Pão de Açúcar além da versão oficial: história, memória e as distorções de Jaciobá
Às vésperas dos 172 anos de emancipação, reflexão histórica revisita origens indígenas, questiona narrativas oficiais e resgata o verdadeiro percurso de Jaciobá até Pão de Açúcar
Pão de Açúcar–AL está prestes a comemorar seus 172 anos de emancipação política no próximo dia 03 de março, ocorrido em 1854, quando se desmembrou de Mata Grande e foi elevado à condição de Vila.
Outra distorção na história de Jaciobá, e é prudente ressaltar, que não é consenso — nem há respaldo histórico — é sobre a doação de terras feita pela coroa portuguesa aos povosoriginários. Todos conhecem e sabem como se deu o processo colonial no Brasil, seguindo um caminho totalmente inverso, como romanceado na história de Pão de Açúcar: era um dos objetivos da colonização, talvez até o principal, a expropriação dos territórios originários, a imposição da autoridade europeia e a concessão de sesmarias a colonos, militares ou religiosos ligados à Coroa.
Essas distorções históricas se arrastam por décadas, passando de geração a geração; mas não por falta de alerta, pois desde 2016 que tento dialogar com o poder público na tentativa de colaborar com a justa correção da história e identidade da minha terra.
Pensar numa “doação pacífica” em Jaciobá, como insiste a história oficial, é desconsiderar a lógica da colonização e os conflitos que marcaram a ocupação do sertão nordestino, incluindo o apagamento progressivo dos Urumaris e o nome primitivo de Jaciobá, que anos mais tarde foi substituído por Pão de Açúcar. Contudo, há um registro que ajuda a organizar essa narrativa: em 1660, já após a Restauração portuguesa, D. Luísa de Gusmão, rainha de Portugal e viúva de D. João IV, teria doado as terras de Jaciobá ao fidalgo Lourenço de Brito Correia. Este, transformou a antiga Jaciobá em fazenda de criação de gado, atividade típica da ocupação do sertão nordestino, e lhe deu o nome de Pão de Açúcar.
A escolha do nome dialogava com a memória econômica de sua família no Recôncavo Baiano, onde o fabrico do açúcar era moldado em fôrmas cônicas conhecidas como “pães de açúcar”. Essas fôrmas foram comparadas ao Morro do Cavalete, elevação existente na antiga Jaciobá, cuja silhueta se assemelhava ao formato desses moldes, criando um elo simbólico entre a paisagem local e o universo açucareiro baiano. Assim, o nome que hoje identifica o município nasceu de uma comparação econômica e cultural,deslocada do litoral açucareiro baiano para o interior pastoril no sertão alagoano.
Luís Laércio Gerônimo é filho natural de Pão de Açúcar-AL, graduado em Filosofia pela Universidade Federal de Sergipe, Mestre em Educação e doutorando em Ciências da Educação pela Universidad Autónoma de Asunción no Paraguai.







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