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  • Santana do Ipanema, 03/06/2026
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João Neto Felix

Cantor e compositor Gilson deixa mais do que 'Casinha branca' de herança para a música brasileira ao morrer aos 73 anos

Canção que atravessou gerações transformou o sonho de simplicidade, paz e pertencimento em um dos maiores símbolos da memória afetiva brasileira.

Foto: Assesoria
Cantor e compositor Gilson deixa mais do que 'Casinha branca' de herança para a música brasileira ao morrer aos 73 anos Gilson Vieira da Silva (1952 – 2026)

A minha geração cantou e se encantou com a maravilhosa canção "Casinha Branca". Nas rodas de violões a canção tem lugar cativo e sempre aparece. Aliás, ainda hoje a gente se vê cantando a música com o mesmo vigor daqueles anos. Há muito tempo que eu não ouvia falar do artista. Lamentei sua morte. O homem morre, mas sua obra ficará para sempre.

Há músicas que parecem guardar em si não apenas versos, mas pedaços da alma coletiva de um povo. Casinha Branca é uma dessas canções. Quem a ouve sente que não é apenas a história de um homem solitário; é o retrato de uma saudade que atravessa gerações.

O personagem da letra caminha pela cidade, perdido entre rostos que carregam mistérios e ilusões. É a solidão urbana, tão familiar a quem vive entre prédios e buzinas. Mas, ao mesmo tempo, ele sonha com algo simples: uma casinha branca, um quintal, uma janela para ver o sol nascer. Esse desejo não é só dele, é de muitos brasileiros que, ao longo do século XX, trocaram o campo pela cidade e levaram consigo a nostalgia da vida rural.

O Brasil se urbanizou rápido, mas nunca deixou de cultivar o imaginário do mato verde, da varanda e do quintal. A casinha branca é mais que uma casa: é símbolo de pertencimento, de raízes, de um lugar onde o tempo corre devagar e a vida se mede pelo nascer e pelo pôr do sol. É o contraponto à pressa da cidade, ao anonimato da multidão

Por isso a canção se tornou tão popular. Ela fala de uma utopia simples, mas poderosa: a busca por paz, por vínculos verdadeiros, por uma vida menos fragmentada. É quase um manifesto silencioso contra a correria moderna. E talvez seja por isso que, ao ouvi-la, tantos brasileiros se reconhecem porque todos carregamos, em algum canto da memória, o sonho de uma casinha branca com varanda, quintal e janela.

No fundo, Casinha Branca é uma crônica cantada sobre o Brasil que sonha com o campo, mesmo quando vive na cidade. É o retrato de um país que, entre o concreto e o verde, ainda procura um lugar para ver o sol nascer.

"É natural que todos os obituários do cantor e compositor potiguar Gilson Vieira da Silva (1º de agosto de 1952 – 30 de maio de 2026) tenham destacado a canção “Casinha branca”.

Lançada na voz de Gilson em single de 1979 e amplificada na trilha sonora da novela “Marrom glacê”, exibida pela TV Globo naquele ano, “Casinha Branca” é singela, bucólica e confessional canção que atravessa gerações desde que foi apresentada há 47 anos, tendo merecido regravações de Fábio Jr., Maria Bethânia, Roberta Campos, Neguinho da Beija-Flor, Michael Sullivan, José Augusto e Altemar Dutra (1940 – 1983), entre outros nomes.

Contudo, como compositor, Gilson – artista morto no sábado, 30 de maio, aos 73 anos, no distrito de Boa Família, em Muriaé (MG), de causas não reveladas pela família – deixa mais do que “Casinha Branca” de herança para a música brasileira.

Com o parceiro Joran Ferreira da Silva, coautor de “Casinha branca”, Gilson compôs dois sucessos para a cantora Adriana, “I love you baby” (1986) – um dos maiores hits radiofônicos de 1987 – e “Combinado assim” (1988). Já Peninha lançou em 1988 “Seu jeito de amar”(Clique para ouvir), música da dupla que ganharia registro posterior de Maria Bethânia em álbum ao vivo editado em 2002.

Em parceria com Carlos Colla, Gilson compôs o samba “Verdade chinesa”, grande sucesso de 1990 na voz do cantor Emílio Santiago (1946 – 2013). A lista de parceiros de Gilson também incluiu Ed Wilson (1945 – 2010), Prêntice (1956 – 2005) e Ronaldo Bastos – trio com o qual o artista compôs a canção “Não diga nada”, hit radiofônico de 1985.

Mesmo assim, é inegável que o nome de Gilson fica imortalizado sobretudo como o autor e intérprete de “Casinha branca” (Clique para ouvir), música ao qual o cantor soube imprimir a devida melancolia entranhada nos versos da canção."¹

¹Mauro Ferreira, jornalista carioca que escreve sobre música desde 1987, com passagens em 'O Globo' e 'Bizz'. 

Versões de Casinha Branca e Seu Jeito de Amar interpretadas por Maria Bethânia. Clique para assistir ao vídeo.



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