LUA DE GEVAUDAN (A Cura – Lulu Santos)

14 setembro 2015


Ilustração: Fábio Campos

Ilustração: Fábio Campos

Cansado e velho ia o mundo. De tantas artimanhas, ainda mais cansado andava aquele ano. Ia lento, claudicante, debaixo do peso do tempo curvado. A infância carnavalesca, a fremência junina, a festeira juventude de julho, agora era passado. Augusta idade madura, descambando pra caduquice setembrina. Todo velho tem uma história de guardar coisas. De ajuntar quinquilharia porque um dia de alguma forma pode servir. A repetir sempre as mesmas coisas. E suas falas sempre se iniciam com: “No meu tempo”. De esquecer onde deixou as chaves. De não querer tomar banho. Comer também não, porque nada tinha mais gosto como antigamente. De muitas vezes se pegar no meio da sala, parado, a pensar o que ia mesmo fazer?

“Existirá

Em todo porto tremulará

A velha bandeira da vida

Acenderá

Todo farol iluminará

Uma ponta de esperança” 

Na frente da igreja se havia uma mulher. Assim que se abriram as portas, foi sentar-se na primeira bancada, diante do altar. Era assim por se dizer bonita, bem apanhada, visto a meia idade. Os cabelos escorridamente sedosos, em dois tons de loiro ornavam seu colo rijo. O rosto gracioso, amplamente marcado pelo ruge carmim, boca carnuda. Uma blusa dum vermelho intenso de tecido leve vaporoso que valorizava seus ombros. Decote generoso pra lá iam qualquer olhar decaído sobre o seu ser. A calça jeans sobrepujava suas curvas dadivosas, a alvoroçarem nervos quaisquer, dos mais metálicos aos mais tenros então. Abriu a bolsa, pegou um livro, pôs-se a ler. Decorrido certo tempo tirou os calçados. O zelador da igreja aproximou-se curioso. Aproveitaria pra perguntar ao moço se podia deitar-se ali, estava muito cansada. O rapaz diria que não era permitido. Pediu então que ao menos olhasse sua bolsa enquanto ia a rua comprar água, e algo pra comer, tinha sede, e fome.

“E se virá

Será quando menos se esperar

Da onde ninguém imagina

Demolirá

Toda certeza vã

Não sobrará

Pedra sobre pedra”

Quando doutor Adalberto Lisboa foi transferido da capital pro interior, escolheu a vila pra morar. Comprou o velho casarão ao lado da igreja, primeiramente pensou em derrubá-lo todinho e erguer uma casa bem moderna, sofisticada. Um arquiteto contratado sabiamente o destituiu da ideia. Segundo ele, a nova construção ia ficar deslocada, pareceria um corpo estranho, contrariando o conjunto da obra. Convenceu-o a restaurá-lo. Desde a fachada colonial que com pequenos traços de barroco, bem como por dentro também deu pra aproveitar muita coisa. As paredes de tijolos dobrados, o piso rústico, tudo respirava história. Recuperou belos lustres de cristais do tempo do império. Nos cômodos manteve as janelas enormes de única folha inteiriça que ao se abrir enchia a casa de luz intensa. No primeiro dia que dormiu ali, teve um sonho que jamais esqueceria. Uma menina de seus treze anos aparecia num balanço no quintal da casa. Estava de branco, vestido, sapatos e meias, e um chapéu também branco. Não dizia palavra, só se balançava e sorria pra ele. No segundo dia, novamente o mesmo sonho. Desta vez a menina acenava-lhe, chamava-o até o pomar, e apontava angustiadamente pra cisterna. De fato havia a tal cisterna no final do quintal, só que nos dias do doutor, estava abandonada. A menina do sonho apontava pra portinhola da cisterna, e chorava muito. Era um sonho mudo, desbotado, sem som, sem cor. Tudo parecia sujo entrecortado como filme antigo. O promotor de justiça doutor Adalberto Costa até então jamais soubera nada a respeito daquele velho casarão. Passaria a buscar a história dos antigos moradores. Quando estava sozinhom no cômodo transformado em escritóriom estranhamente ouvia choro de criança, mesmo que ainda fosse dia.

“Enquanto isso

Não nos custa insistir

Na questão do desejo

Não deixar se extinguir

Desafiando de vez a noção

Na qual se crê

Que o inferno é aqui”

A mulher consultou o relógio. Pensando alto disse: -Maldito! Não chega mais não! Era por volta das sete da manhã quando havia chegado ali. Atento e curioso o zelador ouviu o que dissera aproveitou pra dizer que já era meio dia e que precisava fechar a igreja. A mulher quis saber se na parte da tarde reabriria. Confirmou dizendo que só iria almoçar e por volta de uma hora tornaria a abrir. Aproveitou pra perguntar por quem tanto esperava. Disse que era pelo seu marido. O rapaz fez cara de incredulidade. Adquiriram confiança um no outro, tanta, que a mulher resolveu contar a verdade. –Moço, é um amante quem estou esperando. –Mas logo aqui na casa de Deus? -Já pedi perdão? Por acaso tem um padre com quem possa confessar? Não tinha. –Olha! Nem ele, nem eu somos daqui moço. Escolhemos esta vila para nos encontramos ao caso, sempre mudamos de lugar para não sermos descoberto. Ele é um homem rico, têm irmãos políticos, deputados. O que acha? Acredita na minha história? – Minha senhora! Eu não acho nada, só tenho que fechar a igreja já passa de meio dia, a senhora me dá licença?

“Existirá

E toda raça então experimentará

Para todo mal, a cura

Existirá

Em todo porto se hastiará

A velha bandeira da vida

Acenderá

Todo farol iluminará

Uma ponta de esperança”

Doutor Adalberto resolveu derrubar a cisterna. Pensou com isso conseguir decifrar o enigma da menina do sonho, e acabar de vez com o sonho contínuo que já estava lhe dando nos nervos. Fez questão de acompanhar o serviço do pedreiro, o tempo inteiro pedindo que parasse com receio de que destruísse algo vestígio importante. Se um estava ansioso, o outro já estava ficando impaciente. A parede da cisterna era feita de areia, misturada com barro vermelho e cal. A cal no tempo em que fora construída a cisterna era curada antes. Vários dias dormia dentro d’água e no momento da construção era batida com cacete para adquirir consistência e compacidade. Deu trabalho pra tão modesta construção vir a baixo. Quando tudo parecia não levar a nada que denotasse algo sobre a menina do sonho. Uma coisa chamou atenção dos dois homens uma inscrição feita com tinta vermelha bem lá no fundo: “Gevaudan – 21-9-1765.

“E se virá

Será quando menos se esperar

Da onde ninguém imagina

Demolirá

Toda certeza vã

Não sobrará

Pedra sobre pedra”

Um carro de luxo, cabine dupla, de cor prata parou na porta da igreja. Os vidros fumês das janelas suavemente foram baixando, até deixar ver, um homem com um enorme chapéu de caubói ao volante. O zelador à porta da igreja percebeu tudo. Atenta ao barulho do carro a madame aproximou-se da porta. O rosto voltado pra escadaria do templo, não deu pra o homem perceber a aproximação de outra mulher que vinha da praça, no sentido contrário pra onde olhava. Era uma bela senhora de cabelos negros, sedosos, preso num coque por um lenço colorido no alto da cabeça, vestia calça de tecido leve e blazer. Sacou um revólver da bolsa e a queima roupa deu três tiros no homem. Sequer esperou pra vê-lo debruçar morto sobre o volante. Simplesmente entrou num carro que estava parado, alguém que guiava arrancou, deixando pra trás gente atônita, aproximação de curiosos. E um homem morto.

“Desafiando de vez a noção

Na qual se crê

Que o inferno é aqui”

Na biblioteca pública, no cartório de registros, na prefeitura. Doutor Adalberto vasculhou tudo em busca de informações sobre a família que havia construído, e que seriam os primeiros moradores daquela casa. Sobre Gedeuvan e os números descobriu que era um velho costume dos pedreiros da época colocar o nome e a data da construção. Se tivesse ido mais a fundo nas suas pesquisas o magistrado teria descoberto muitas outras coisas. “Naquela casa morou uma jovem de quatorze anos, chamada Jeane Bernadete. Numa noite de lua cheia, do mês de setembro de 1765, foi encontrada morta, decapitada. O corpo encontrado no quintal e a cabeça no fundo da cisterna. Bernadete teria sido a primeira de uma série de mortes de meninas e meninos, sempre na faixa etária entre 13 e 16 anos. Os corpos sempre mutilados, ou extirpados além de mordidas e arranhões como de um animal feroz, apresentavam também sinais de sevícias sexuais. Foram feitas muitas investidas para caçar o animal, organizada pelos aldeães. O Marquês de Satuba, e o Conde de Fernão Velho participaram de algumas dessas caçadas. O cerco se fechou, as evidências foram se intensificando, e se chegou a um lunático chamado Givaldino, filho de um velho pedreiro. O rapaz acabou linchado em praça pública, ficaria conhecido como “A Besta de Gevaudan”.

“Existirá

E toda raça então experimentará

Para todo mal, a cura”

Fabio Campos 02 de setembro de 2015