João Neto Felix
Orfeu e Eurídice
Adaptada de V. C. Turnbull, da mitologia grega
Nunca houve um músico como Orfeu, que cantava canções, inspiradas pelas musas, com uma lira que lhe foi dada por Apolo. A magia de sua música era realmente tão forte que a própria natureza possuía seu balanço. Não apenas as rochas e os riachos repetiam suas trovas como até as árvores se desarraigavam do solo para seguirem-no em comboio, e as feras selvagens da floresta amansavam e lhe faziam festa quando tocava e cantava.
Mas de todos que ouviam encantados suas incomparáveis toadas, nenhum mostrou tamanho deleite quanto a jovem e doce Eurídice, recém-casada com o exímio cantor. Hora após hora, sentava-se aos pés do esposo, atenta à música de sua voz e da lira, e os próprios deuses devem ter invejado o casal feliz.
E decerto algum deus os enxergou com os olhos da inveja. Pois num dia maligno, passeando com suas criadas pelos campos floridos, Eurídice, foi picada no pé por uma víbora e consumiu-se em toda a sua beleza antes do sol se pôr.
Então Orfeu, transtornado em sua angústia, jurou que a própria morte jamais deveria roubá-lo de seu amor. Suas músicas, que podiam amansar feras selvagens e arrancar de suas raízes árvores seculares, deveriam subjugar as forças do inferno e retomar Eurídice de suas garras.
Neste momento ele jurou, clamando aos deuses que o ajudassem; e, pegando nas mãos sua lira, iniciou a jornada na temerosa romaria da qual nenhum homem - exceto Hércules, que era um herói, metade homem e metade deus - retornou vivo.
E então chegou ao caminho descendente, cujo fim se perde nas sombras. Desceu, desceu até que a luz do dia se esvaiu totalmente, e com ela todos os sons da agradável terra. Desceu com o silêncio lúgubre, atravessando escuridão mais profunda que a das noites mais tenebrosas da terra. E das trevas, tímidos a princípio, e mais altos à medida que prosseguia, surgiram sons que lhe fizeram gelar o sangue - gritos e berros além da mortal angústia, e as terríveis vozes das Fúrias, proferindo palavras que não podem ser pronunciadas em nenhuma língua humana.
Ao ouvir tudo isso, Orfeu sentiu tremerem os joelhos, e seus pés pararam como que enraizados no solo. Porém, lembrando uma vez mais de seu amor e de todo seu desgosto, tocou a lira e cantou, até que sua endecha, reverberando qual marcha fúnebre, suplantou todos os sons do inferno. E Charon, o velho jangadeiro, subjugado pela melodia, transportou-o pelo nonário rio Estige, que ninguém exceto os mortos pode cruzar. Quando Orfeu chegou ao outro lado, bandos de descorados fantasmas reuniram-se ao seu redor naquela margem lúgubre; pois o cantor não era nenhum fantasma das trevas como eles, mas sim um mortal, bonito embora pesaroso, e sua música falou-lhes, tal como milhares de vozes, do sol e da terra tão familiar e daqueles que ficaram para trás em seus adorados lares.
Mas Orfeu, não encontrando Eurídice entre eles, evitou qualquer retardo, seguiu em frente, sobre as flamejantes águas de Phlegethon, pelos portais diamantinos nas nuvens do Tártaro. Ali, encontra-se Plutão, senhor do outro mundo, sentado no trono, em torno do qual os pecadores penam pelo mal que praticaram na terra. Ali, Ixion, assassino do próprio sogro, está preso à roda que nunca pára de rodar, e Tântalo, que matou o próprio filho, padece de fome eterna diante do alimento e medo eterno da pedra prestes a cair. Ali, as filhas de Danaüs não param de verter água em urnas sem fundo. Ali, Sísifo, que perdeu a confiança dos deuses quando estes lhe permitiram retornar à terra por uns instantes, empurra ladeira acima uma enorme pedra que, ao rolar do topo, esmaga o miserável na escabrosa descida.
Agora, porém, via-se uma grande maravilha no inferno. Pois quando Orfeu entrou cantando, suas melodias, as primeiras que jamais soaram na morada do medo, fizeram cessar por um momento o terror. Tântalo não agarrou os frutos que lhe escorriam pelos dedos, a roda de Ixion parou de girar, as filhas de Danaüs interromperam a diligência com as urnas, e Sísifo descansou na pedra. As próprias Fúrias deixaram de açoitar suas vítimas, e as serpentes que se confundiam em suas madeixas penderam para baixo, esquecendo-se de sibilar.
Assim chegou Orfeu ao trono do grande Plutão, ao lado de quem encontrava-se Proserpina, sua rainha. E o rei dos deuses infernais perguntou:
- O que desejas tu, mortal, que ousas entrar sem ser convidado neste nosso domínio da morte?
Orfeu respondeu, tocando sua lira entrementes:
- Não vim como espião nem inimigo onde sequer um ente vivo se aventurou antes; busco apenas minha esposa, que encontrou morte precoce nas presas de uma serpente. Amor como o meu por tão merecedora donzela há de derreter até o mais empedernido dos corações. Vosso coração não é de todo pétreo e vós também na terra amastes digna donzela. Por estes lugares horripilantes, e pelo silêncio deste reino sem fronteiras, imploro-vos que restituais Eurídice à vida.
Fez então uma pausa, e todo o Tártaro aguardou com ele uma resposta. Os terríveis olhos de Plutão estavam deprimidos, e à Proserpina veio-lhe à lembrança dos dias longínquos quando também ela era uma donzela na terra passeando pelos campos floridos de Enna. Orfeu tornou a vibrar suas cordas mágicas e cantou:
- A vós todos pertencemos; a vós cedo ou tarde todos viremos. É apenas por um pequeno espaço que rogo por minha Eurídice. Não, sem ela eu não retornarei. Concedei, portanto, minha súplica, ó Plutão, ou mate-me aqui e agora.
Então Plutão ergueu a cabeça e falou:
- Trazei Eurídice à minha presença.
E Eurídice, ainda pálida e claudicante de sua ferida mortal, foi retirada das trevas dos recém-mortos.
E Plutão falou:
- Toma, Orfeu, tua mulher Eurídice, e leva-a de volta para a Terra. Mas vai na frente e deixa que ela te siga. Não olha para trás uma vez sequer, até que tenhas ultrapassado minhas fronteiras e possas ver o sol, pois no momento em que voltares a cabeça tornarás a perder tua mulher, e para sempre.
Então com grande júbilo, Orfeu virou-se e guiou Eurídice para fora dali. Deixaram para trás os mortos torturados e a algaravia dos fantasmas; atravessaram a chamas de Phlegethon, e Charon ajudou-os mais uma vez a cruzar o nonário rio Estige; e tomaram o escuro caminho de subida, com os gritos do Tártaro cada vez mais distantes em seus ouvidos; e finalmente a luz do sol surgiu tênue e distante onde a trilha reencontrava a terra, e ao forçarem a marcha avante o canto dos passarinhos respondeu à lira de Orfeu.
Mas a taça da felicidade foi furtada aos lábios que tocaram sua borda, pois quando se encontrava no limiar do mundo das sombras, a luz do sol já tocando suas faces e os pés a um passo do solo terrestre, Eurídice tropeçou e gritou de dor.
Sem pensar, Orfeu virou-se para ver o que a afligiu, e nesse momento ela lhe foi tirada. Ele a viu desaparecer trilha abaixo, novamente um espectro, sumindo de vista como fumaça, enquanto sua forma cada vez menos nítida se diluía nas sombras. Por um momento apenas poder ver os braços embranquecidos ser esticando em vão. Uma vez apenas pode ouvir a última despedida inconsolável.
Pela trilha abaixo enveredou-se Orfeu, clamando por sua Eurídice perdida uma segunda vez; em vão foi a sua angústia, pois Charon não mais o levaria ao outro lado do rio Estige. O cantor retornou então à terra, de coração partido e sem mais felicidade alguma na vida. Desde então seu único conforto foi sentar-se no monte Rhodope a cantar seu amor e sua perda.




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