2023, a missão era descobrir se a anta esteve presente na Caatinga no passado; em 2024, a missão era olhar para a anta no presente; em 2025, o objetivo era entender se a espécie era residente ou apenas visitante da região. Este ano, a missão foi determinar locais para capturar indivíduos para estudos de longo prazo. Desde a descoberta do primeiro registro histórico, até o avistamento da primeira pegada da anta, a equipe foi guiada por indicações e relatos dos moradores. Esta interação entre pesquisadores e sociedade é chamada de ciência cidadã e esta é a base fundamental dos estudos da INCAB-IPÊ sobre a anta na Caatinga.

"É muito claro para nossa equipe que não teríamos encontrado as antas caatingueiras sem o apoio das comunidades da região. A Caatinga nos ensinou que essas pessoas têm muito conhecimento sobre a fauna e a flora locais, conhecimento que nem sempre é buscado por nós pesquisadores. Uma de nossas entrevistadas no oeste da Bahia, uma senhora, líder comunitária e ambientalista, Dona Maria da Glória, nos relatou que 'A anta nunca deixou de existir na região do Rio Carinhanha. O animal sempre esteve por aqui e nós sabíamos, mas ninguém [pesquisadores] veio perguntar.' Relatos e testemunhos como este nos mostram que ainda temos muito a aprender com essas pessoas incríveis, detentoras de conhecimentos e sabedoria que vão muito além das revisões bibliográficas!", relata Patrícia Medici, Coordenadora da INCAB-IPÊ.

A ciência cidadã é um processo de democratização do conhecimento em que pesquisadores e cidadãos são aliados nas coletas de dados para investigações científicas. O Brasil é enorme e ainda há muito a ser descoberto na pesquisa e conservação de espécies, mas, para isso, é muito importante contar com o conhecimento das comunidades locais – aqueles que estão em contato direto com a natureza e com as espécies em estudo. Entre 2023 e 2026, a INCAB-IPÊ realizou mais de 300 entrevistas com moradores da Caatinga nos estados de Minas Gerais, Bahia e Piauí, e muitas delas foram emblemáticas ao demonstrar a importância dessa aliança entre a ciência e as pessoas do local de estudo.

Um de nossos entrevistados no interior da Caatinga Bahiana, um senhor de 96 anos chamado Abdo, ao ser questionado sobre o motivo das antas terem desaparecido de algumas localidades da Caatinga, respondeu prontamente o que estudos posteriores corroboraram. "Por três razões... primeiro, desmataram tudo, segundo, o pessoal comeu muita anta e, terceiro, a água foi se tornando cada vez mais escassa". A sabedoria das pessoas da região sobre as ameaças à conservação de espécies é vital para as pesquisas.

Agora, com o auxílio dos moradores, a INCAB-IPÊ determinou os locais potenciais para a captura de antas na Caatinga da Bahia e, em Novembro de 2026, retornará ao bioma para as primeiras capturas, visando à instalação de colares de telemetria satelital e a coletas biológicas para estudos de saúde e genética.

POR QUE A ANTA FOI DECLARADA REGIONALMENTE EXTINTA NA CAATINGA

O trabalho da INCAB-IPÊ na Caatinga surgiu a partir da publicação da Lista Vermelha Nacional do ICMBio – Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade, no ano de 2012, que classificou a anta como Regionalmente Extinta no bioma. Naquele ano, o ICMBio reuniu um grupo diverso de profissionais brasileiros, incluindo a INCAB-IPÊ, para avaliar o status de conservação das espécies de ungulados ameaçados do Brasil: anta, queixada e diversas espécies de cervídeos.

"Naquele momento, nós realizamos uma avaliação em nível nacional e, separadamente, para cada bioma. Os profissionais que estavam presentes, eu inclusa, listaram a anta como Regionalmente Extinta na Caatinga, pois os poucos dados que vieram para a mesa, naquele momento, apontavam para isso. De lá para cá, refletimos muito sobre essa tomada de decisão extremamente importante, baseada em pouquíssimas informações. Então surgiu uma grande vontade de percorrer a Caatinga em busca de informações mais consistentes sobre o histórico da anta, seu passado e presente, na região", explica Patrícia Medici.

SOBRE O IPÊ

O IPÊ – Instituto de Pesquisas Ecológicas é uma organização brasileira sem fins lucrativos que trabalha pela conservação da biodiversidade do país, por meio de ciência, educação e negócios sustentáveis. Fundado em 1992, tem sede em Nazaré Paulista (São Paulo), onde também fica o seu centro de educação, a ESCAS – Escola Superior de Conservação Ambiental e Sustentabilidade.

O IPÊ é responsável pelo plantio de mais de 12 milhões de árvores na Mata Atlântica, contribui diretamente para a conservação de seis espécies de fauna, promove a educação ambiental e capacita, em média, 15 mil pessoas por ano. Os projetos beneficiam mais de 200 famílias por meio de ações sustentáveis, do conhecimento sobre conservação socioambiental e da geração de renda. A organização conta com parceiros de todos os setores e atua como articuladora em frentes que promovem o engajamento e o fortalecimento mútuo entre organizações socioambientais, iniciativa privada e instituições governamentais.

https://ipe.org.br/

SOBRE A INCAB-IPÊ

A INCAB – Iniciativa Nacional para a Conservação da Anta Brasileira, é uma iniciativa nacional de longo prazo focada na pesquisa e conservação da anta brasileira em cinco biomas brasileiros onde a espécie é encontrada – Amazônia, Caatinga, Cerrado, Mata Atlântica e Pantanal. A INCAB-IPÊ é liderada pela conservacionista brasileira Dra. Patrícia Medici. Criada em 1996, a INCAB-IPÊ iniciou seus esforços na Mata Atlântica e, ao longo dos anos seguintes, expandiu suas ações para o Pantanal (2008), Cerrado (2015), Amazônia (2021) e Caatinga (2023). A INCAB-IPÊ é pioneira na pesquisa básica e aplicada voltada à ecologia, saúde e genética da anta, assim como na conservação dos habitats que esta necessita e mitigação das ameaças que afetam a conservação da espécie. Além disso, a Iniciativa promove o envolvimento comunitário por meio da comunicação, do turismo científico, da educação ambiental e da ciência cidadã.

SOBRE A ANTA BRASILEIRA

A anta brasileira é o maior mamífero terrestre da América do Sul, podendo pesar entre 180 e 300 kg. A espécie é vital para a biodiversidade por ser importante dispersora de sementes; por isso, recebe o título de Jardineira da Floresta. Além disso, por ocupar extensas áreas de uso, é uma espécie guarda-chuva; ou seja, sua conservação também influencia a existência de outras espécies que compartilham o mesmo habitat. A anta também é uma espécie sentinela, ou seja, serve como indicadora da saúde dos ecossistemas e dos seres que ali habitam. Por fim, a espécie é essencial para soluções climáticas, já que consome sementes de frutos grandes – geralmente, sementes grandes geram árvores grandes, que armazenam mais carbono e escoam mais água para os lençóis freáticos. Apesar de sua importância, a espécie está classificada como Vulnerável à Extinção na Lista Vermelha da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN)

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