18 jun

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CAMPEÃO DE QUE?

Família - 1943Colegas de todas as facas

Há algumas semanas o presidente do Supremo Tribunal Federal disse durante uma palestra para estudantes que “nós (os filhos desta pátria mãe gentil) temos partidos de mentirinha”. Durante vários dias a notícia foi amplamente divulgada na imprensa, entrevistas com parlamentares foram realizadas, cientistas políticos fizeram análises quase que freudianas sobre o acontecido e eu, assistindo a tudo isso, tinha uma única pergunta na mente: Porque tanta polêmica sobre uma verdade tão antiga.

Pode parecer coincidência, mas eis que na mesma cadeira em que assisti a reportagem sobre a declaração do ministro, estava debruçado sobre um livro de crônicas de Olavo Bilac, presente do meu primo Gaspar Guimarães, com apenas 899 páginas, quando de repente leio um texto do ano de 1890 em que o autor questiona as ações contra a liberdade religiosa empreendidas pelo recém instituído governo republicano. Frisando que a república foi proclamada sob o pretexto de liberdade que supostamente o regime monárquico não proporcionava, o grande poeta e jornalista brasileiro finalizou sua crônica fazendo alusão à Guerra do Paraguai, em que o governo brasileiro, na época uma monarquia, arrasou o país vizinho proclamando o discurso da liberdade.

O texto de Bilac dizia assim:

“Tenho na minha modesta panóplia uma faca paraguaia. Valente lâmina! Deu-ma um velho militar que a trouxe do Paraguai em 70. Na folha há a seguinte inscrição: Libertá! – e o velho militar dizia-me sempre: “Todas as facas no Paraguai têm essa inscrição; veja você que diabo de divisa foi arranjar um povo sem liberdade!”

Agora, que todas as bocas e todos os jornais, depois de 15 de novembro, andam cheios aqui dessa palavra – liberdade – eu começo a desconfiar de que o Brasil está se parecendo muito com uma faca paraguaia.”

O descompasso entre o discurso, ações e intenções da classe política deste grande país é tão antigo quanto sua própria existência e tentar descobrir uma solução é algo tão difícil quanto caminhar num terreno movediço. É por isso que eu prefiro me deter nos aspectos mais pitorescos que tal prática nos proporciona e vocês hão de convir que é bem menos doloroso.

Refletindo sobre a declaração do presidente do STF, veio à memória a figura do meu avô Gaspar Wanderley, figura marcante da minha infância. Gaspar era um homem de baixa estatura e franzino, mas de atitudes dignas de um gigante. Como era comum naquele tempo tirava o seu sustento da agricultura e da criação de gado, mas também mantinha no compartimento da frente de sua casa uma pequena mercearia, uma “venda” como era chamada. Na venda de Gaspar tinha alimentos como milho, farinha e feijão, além de ferrolhos, dobradiças, pregos e parafusos. Tinha também uma seção de “fiteiro” onde se encontrava sabonete, perfume e brilhantina Glostora e outra de armarinho onde se encontravam lenços, meias e outras peças de uso pessoal. No conceito de hoje tinha o sortimento equivalente a um mercadinho, mas o atendimento era no balcão onde, além de confeitos e uma diversidade de pastilhas, também se vendia cachaça, vinho de jurubeba e Genebra ou Zinebra uma espécie de cachaça composta com zimbro. Bebida originária dos Países Baixos, a Zinebra foi muito difundida no nordeste brasileiro, mas hoje em dia é raramente encontrada. Tinha um alto teor alcoólico e trazia a fama de ser medicinal. Mamãe me contou que muita gente comprava a bebida para misturar com cebola e tomar como um remédio para dores de barriga. Ela e minhas tias Gasparina, Auxiliadora e Olávia ajudavam na “venda” e cada uma tinha uma gavetinha onde eram colocados os pagamentos das vendas efetuadas por cada uma delas. Ao final da semana Vovô contava o apurado de cada uma e lhes pagava alguns tostões pelo serviço realizado. Naquele tempo o trabalho dignificava e educava, hoje em dia… Os conceitos são outros.

Percebendo a concentração de pessoas durante as festas de reis e de São Sebastião, em sociedade com Manoel de Sulia, até hoje vivo lá pras bandas da cidade do Recife, Vovô construiu um carrossel de madeira que naquela época era chamado de “curre” e isso eu já contei para vocês. O curre de Gaspar era armado na rua em frente à sua casa e tanto gerava uma renda extra no período das festas como também atraia a freguesia para sua “venda”. Na década de 50, Vovô deu uma lição de empreendedorismo e ousadia quando resolveu comprar uma caldeira a lenha para a geração de energia, sendo portanto o pioneiro da eletrificação de Poço das Trincheiras no tempo em que a localidade era apenas um distrito do município de Santana do Ipanema.

Com o temperamento que tinha não deu em outra, um dia, finalmente, ele entrou para a política. Naquele tempo as disputas muitas vezes eram resolvidas na bala, mas uma boa combinação entre um discurso afiado e algumas precauções permitiu que ele atravessasse esta etapa da vida sem que seu nome fosse associado a ações de violência. Foi desse tempo uma história que me foi contada várias vezes por Aderval Wanderley Tenório, homem de grande inteligência e exímio advogado. Aderval ingressou na política e rapidamente galgou o posto de deputado estadual. Objetivando garantir o seu espaço político procurou estabelecer uma boa rede de aliados e, ciente das disputas existentes no Poço das Trincheiras procurou o apoio do meu avô. Naquele tempo, devido a precariedade do aparelho de estado, cargos públicos que hoje são acessíveis apenas através de concurso eram preenchidos por cidadãos comuns, mas que demonstravam aptidão para a respectiva função, podendo ser indicados pelos membros da comunidade ou então pelo próprio governador do estado. Eu sei que a coisa não funcionava tão bem como se gostaria, mas foi nesse contexto que Aderval conseguiu para Gaspar o cargo de Delegado de Polícia do Distrito de Poço das Trincheiras. A ideia era conter o poderio dos adversários e ressaltar a imagem de uma gestão séria e enérgica.

Uma vez empossado, o novo delegado começou a mostrar serviço. Tudo ia bem até que, um dia, um indivíduo aprontou algumas e entrou na sua mira para uma estadia no xilindró. Não sei exatamente que tipo de infração o sujeito cometeu, o certo é que, percebendo que não seria possível escapar das garras da lei sua mãe resolveu procurar Aderval. Com uma conversa melosa e uma convincente promessa de fidelidade eleitoral a mulher conseguiu que ele aceitasse intervir no caso para que o cabra não passasse uns dias vendo o sol nascer quadrado. O deputado escreveu um bilhete e orientou-a que apresentasse o rapaz à delegacia e entregasse o bilhete ao delegado. Confiante no peso político do seu “padrinho” a mulher fez exatamente como lhe fora recomendado. Retornando ao Poço das Trincheiras, pegou o filho pela mão e foi à delegacia. Quando Gaspar viu o sujeito já ia mandando que o detivessem quando a mulher então mostrou-lhe o bilhete que começava dizendo “Caro primo Gaspar”, passava por uma recomendação de condescendência e terminava com a assinatura “Do Aderval”. O delegado leu a mensagem, leu mais uma vez, olhou bem para o papel, olhou para a cara do sujeito e, dirigindo-se ao policial que estava a postos, ordenou:

– Prenda esse vagabundo agora mesmo.

Não deu em outra, o cabra foi para detrás das grades e o delegado foi exonerado poucos dias depois.

Com atitudes incompatíveis com a expectativa do seu partido político e perseguido pelos seus adversários a carreira política de Gaspar Wanderley foi um verdadeiro desastre. Ironicamente, as duas únicas coisas que ele obteve desse período da sua vida têm valores completamente opostos: a derrocada financeira e o respeito de muitos dos seus adversários. Fatos contraditórios, mas por incrível que pareça verdadeiros.

Falando em contradições, vejam os pitorescos exemplos abaixo:

Primeiro: A polícia não consegue proporcionar uma política de segurança pública. No entanto, esbanja força contra manifestantes que reivindicam seus direitos ou protestam contra o mau uso dos recursos públicos.

Segundo: Vereadores que ganham mais de R$ 10.000,00 por mês aprovam uma lei que reduz o salários de professores para menos de R$ 900,00. No entanto bilhões de reais são gastos na construção de estádios de futebol.

Terceiro: A seleção brasileira ganhou de 3 X 0. Será que a palavra “Campeão!” será a escolhida para a versão brasileira da “faca paraguaia”? Só precisamos definir, campeão de que?

É colegas a situação deste grande país está tão complicada que a única política que venho praticando ultimamente é a da boa vizinhança. Um grande abraço a todos.

Saúde, sabedoria e paz.

Virgílio Agra

OBS: A crônica “Liberdade” de Olavo Bilac foi publicada no livro “Bilac, o Jornalista”, de Antônio Dimas, pela Editora da Universidade de São Paulo.

Na foto de 1943, Vovô Gaspar e Vovó Lindalva. Em pé Tia Gasparina e Tia Auxiliadora e o bebê é Tia Zélia.

As edições anteriores das Saudações Caetés estão no blog saudacoescaetes.blogspot.com

29 maio

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PONI

Fruta de palmaColegas de todos os cortejos fúnebres

No meu tempo de menino, lá em Santana do Ipanema, as crianças eram criadas tendo obrigações a cumprir. Lá em casa minhas irmãs ajudavam minha mãe nas tarefas domésticas e a mim, que era o único filho homem, além de forrar minha cama, cabia a tarefa de fazer mandados, atividade que envolvia a ação de levar recados, fazer pequenas compras nas mercearias da cidade, levar encomendas nas casas dos parentes e toda sorte de trabalho que envolvesse o salutar hábito de subir e descer as ladeiras de Santana. No cumprimento das minhas atribuições diárias, muitas vezes tinha que ir ao comércio e esta frequência me permitiu conhecer vários personagens do centro da cidade. Eram comerciantes, comerciários, bancários, motoristas, carregadores, serralheiros, pessoas que frequentavam a loja de meu pai e me dispensavam atenção, tiravam uma brincadeira, faziam um afago, essas coisas que toda criança gosta. No entanto, havia um personagem com o qual eu jamais troquei uma só palavra e sequer passei perto dele, mas que lembro muito bem, seu nome era Poni.

Lá pelo final do século XIX e começo do século XX, instalou-se na cidade um comerciante do ramo dos tecidos, o Coronel Manoel Rodrigues da Rocha. Coronel sem armas nem capangas era o homem de referência do lugar, tanto pelo seu sucesso financeiro quanto pelo seu comportamento exemplar. Sua esposa era conhecida como Sinhá Rodrigues. Após a morte do marido, deu a mais perfeita continuidade aos negócios da família e pelo seu caráter e credibilidade merece ser considerada como uma das matriarcas da cidade. Próximo à casa do Coronel, bem em frente à igreja matriz, veio morar uma sobrinha sua chamada Hermínia. O laço de parentesco poderia nos levar a pensar que ela estivesse fadada a uma vida despreocupada e com muitas facilidades, mas não foi o que aconteceu. Dona Hermínia Rocha casou-se com Seu Antides Feitosa tendo com ele quatro filhos. Os três primeiros: Agissé, Berenice (Bebé) e Poni eram completamente loucos. A chegada da quarta filha, Labibe, dotada de sanidade, não foi suficiente para garantir a estabilidade daquela desventurada família. Seu Antides, que já tinha saído de casa uma vez, novamente foi embora deixando para Dona Hermínia o ônus de manter a casa e criar os filhos sozinha.

Naquele tempo, como parte da formação para se tornarem esposas, as mulheres aprendiam artes manuais como bordados, rendas, flores, quitutes etc. Abandonada pelo marido e precisando sustentar os filhos, Dona Hermínia, prendada como era, passou a dedicar-se ao artesanato com especialidade em artigos para funerais. Apesar da cidade ser pequena, naquele tempo a mortalidade era alta, principalmente de criancinhas, anjinhos como eram chamados, de modo que nunca lhe faltava encomendas. Ela fazia flores artificiais, coroas de flores, mortalhas e grinaldas. A grinalda era um símbolo de pureza e por isso eram usadas tanto nos casamentos como também nos enterros de anjinhos e de virgens. Assim, garantiu seu sustento e dos seus filhos, de modo que sua filha caçula, Labibe, casou-se e foi morar no Rio de Janeiro, antiga capital federal, mas os outros três nunca puderam dispensar os cuidados maternos.

A influência que o trio Agissé, Bebé e Poni teve na vida da pequena cidade foi tal que em 1944, um neto do Coronel Manoel Rodrigues, Breno Acioly, filho do Dr. Acioly, o primeiro juiz de direito da cidade, escreveu o livro “João Urso”. Escrito sob a inspiração nos primos loucos, o livro recebeu os prêmios Graça Aranha e Afonso Arinos da Academia Brasileira de Letras e seu autor passou a ser conhecido pela crítica literária como “o contista da loucura”, título adquirido considerando-se toda sua obra. Novamente, em 1963 o trio voltou às páginas da literatura com a publicação do livro de crônicas “Fruta de palma”, de Oscar Silva outro escritor santanense que, abraçando a carreira de coletor federal, mudou-se para Toledo lá pras bandas do Paraná, cidade onde morou até o dia da sua morte em 1991. Eu não tive oportunidade de conhecer Breno nem Oscar, mas lembro-me que várias vezes vi Poni andando na rua, vestido num pijama daqueles que são de calça e camisa de manga comprida. Apesar de viver no mundo paralelo da loucura, Poni era um indivíduo pacífico, mas na minha visão de criança seu aspecto me dava medo e por isso eu me contentava em olha-lo, apenas de longe.

Agissé, Poni e Bebé, nas suas loucuras não apenas inspiraram escritores como Breno Acioly e Oscar Silva, mas também deixaram gravadas na memória popular muitas histórias em que eles mesmos foram os protagonistas. Contam os mais velhos que, quando Dona Hermínia ainda era viva, Agissé, o mais velho dos irmãos, morreu. Santana do Ipanema cultiva uma tradição de realização de cortejos fúnebres a pé. Quer seja rico ou pobre, o falecido é levado à sua última morada pelas mãos dos seus conterrâneos. Com Agissé não se deu de outra maneira, o fato de ser louco não seria motivo para o rompimento desta antiga tradição. Após a encomenda do corpo um grupo de homens, comerciantes, bancários, funcionários públicos, profissionais liberais e toda uma sorte de amigos da família pegando nas alças do caixão, começaram o percurso revezando-se na caminhada que não era curta. O momento era solene, mas não impedia que a imaginação dos presentes arquitetasse alguma presepada. Em dado momento, um grupo de amigos combinou que iriam colocar Poni para segurar numa das alças e os demais não fariam o revezamento com ele. Ora essa, eu tenho experiência de pegar em alça de caixão e sei que, se tem uma coisa pesada nesse mundo é defunto. O coitado do Poni pegou na alça do meio e, quando se sentiu cansado falou:

– Companheiro, companheiro!

Os gaiatos formaram um verdadeiro cordão de isolamento e todos faziam de conta que nada ouviam. Alguns minutos depois o coitado apelou mais uma vez:

– Companheiro, companheiro pegue aqui!

Mais uma vez ninguém se habilitou a livrá-lo do peso. O tempo foi passando e o coitado do Poni se agoniando até que, já não mais aguentando, gritou a plenos pulmões:

– Ô vocês pegam essa peste ou eu largo aqui mesmo!

Ai todos caíram na gargalhada e finalmente um substituto apareceu, terminando o funeral sem outros incidentes.

Os anos passaram, um dia Dona Hermínia morreu e chegou a vez dela receber coroas de flores, vestir mortalha e ser levada em cortejo ao cemitério da cidade. Na falta da sua mãe, os irmãos remanescentes Poni e Bebé foram internados na Casa de São Vicente de Paula instituição histórica que abriga a mais de 50 anos idosos e desvalidos da região da Ribeira do Panema. Lá foram recebidos e, na medida das limitações de uma instituição de caridade, foram bem tratados. Eu lembro que quando eu era menino minha mãe nos levava um domingo a cada mês para visitar os velhinhos da Casa de São Vicente. Até hoje, várias pessoas ainda mantém este hábito humano e solidário. Tia Ana Agra contou que nas suas visitas ao abrigo sempre conversava com Poni e Bebé. Numa dessas conversas, Poni começando a perceber o aspecto transitório da vida, vendo que Bebé já havia partido e sua vez um dia chegaria, falou:

– Tá vendo Ana? Quando morre um rico sempre tem um bocado de gente no enterro, mas quando morre um pobre, você vê assim, vai bem pouquinho de gente.

Falou que o caixão de defunto pobre era de má qualidade, a mortalha era feita com tecido barato, tinha pouca ou nenhuma flor e concluindo disse:

– Olhe Ana! No dia que eu morrer eu não quero enterro de pobre. Eu quero ter um enterro de rico.

O tempo passou e o dia de Poni chegou. A notícia do seu falecimento espalhou-se na cidade e, de uma maneira quase que instantânea a comunidade se mobilizou para garantir-lhe um enterro digno. Mesmo com as limitações da sua loucura, ele fez parte da vida de muitas pessoas, foi amigo de infância de muitos homens hoje bem sucedidos nas suas profissões ou no comércio. As brincadeiras desde o tempo de menino até a idade madura não poderiam ser esquecidas, ali estava mais um amigo que partia para a eternidade e seus amigos compareceram para a despedida. Um bom caixão foi comprado, uma roupa boa e flores. Percebendo que, devido a distância, os velhinhos da Casa de São Vicente não podiam acompanhar o cortejo, Tia Ana falou com várias pessoas e conseguiu carros para garantir a presença de todos os internos.

– Só não foram aqueles que por motivo de saúde não podiam sair da casa. Todos os que puderam foram ao enterro de Poni, um enterro de rico com tudo que tem direito.

E assim o último filho de Dona Hermínia partiu ao encontro da sua mãe.

Caros colegas, considerando que eu não estou conseguindo escrever com a frequência que gostaria, é admissível alguma defasagem de calendário. Apesar de já ter passado o dia das mães e antes que o mês de maio acabe, eu gostaria de prestar aqui uma homenagem a todas as mães que, no cuidado com seus filhos amam, são companheiras, sofrem, brincam e que, como Dona Hermínia, nunca abandonam seus filhos.

Meus amigos, é bom poder contar com os recursos da grande rede para manter contato com todos vocês, mas bem que eu gostaria de poder encontrá-los pessoalmente e poder sentir os seus abraços. Poderia ser um encontro marcado ou casual, poderia ser em casa, na rua, na praça, num bar, poderia ser em qualquer lugar, mas, se por um acaso do destino, venhamos a nos encontrar em um velório, espero que não seja o meu. Um grande abraço a todos.

Saúde, sabedoria e paz.

Virgílio Agra

07 maio

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TRAPIÁ

Saudações Caetés

Colegas de todas as gulas

Zé AgraEis que no feriado da Páscoa, mais exatamente no dia de sábado, este simples caeté estava no alpendre da Fazenda Coqueiros, lá pras bandas da Ribeira do Panema, tendo como cenário a Reserva Tocaias, a primeira RPPN de caatinga do estado de Alagoas, legado de Tio Alberto Agra para as gerações futuras. Naquele dia ocorria pelo segundo ano o encontro anual das famílias Agra, Marques e Nepomuceno, um projeto ousado do meu primo João Tertuliano. Eu estava acompanhado de meu pai, minha mãe, minha esposa e lá nos encontramos com uma gama de tias e primos alguns dos quais só me encontro nessas boas ocasiões. A “parentada” foi chegando, se apresentando e se espalhando no alpendre, que é como o sertanejo chama a varanda, formando-se assim várias rodas de conversa. Lá num canto, sentou-se numa mesa Papai, Tio Alberto e Antônio Agra, um primo que eu não conhecia. A mesa ocupada pelos três era um verdadeiro arquivo vivo, pois se fôssemos somar as suas idades dava mais de 240 anos e a conversa, como não poderia deixar de ser, tratava sobre as recordações do passado e as notícias dos primos que há muito não se viam.

A família de meu pai fixou-se na região que fica compreendida entre as cidades de Carneiros e Olho d’Água das Flores, passando pelo Sítio Caboré. Naquela época essas cidades, hoje devidamente emancipadas, eram apenas uns povoados do grande município de Santana do Ipanema. Com o crescimento da família e a fragmentação das propriedades rurais pela divisão por herança, meu avô Pedro resolveu se mudar para a sede do município tornando-se um pequeno comerciante. O pai de Antônio Agra, Tio Joaquim, era irmão de Vovô e permaneceu em Carneiros, continuando a atividade agrícola. Com o falecimento de minha avó Jovita, papai foi entregue aos cuidados dos tios Virgílio e Chiquinha que o criaram com muito carinho. Papai viveu no Caboré os primeiros dez anos da sua vida e assim pode usufruir, dentre outras coisas, de uma infância com o convívio com muitos primos e tios.

Tio Joaquim teve onze filhos de três casamentos sendo que Antônio, presente ao encontro, era filho do segundo matrimônio. Papai perguntou pelos primos e Antônio foi fazendo um resumo do histórico familiar, mas um deles, José Agra, despertou outras lembranças. Papai conta que Zé tinha um problema na garganta, de modo que quando ele ficava nervoso a voz ficava rouca e por isso dizia-se que ele era “roncoio”. Outra característica sua é que ele era um tanto quanto estabanado. Se os meninos iam subir numa árvore ele fazia questão de subir mais alto que todos, se iam apartar o gado ele procurava tomar conta de tudo e se iam comer algo ele procurava comer mais que todo mundo. O primo, me parece, era de fato muito competitivo, o problema é que essa disposição de ser maior e melhor que os outros algumas vezes o colocavam em uma boa enrascada.

Os meninos daquele tempo tiveram a melhor infância do mundo. Como não havia televisão nem videogame e as crianças só iam para a escola a partir dos dez anos de idade, a infância era uma verdadeira colônia de férias onde as principais atrações era comer frutas no pé, correr, brincar de carreiro e tomar banho nos açudes, exercendo uma liberdade que hoje não existe mais. Papai contou que, certa vez, foi com os primos tomar banho num açude que existia bem pertinho da casa de Vovô Virgílio e todo mundo pelado saltou dentro d’água. A meninada mergulhava, inventava brincadeiras de pegar dentro do açude e a felicidade era geral até que, em determinado momento, alguém lançou uma ideia aceita por todos, foram comer trapiá.

Vocês sabem o que é trapiá? Eu acredito que a grande maioria nunca viu, nem comeu e sequer ouviu falar. Eu conheço e já vi muitas vezes, mas nunca consegui comer um só, porque seu cheiro me causa repugnância. O trapiá, Crateva tapia, é uma árvore nativa da caatinga, mas também é encontrada na mata atlântica, da região nordeste. O trapiazeiro tem uma folhagem muito densa e consegue manter-se verde mesmo em condições críticas de falta d’água. O seu fruto tem a forma esférica, mais ou menos do tamanho de um limão e tem dentro uma polpa branca que encobre suas sementes. Não vou entrar aqui na discussão sobre o sabor do fruto, mas o certo é que os seus apreciadores precisam degusta-lo com moderação, porque suas sementes podem provocar um sério entupimento intestinal. E foi exatamente pela falta de moderação que Zé Agra foi protagonista de uma história que poderia ser trágica, se não fosse cômica.

Enquanto os meninos comiam um ou dois trapiás Zé comia logo uns dez e foi comendo até saciar. Todo mundo voltou para casa feliz até que, com o passar das horas Zé começou a sentir um negócio estranho na barriga e aquilo foi causando um mal estar, o tempo passando, aquele trapiá todo seguindo seu caminho pelas tripas até que finalmente chegou o momento da dejeção e foi aí que a coisa entalou. O bolo formado pelas sementes de trapiá era maior que a bitola da via de escape e como não havia como fazer o caminho de volta o trânsito engarrafou. Zé bem que botava força, mas o troço não saia. A barriga foi inchando, o coitado ficava vermelho, se aperreava, dava um tempinho, tentava de novo e o trapiá firme, não ia, nem vinha. A coisa apertou tanto que Zé Agra, sem aguentar mais, resolveu procurar sua mãe, sua madrasta na verdade, e contou o que havia comido. É bom lembrar que isso aconteceu no início da década de 40 num povoado do sertão alagoano e naquele tempo não havia os remédios, não havia médicos, nem as técnicas que existem hoje. O certo é que o cabra tava entupido e a mãe teve que dar um jeito e o jeito foi o Zé ficar fazendo força pela frente, enquanto ela ficava cutucando o trapiá por trás com a ajuda de uma colher. Não sei se era uma colher-de-sopa ou uma colher-de-chá, ele teve foi a sorte dela não usar um garfo. Conjecturas à parte, o que de fato aconteceu é que o serviço foi feito com a mais perfeita sincronia, Zé botava força e o trapiá botava o olho pra fora, aí a colher entrava em ação desalojando umas poucas sementes. A operação foi se repetindo, se repetindo até que finalmente… PUM, o cabra desentupiu de vez. O alívio até que foi imediato, mas o coitado do Zé Agra passou um bom tempo sofrendo gozação dos irmãos e dos primos que só para chatear, ficavam de longe, fazendo uns gestos que incluíam unir o polegar com o indicador de uma mão enquanto que o indicador da outra, apontando para os dois primeiros, fazia um contínuo movimento circular, para contemplar a meninada gritava:

– Ôôôô Zéééé.

Não sei quanto tempo o assunto ficou em pauta, mas o certo é que Zé gastou muita energia correndo atrás da molecada.

Os anos se passaram e alguns dos filhos de Tio Joaquim emigraram para o Paraná, naquele tempo era lá a fronteira agrícola do país. Zé Agra embarcou nessa empreitada e lá no sul fez sua vida. Lá desenvolveu diversas atividades, montou uma pequena fábrica de doces, depois trabalhou um tempo com seu irmão Vicente que tinha um posto de gasolina e depois voltou para o ramo dos doces. Anos depois Zé mudou-se para a cidade de Americana – SP, onde mais uma vez aventurou-se nos negócios dos alimentos, montando uma pequena fábrica desta vez de canudinhos. Em 1995 fez uma visita à sua terra natal, veio comemorar o centenário do seu pai. Voltou para Americana onde residiu até o ano de 2003, quando então partiu para a eternidade, deixando boas lembranças de um tempo que não volta mais.

Queridos amigos, diante das demandas do mundo moderno, desejo a todos os dons da prudência e persistência para o alcance dos objetivos de cada um e se eu puder ajudá-los, será um prazer, desde que ninguém venha me pedir uma “colher-de-chá”.

Saúde, sabedoria e paz.

Virgílio Agra

20 abr

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O amigo, o favor e a onça

Inverno em EnschedeColegas de todas as dívidas

Nas últimas vezes que tenho falado com vocês, disse que tenho estado muito ocupado com muitas coisas para resolver, mas o certo é que minha vida está mais para um mar de tulipas do que um mar de problemas. De fato, nos últimos meses tenho trabalhado bastante, mas também tenho dividido minhas atenções com atividades que demandam tempo, atenção e energia, mas permitem alcançar grandes conquistas que compensam todo o esforço despendido.

Todos sabem que família é um pólo permanente de atenções e, como este simples caeté não é exceção à regra, eis que durante o segundo semestre do ano passado me vi no meio de uma maratona digna da grande olimpíada da vida. Primeiro foi minha filha mais nova, Juliana, que se inscreveu num programa do Governo Federal, “Ciência sem fronteiras”, que objetiva o envio de estudantes brasileiros para realizar cursos em universidades de vários países do mundo. Mesmo louvando a iniciativa do governo, enfrentamos um corre-corre danado para providenciar a documentação e cumprir todas as etapas do programa seletivo, tarefa dificultada pela falta de informações, mas, saber que minha filha foi aceita em três universidades holandesas, fez com que tudo tivesse valido a pena.

Enquanto a filha mais nova lutava por um curso de graduação no exterior, a mais velha, Janaína, por sua vez, estava na reta final do seu curso e, ao mesmo tempo, já batalhava por uma vaga num curso de mestrado. O certo é que nos dois primeiros meses do ano tivemos que realizar várias viagens à capital pernambucana, para garantir o embarque de Juliana no tempo devido, assistir a apresentação da monografia de Janaína e embarcá-la lá pras bandas das Minas Gerais para a realização do seu mestrado. A energia necessária para que tudo desse certo foi realmente grande e foi de fato cansativo, mas o gosto da vitória e a sensação de dever cumprido, só posso descrever como indescritível.

Não sei se isso acontece com vocês, mas todas as vezes que me deparo com situações importantes da minha vida, boas ou ruins, sempre me vem à lembrança acontecimentos passados que, de alguma maneira, tem associação com os fatos presentes. Foi revirando o baú da memória, refletindo sobre tudo que conseguimos e todos os fatores e pessoas que contribuíram para a nossa vitória, que me lembrei de um sábio ensinamento recebido de um velho amigo, João Murdido.

João Murdido vocês se lembram, já contei uma história dele aqui nas minhas Saudações. João é um dos caras mais atrapalhados que conheci na vida, mas é, sem dúvida nenhuma, uma boa pessoa e por isso sempre fiz questão de trazê-lo no rol dos meus amigos, mas como todo relacionamento humano tem sempre altos e baixos, houve um tempo em tive que ter muita paciência para que uma velha amizade não tivesse um fim. Certa feita, eu não sei exatamente porque, João Murdido cismou de me pedir dinheiro emprestado. Talvez ele achasse que eu tivesse dinheiro sobrando e eu, tentando administrar a amizade, procurava, na medida do possível, sempre atendê-lo. Quando o pedido era de quantias pequenas o “empréstimo” era concedido na base do “adeus”, já quando se tratava de quantias um pouco maiores, João me deixava um cheque como garantia e, mais ou menos no dia combinado, comparecia com o dinheiro devido e resgatava a dívida. Não poderia jamais dizer que ele um dia me deu calote, isso nunca, mas o que acontece é que, a simples “troca de um cheque” significava um empréstimo sem juros, num tempo em que a taxa de inflação não tinha nada de insignificante.

As trocas dos cheques repetiram-se algumas vezes e eu confesso que já estava me sentindo incomodado, porque para prestar aquele favor, eu muitas vezes tinha que apertar o meu orçamento, mas, um belo dia, João finalmente se superou. Ele, atrapalhado como sempre, parece que andou chegando tarde em casa e sua mulher, como não poderia deixar de ser, ficou braba que só uma onça. Não me perguntem o que se passou entre eles, eu que tive oportunidade nunca perguntei, quanto mais vocês? O certo é que João Murdido chegou aperreado e queria a todo custo “fazer uma média” com a patroa e, para atingir seu intento, o sujeito já tinha a receita exata, iria presenteá-la com um disco de Roberto Carlos. Se fosse nos tempos de hoje, com as facilidades de emissão de cópias de arquivos digitais não haveria problema algum, o que acontece é que ainda vivíamos a era do disco de vinil e, para que sua mulher pudesse ouvir em casa a voz do “Rei Roberto” a conta iria ficar bem salgada, mas o melhor estava por vir, João não queria um empréstimo e sim que eu pagasse a conta da sua malandragem. O sujeito aprontou uma das dele e ainda trouxe a conta para eu pagar. A surpresa foi tão grande que me desconcertou e eu fiquei sem saber como sair da enrascada. No final, terminamos chegando a um acordo, ele compraria o disco em três ou quatro prestações e eu daria o dinheiro equivalente a cada uma delas no seu respectivo vencimento. Sendo assim, o dispêndio financeiro foi aliviado, mas, em compensação, passei a ter a garantia de uma visita de João pelos próximos meses.

A experiência do disco me deixou cabreiro e eu cheguei a conclusão que teria que dar um fim às investidas desse meu amigo… Ou seria melhor dizer: “amigo da onça”? O tempo passou e um belo dia João Murdido me procurou, puxou uma conversa e eu, atento às suas intenções, ouvia tranquilamente com minha resposta pronta. Em determinado ponto da conversa, veio um novo pedido e desta vez a resposta saiu na ponta-da-língua.

– João, a coisa anda meio apertada, dessa vez não dá.

João tentou insistir, mas, após algumas investidas, compreendeu que eu não arredaria o pé, então percebeu que seria melhor sair diplomaticamente. Agradeceu-me bastante, reconheceu como favores os “empréstimos” obtidos e, malandro como sempre foi, fechou a conversa com uma frase quase que profética.

– Meu amigo, sei que tenho uma dívida com você, mas não estou falando de dinheiro, porque o dinheiro um dia a gente paga, mas um favor não se paga nunca.

Isso aconteceu há muitos anos, João saiu e eu voltei às minhas atividades, mas eu nunca esqueci suas palavras.

Caros colegas, é tão bom contar para todos as boas graças alcançadas, mas, ao mesmo tempo em que sinto um saudável orgulho de pai, não consigo tirar da minha mente o tempo em que minhas meninas, ainda usando fraldas, foram a primeira vez à escola. Lembro-me dos seus professores e professoras e agradeço a todos que dividiram com elas os seus conhecimentos. Não consigo deixar de me lembrar da participação que tiveram seus avós, tios e tias, parentes, amigos mais velhos e até mesmo de amiguinhos da mesma idade que, muitas vezes, mesmo de forma indireta, contribuíram com nossa conquista. Lembro-me que enfrentamos dificuldades, mas não posso deixar de me lembrar das diversas portas, janelas e braços que se abriram para nos apoiar. Lembro que quando Janaína foi aprovada no vestibular da UFPE, contei com o inestimável apoio de minha irmã e cunhado que abriram sua casa para recebê-la, dando-lhe um apoio que à época eu não poderia proporcionar e reconheço que sem eles essa vitória teria que ser, no mínimo, adiada. Hoje, olhando para o passado, reconhecendo que essa vitória não é só minha, percebo o quanto tenho de débito com todos aqueles que contribuíram com essa longa caminhada e, sinceramente, me sinto endividado, porque o apoio que recebi, não conseguirei pagar nunca.

Meus amigos, enquanto minha filha mais velha toma um banho de chuva nas ladeiras de Belo Horizonte e minha filha caçula curte o interminável inverno holandês, despeço-me mais uma vez desejando uma boa semana para todos e esperando que, se porventura algum de vocês um dia venha a contrair uma dívida, que não seja financeira, mas daquelas que possam te deixar o gostoso sentimento da gratidão.

Saúde, sabedoria e paz.

Virgílio Agra

As edições anteriores das Saudações Caetés estão no blog saudacoescaetes.blogspot.com

18 mar

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“Vamos dar uma volta no curre”

Foto: Cláudio Humberto

Foto: Cláudio Humberto

Estes últimos meses estão sendo tão atribulados que este simples caeté está tendo dificuldade até mesmo de mandar notícias para os amigos. Tem mais de um mês que comecei a escrever esta carta e ainda não tenho a certeza que vou concluí-la no dia de hoje. Natal já passou, carnaval já virou cinzas e eu estou aqui tentando contar como foi uma conversa que tive com uns amigos e parentes no final do ano passado. Mas, como diria Odorico Paraguaçu, “deixemos os entretanto e vamos pros finalmente”.

Eis que no último dia 08 de dezembro, sob a benção de Nossa Senhora da Conceição, fiz uma breve visita à pequenina Poço das Trincheiras, terra de metade da minha família, para uma reunião do Centro Cultural do Sertão na qual o tema era “O natal”. Cidade do interior vocês sabem como é, em qualquer roda de conversa as pessoas ou são parentes, ou amigos de infância, ou as duas coisas e foi nesse clima que a conversa rolou solta com muitas lembranças sobre os antigos natais lá na beira do Panema, no sertão de Alagoas.

Como todo mundo sabe, o natal é uma das principais festas da cristandade e os desbravadores europeus introduziram esta tradição quando da sua chegada aos mais diversos rincões deste país. Mas, no Poço das Trincheiras, lá no sertão alagoano, estes festejos adquiriram uma particularidade, qual seja, que a Festa de Reis passou a ter uma dimensão maior do que a própria noite de natal, de modo que os ditos festejos natalinos começavam na véspera do natal, passavam pela Festa de Ano e finalmente atingiam seu ápice na véspera do dia de Reis, 06 de janeiro.

Hoje em dia, o início dos festejos natalinos é fortemente marcado por anúncios comerciais, numa verdadeira exaltação a uma festa de consumo com a apresentação de novidades, oferecimento de crédito fácil e a promessa de que feliz é aquele que gasta. Num lugar e num tempo em que não havia esse negócio de mídia, marketing, merchandising e outras invenções do gênero, eram os sinais da natureza que anunciavam o início dos diversos ciclos anuais. No sertão nordestino existe uma espécie de ipê-amarelo (Tabebuia caraiba) conhecida na região pelo nome de caraibeira. Contrariando aqueles que dizem que no sertão não existe primavera, nesta estação do ano as caraibeiras exibem uma floração amarela que pode ser vista a quilômetros de distância e “Cicinha”, uma amiga de anos e anos, lembrou que quando as caraibeiras floravam, a comunidade entendia como um sinal de que se aproximava o período de natal e, enquanto mais exuberante fosse a floração, mais animado o sertanejo ficava.

Finalmente chegava o mês de dezembro e iniciavam-se os preparativos para a festa. A igreja era lavada e devidamente ornamentada e, do lado de fora, era armado um parque de diversões. No entanto, como a igreja fora construída numa elevação, a instalação do parque dava-se no outro extremo da rua do povoado porque a faixa que beirava o rio Ipanema era mais plana e facilitava a montagem, de modo que o largo da igreja ficava desocupado.

Na década de 40, lá no sertão, os parques eram bem diferentes dos de hoje em dia. O principal material usado na sua montagem era a madeira, matéria prima farta naqueles tempos. Os brinquedos eram muito simples e movidos normalmente pela força humana. Vovô Gaspar tinha uma bodega que funcionava num dos cômodos da sua casa e, pensando em aumentar o faturamento durante a festa, fez uma sociedade com Manoel de Sulia para construir um carrossel. Alias, por aquelas bandas esse brinquedo era conhecido pelo nome de “curre”, termo talvez originado da palavra francesa “courir” que traduzida para o português significa “correr”. É possível que a ideia de movimento contida na palavra francesa tenha influído no surgimento desta expressão regional, mas acho que somente estudos mais aprofundados poderiam confirmar tal hipótese, ou não. O certo é que, por ser Manoel de Sulia um exímio marceneiro, vovô propôs-lhe sociedade na qual ele forneceria a madeira para a construção de um “curre” e Seu Manoel entraria com a mão-de-obra. Não vou me dar ao trabalho de descrever aqui um carrossel, mas o certo é que naquele tempo não tinha motor e os passageiros rodavam no brinquedo sentados em cadeiras, nas quais podiam sentar até duas pessoas, um deleite para os namorados da época. Para fazer o carrossel girar, eram contratados dois ou três cabras bons para fazer força e, para animar a festa e distrair os passageiros, um dos seus assentos duplos era ocupado por um sanfoneiro e um tocador de pandeiro para alegrar a brincadeira no “Curre de Gaspar”.

Outro brinquedo que tinha presença garantida na festa eram as barcas, uma geringonça que eu ainda tive oportunidade de conhecer e que era acionada pelo próprio “passageiro” que tinha que ficar puxando uma corda de maneira cadenciada para a geringonça balançar. No final daquela década foram surgindo novas opções, como o “curre” de cavalinhos de Seu Manoelzinho das Areias que substituiu alternadamente algumas fileiras de assentos duplos por um par de cavalinhos de madeira, um atrativo a mais.

Um belo dia surgiu uma novidade no parque de diversões que foi a “onda” de Seu Liberalino que era outra espécie de carrossel que ao girar, balançava de modo que, às vezes o passageiro estava a poucos centímetros do chão e no instante seguinte estava a mais de um metro de altura descendo em seguida num ciclo contínuo. Teve também outro empreendedor que tinha uma “ondia”, como assim pronunciavam os matutos, que foi o Seu Zé Marcelino, lá das bandas da Serra do Poço. Conversando com seu filho José Marcelino Neto, “Dezinho”, soube que Seu Zé Marcelino chegou a fazer festa até em Tacaratu, no vizinho estado de Pernambuco, uma viagem de mais de cem quilômetros, transportando a engenhoca em carros-de-bois.

Mas a montagem do parque não garantia participação na festa para ninguém. Minha prima Onélia contou que o pai dela só deixava brincar na festa se ela fosse aprovada na escola e aí todo final de ano era o maior corre-corre. Ela sabia da importância de estudar, mas o mais importante na sua cabeça de mocinha era poder brincar na festa do Poço. No tempo em que os professores iam para a sala de aula com giz, apagador e palmatória, eu fico só imaginando o sufoco.

Já na década de 50, o Padre Fernando Medeiros, irmão da minha avó, era pároco em Penedo, lá no baixo São Francisco. Mamãe conta que, sempre ao final de cada ano, ele ganhava uma peça de tecido de uma fábrica que ficava em Neópolis, do outro lado do rio, no estado de Sergipe. “Tio Padre” mandava a peça de tecido para a família e com ele minha avó fazia uma roupa nova para cada um dos filhos. Cada roupa tinha o seu corte específico, mas na noite da festa tinha um monte de meninos, meninas, rapazes e moças usando uma roupa de tecido igualzinho e ninguém ficava chateado ou envergonhado por este detalhe, o importante para todos era participar da festa.

Hoje em dia os brinquedos dos parques de diversões são sofisticados e o preço para sentir sua emoção é também significativo, mas naquele tempo lá no sertão, uma volta no “curre” ou na “onda” só custava alguns tostões e todos podiam se divertir. De várias localidades vinham pessoas para vender comidas e bebidas ou para instalar bancas de jogos e bingos. Dentre as novidades que eram vendidas na festa, Tio Zé de Arimateia lembra bem do cheiro do abacaxi que, apesar de não ser uma fruta desconhecida dos matuto, não havia uma produção local, de modo que a movimentação por conta da festa atraia gente do agreste alagoano para comercializar a fruta que era tão apreciada.

A “festa de largo” movimentava a localidade e atraía gente de toda a região, mas por ser uma festa religiosa a presença das famílias à missa era um compromisso maior. À meia-noite os brinquedos paravam, os vendedores de abacaxis e as bancas de jogos e bingos interrompiam suas atividades e todos dirigiam-se para a igreja. A missa era campal e era rezada à meia-noite. Naquele tempo o vigário era o Padre Bulhões, mas a tradição foi mantida com Padre Cirilo e posteriormente pelo Padre Alberto, que garantiu sua continuidade até o fim da sua atividade sacerdotal em 1980. Após a celebração, a festa então continuava até certas horas.

Apesar do natal ser uma festa tão mercantilizada hoje em dia, desde aqueles tempos a tradição de presentear já fazia parte da festa e mamãe conta que todos, na medida das suas posses, procuravam dar sempre um presentinho para seus filhos. Na noite de natal, antes de dormir, a meninada colocava os sapatos “nos pés da cama” para receber aquele presente que Papai Noel ia trazer. A manhã do dia 25 de dezembro era de alegria para as crianças que podiam conferir a passagem do bom velhinho e ninguém ficava “traumatizado” por ter recebido “apenas um presente”.

Com o passar dos anos a festa foi se modernizando, surgiram brinquedos novos, a música que agora toca é elétrica, eletrônica e similar. Surgiram os veículos de comunicação de massa, levando a uma nova interpretação desta significativa data. Sinal dos tempos? Acho que não. Acredito que é assim a evolução, novas tecnologias, novos habitante e novos costumes que um dia também serão história, mas essa eu vou deixar para outros contarem.

Bem, colegas. Mais uma vez estou dando notícias minhas, nesse meu jeito de contador de histórias, aquelas que vem na lembrança enquanto tenho memória e saúde para contar. Espero que todos estejam bem e, considerando-se a irregularidade com que consigo escrever, acho melhor ir desejando a todos uma boa páscoa, antes que chegue o São João. Desejo a todos sucesso, felicidade e forças para enfrentar as agruras da vida.

07 jan

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Uma história de geradores e de gerações

Colegas de todas as origens e de todas as profissões

Há algumas semanas estava este simples caeté assistindo um telejornal e eis que o apresentador anunciou a presença de um conhecido crítico de cinema comentando o filme “GONZAGA de pai pra filho”. O assunto imediatamente me interessou e seria de estranhar se ocorresse o contrário. Juro para vocês que ouvi com muito cuidado cada palavra do crítico e fiquei deveras curioso com aquilo que ouvi. O cidadão, no primeiro momento, foi logo dizendo que o filme era ruim, prosseguiu com comentários que detratavam a figura do personagem principal do filme e, ao final do comentário, procurando amenizar, optou por dizer que o ano não teve boas produções e que “Gonzaga” foi apenas o menos ruim, num ano de filmes ruins. Confesso que fiquei intrigado e, se apenas o título do filme já me motivaria a assistir, as palavras do crítico praticamente me empurraram em direção ao cinema, porque essa eu tinha que conferir.

Final de semana, tranquilidade, aconchego familiar e eis que este simples caeté resolveu ir com a esposa assistir o filme num cinema desses que funcionam em shopping centers. Comprei o ingresso com antecedência porque eu achava que tinha um bocado de gente querendo assistir a fita e essa providência se mostrou acertada porque, de fato, na hora de começar o cinema estava lotado. Do meu lado já estava sentado um senhor idoso segurando sua bengala. Começou o filme e quando eu vi as primeiras imagens e o som da música, senti logo um arrepio pelo corpo, um nó na garganta e uma emoção danada.

Não posso dizer que sou um profundo conhecedor da história de vida de Luiz Gonzaga, mas eu sabia de vários episódios e achei fantástico que a cada etapa do filme tudo aquilo que eu já sabia ia fazendo nexo. Senti muito ao ver retratado o seu drama familiar e fiquei entusiasmado ao ver as cenas em que o mesmo se embrenhava de Brasil adentro, dirigindo uma Rural e levando a música nordestina a todos os recantos do Brasil. Foi nessa parte que, num relance, me lembrei de uma história que aconteceu lá pras bandas de Paulo Afonso, no sertão da Bahia.

Na década de 50, a região da Cachoeira de Paulo Afonso foi invadida por um mar de trabalhadores provenientes das mais diversas partes do mundo. Estava em curso a construção da obra que seria o divisor de águas da história do nordeste brasileiro, a Usina Hidro Elétrica de Paulo Afonso. No meio dessa gente toda, havia técnicos graduados do sul do Brasil e do exterior que procuravam a região em busca de melhores salários e das vantagens que a recém criada Companhia Hidro Elétrica do São Francisco oferecia, mas a grande maioria era composta de trabalhadores braçais de todo o sertão nordestino que, cansados da fome, da seca e do atraso econômico e social da região, buscavam através do trabalho conquistar uma vida melhor e mais digna, os denominados “cassacos”. Alguns desses trabalhadores vinham com suas famílias de modo que, dentro de poucos meses um lugar inicialmente ermo e desabitado passou a conter uma população de milhares de pessoas. Para garantir as condições mínimas para essa grande massa humana a CHESF instalou inicialmente um acampamento de barracas de lona que foram gradualmente suprimidas, conforme as casas de alvenaria iam sendo construídas. No acampamento tinha iluminação pública, escolas, hospital, ruas calçadas, cooperativa de consumo e até clubes para o lazer dos operários, um verdadeiro luxo por aquelas bandas. As casas todas tinham energia elétrica e água encanada, tudo fornecido de graça pela Companhia.

No meio dessa leva de trabalhadores estava Seu Joaquim Brito lá das bandas de Triunfo, a cidade de maior altitude do estado de Pernambuco, bem na linha de fronteira com a Paraíba. Filho de uma família de agricultores, desde cedo desenvolveu habilidade no trato da madeira tornando-se assim um hábil carpinteiro. Quando começaram as obras de Paulo Afonso, a notícia se espalhou por todo o sertão e, vislumbrando uma boa oportunidade na obra, Seu Joaquim partiu das serras de Triunfo e rapidamente encontrou colocação no setor de Carpintaria da CHESF. Apesar de não ser um homem letrado, sua competência e disposição para o trabalho foi de fundamental importância para que logo lhe fosse concedida uma casa, onde pôde se instalar com sua mulher Dina e os filhos. Um deles, Isaú Brito, que tive oportunidade de conhecer, aproveitou o acesso às boas escolas e formou-se em contabilidade, exercendo com louvor este ofício durante muitos anos, prestando seus serviços a diversas empresas. Em casa, a energia elétrica permitia não apenas o usufruto da iluminação, mas também a utilização de equipamentos como geladeira, ferro elétrico, liquidificador e o acesso ao maior veículo de comunicação de massas da época, o rádio.

Hoje em dia, depois que inventaram antena parabólica, a gente encontra televisão em qualquer lugar do Brasil, mas naquele tempo o rádio era a ponta de lança da comunicação. Era através do rádio que o sertanejo passava a ter acesso de maneira bastante rápida às notícias do país, ouvia músicas e até aos pronunciamentos do presidente da república. Dentre os cantores mais apreciados pela matutada encontrava-se um jovem pernambucano chamado Luiz Gonzaga. Dono de uma voz forte, tocando sanfona e cantando temas que tocavam bem no coração do povo do sertão, Luiz era sem sombra de dúvidas o mais apreciado dos cantores do rádio. Mas, naqueles tempos em que não existia televisão, os rostos das pessoas ilustres só eram acessíveis através de fotografias de revistas e como apenas uma parte da população tinha acesso à leitura, muitos artistas e até mesmo políticos eram conhecidos apenas pela sua voz.

A construção da Usina de Paulo Afonso caminhava em ritmo frenético e, finalmente, após 5 anos de muita luta e sofrimentos a primeira usina estava pronta, de modo que no dia primeiro de dezembro de 1954, o engenheiro Otávio Marcondes Ferraz em Recife acionou o primeiro circuito da CHESF iluminando a capital pernambucana e testando assim o sistema. A inauguração, por sua vez, foi marcada para o dia 15 de janeiro de 1955.

No dia da inauguração as ruas da localidade de Paulo Afonso estavam tomadas de gente vinda de toda a região, todos queriam ver a festa que contava com a presença garantida das duas maiores autoridades do país, o Presidente da República, Café Filho e o Rei do Baião, Luiz Gonzaga. No campo de futebol do Clube Operário Paulo Afonso foi montado um palanque para os pronunciamentos das autoridades e para a grande atração musical. O povo se aglomerava para ver essas pessoas ilustres, uma pelo poder em que estava investido e a outra pelo encanto da sua arte.

Sabendo que Dona Dina adorava ouvir Luiz Gonzaga, Seu Isaú resolveu que a levaria para ver o grande astro da música do nordeste. Esta, por sua vez, aprontou-se e, toda feliz, acompanhada do seu filho, juntou-se a multidão para assistir o show. Como a absoluta maioria dos presentes, ela nunca tinha visto o Rei do Baião. Encantada com suas músicas ela naturalmente idealizou a imagem de um sujeito galante, bem afeiçoado, mas o seu rosto ela nunca vira. Na abertura teve o tradicional falatório das autoridades até que finalmente chegou a hora do show começar. O povo se admirava e a satisfação era total, mas Dina olhava, olhava de novo, olhava mais uma vez e sem se aguentar perguntou:

– Isaú?

– Que foi mãe?

– E você me trouxe de casa pra eu ver um nego cantar?

– Mãe! Esse é Luiz Gonzaga.

Imaginem o tamanho do susto que a coitada levou?

Essa história me foi contada por minha amiga Adalva, bisneta de Mãe Dina. Disse-me que passado o choque do primeiro contato, sua bisavó continuou ouvindo as músicas de Gonzagão e que ela própria, quando contava essa história, ria de si mesma. Luiz Gonzaga por sua vez está presente até hoje no coração de todo o povo nordestino, graças a sua arte que tão bem representou a vida deste povo. Sua presença percebe-se no dia-a-dia, como o caso da própria mãe de Adalva que embalava sua filha cantando uma das tantas músicas compostas por Luiz e Zé Dantas, “A letra I”.

A arte de Luiz Gonzaga até hoje encanta multidões, é passada de pais para filhos, de avós para netos, de geração a geração. Mais de vinte anos após sua morte mais de 1 milhão de pessoas foi assistir o filme que conta sua história. Lembram-se daquele senhor que estava no cinema, sentado ao meu lado, com uma bengala na mão? Durante o filme ele cantarolou todas as músicas. Eu tentei fazer a mesma coisa, mas, emocionado, confesso que não consegui. Nos dias que se seguiram, conversando com amigos e colegas de trabalho, todos diziam ter gostado do filme, mas eu não sei se suas opiniões, e a minha também, servem de parâmetro para classificar a obra, afinal de contas, nenhum de nós é crítico de cinema… Ainda bem.

Meus amigos, faz algumas semanas que não escrevo para vocês, se eu disser que isso se deve apenas ao trabalho estaria cometendo uma injustiça, na verdade eu tive uma pequena contusão no meu ombro esquerdo, razão pela qual, além de uma injeção e uma tipóia, recebi recomendação médica de não digitar nada. Passados alguns dias e já me sentindo melhor, resolvi voltar ao teclado para desejar a todos um feliz natal e um ano novo de muito sucesso, alegrias e boas emoções para todos, porque manter esse contato com vocês faz um bem danado para mim.

Saúde, luz e paz

Virgílio Agra

25 nov

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Vestibulada

Colegas de todas as lembranças

Ilustração do colega Roberto Alves

Ao longo da minha vida, tive a oportunidade de morar em várias cidades e esse negócio de mudar de um lugar para o outro, com certeza, gerou alguns desconfortos, mas se tem uma coisa que essa trajetória de vida me proporcionou e que eu acho muito bom, são boas lembranças de todos os lugares em que vivi. Quando eu tinha apenas dez anos de idade fui morar em Recife, isso eu já contei. Morei na capital pernambucana os dez anos seguintes e seria ingênuo da parte de qualquer um sugerir que tão demorada estada não deixasse grandes marcas. Eu saí de uma cidadezinha do interior de Alagoas e fui estudar numa das maiores cidades do Brasil. As diferenças urbanísticas, tecnológicas e culturais com certeza me impressionaram profundamente, mas, dentre as melhores lembranças que trago daquele tempo, se destaca as amizades que firmei ao longo de sete anos estudando no Colégio Nóbrega, bem ali na Boa Vista, entre a Rua Oliveira Lima e a Rua do Príncipe, tendo como vizinho, do outro lado desta rua, a Universidade Católica de Pernambuco.

No meu primeiro dia de aula, mamãe me levou para o colégio segurando minha mão. Identificou qual a minha sala e lá me deixou, não sem antes se assegurar que eu sabia fazer o caminho de volta pra casa, tarefa por demais fácil, afinal de contas morávamos num apartamento a poucos quarteirões da escola, difícil foi mamãe se sentir tranquila, sabendo que eu tinha que atravessar algumas ruas movimentadas sem a sua presença sempre diligente. Assisti às primeiras aulas e, na hora do recreio, me misturei à criançada no pátio do colégio tentando entender a sistemática daquele novo mundo. Confesso que achei muito estranho ver a meninada se acotovelando no balcão da cantina num verdadeiro emaranhado de braços, cada um tentando ser o primeiro a ser atendido. Nesse momento me senti confortável por ter trazido um bom lanche que mamãe me fizera antes de sair de casa. Enquanto comia, vi passar dois meninos que eu identifiquei como membros da minha turma. Cheguei perto, puxei conversa e a aceitação daqueles garotos foi o marco do primeiro vínculo de amizade que firmei nas terras pernambucanas. Seus nomes: Geraldo e Jaime.

Expressar uma convivência de sete anos no mesmo colégio e na mesma turma seria uma ousadia que eu não me atrevo a tentar. Ao longo deste tempo às vezes a gente brincava e algumas vezes a gente brigava, mas jamais algo sério, só coisa de criança. Seguimos nossa vida estudando, tirando onda com a cara de um e de outro e fazendo planos para o futuro. Geraldo foi um dos caras mais talentosos que conheci na vida. Bom estudante, inteligente, dotado de uma perspicácia fenomenal. Estudava no Conservatório Pernambucano de Música e tocava violão magistralmente. Eu não tenho qualquer formação musical, mas confesso que, dos músicos que conheci pessoalmente, Geraldo foi o melhor violonista que tive oportunidade de ouvir. Jaime já era mais comedido, característica que conserva até os dias de hoje. Praticante dedicado de caratê absorveu desta arte marcial não apenas os movimentos e golpes, mas acima de tudo os seus ensinamentos de respeito, disciplina, compaixão e ética, dentre outros.

Os anos foram passando e o meu círculo de amizades só aumentou, até que chegou o ano de 1979, o nosso último ano no Nóbrega. Deixar o colégio e ingressar na universidade era o grande objetivo de todos, mas essa tão desejada conquista significava também a perda do nosso saudável convívio e foi exatamente a combinação dos sentimentos de conquista e perda que gerou na Turma A um forte laço de união, o que fez o ano de 1979, um dos melhores anos da minha vida. Visando a aprovação no exame vestibular, estudávamos com afinco, pois naquela ocasião não se tratava apenas de aprovação no ano letivo, mas sim a obtenção de conhecimentos fundamentais na disputa pelas poucas vagas nas universidades pernambucanas. Mas, apesar da nossa dedicação, sempre que sobrava um tempinho aproveitávamos para nos confraternizar. Excetuando-se os finais de semana que antecediam as semanas de prova, tornou-se comum naquele ano, nos encontrarmos aos sábados ou domingos sob as mais diferentes desculpas. Às vezes era o aniversário de um, outras vezes era um almoço oferecido por um pai de algum colega e quando esse encontro se dava nas noites de sábado a nossa diversão era tomar uma bebida e ouvir Geraldo tocar violão.

Naquele tempo ainda vivíamos o período do regime militar e as músicas que estavam em moda eram as músicas de protesto, expressão brasileira do movimento mundial de folk music. Chico Buarque de Holanda era o mais conhecido artista deste estilo musical, mas as suas músicas refinadas exigiam dos seus seguidores técnica apurada para a sua execução e Geraldo as tocava como ninguém. Mas não era apenas nos finais de semana que nosso colega se tornava o centro das atenções. Nos dias de aula, na hora do intervalo, Geraldo com seu humor inteligente aglutinava os colegas ao seu redor com a garantia de boas risadas. Sempre tirando onda com a cara de alguém, trazia na mente um repertório infindável de piadas e histórias engraçadas e, dessa maneira, ele se tornou “O Cara” da Turma A. No auge desse período Geraldo surpreendeu a turma com uma genial poesia ao estilo das emboladas, estilo musical típico do nordeste brasileiro.

A embolada é uma arte caracterizada pela cantoria de músicas improvisadas de métrica perfeita, sendo cantada por dois cantadores que fazem versos de improviso. É comum neste estilo, como em outras modalidades musicais do nordeste, a disputa entre os poetas, onde cada um procura se mostrar melhor que o outro. Mas também é comum que estes usem suas habilidades para exaltar um personagem ou mesmo contar uma história. Ao contrário dos repentistas, os emboladores não usam a viola e sim o pandeiro para marcar o ritmo frenético de suas cantorias. Estilo musical praticado por artistas anônimos em praças e lugares públicos, a embolada atravessou as fronteiras regionais, de modo que também pode ser encontrada em algumas cidades de outras regiões, particularmente aquelas que têm uma representativa comunidade de origem nordestina. Apesar do seu aspecto de arte de rua, sem espaço nas grandes mídias, em 1993 a embolada emplacou um sucesso nacional com a música “Ladrão besta e o sabido”, obra da grande dupla de emboladores recifenses Caju e Castanha.

Pois bem, foi exatamente inspirado nessa arte popular que Geraldo compôs a primeira e provavelmente a única, “embolada de breque” da história. Ao estilo do samba-de-breque, sua declamação incluía, em determinados pontos da obra, pequenas frases que fugiam à cadência da embolada, mas dava-lhe uma graça e um charme bastante peculiar. Em alusão ao exame vestibular que se aproximava, Geraldo denominou-a de “Vestibulada” e sempre que a declamava os risos eram inevitáveis. O sucesso da “Vestibulada” foi tamanho que a turma se mobilizou e conseguiu imprimir a poesia no mesmo formato dos folhetos da literatura de cordel.

Há uns dias, remexendo numas coisas velhas, encontrei muito bem preservado o meu exemplar da “Vestibulada”. Peguei o velho folheto, reli suas páginas de um papel que já começa a amarelar, dei boas risadas e me lembrei dos meus tempos de colégio, da minha adolescência, me lembrei de Recife e dos meus velhos amigos e que saudade boa me deu. Lembrei-me de Geraldo que soube, formou-se em Direito e hoje é um conceituado professor das Ciências Jurídicas. No próximo dia 01 de dezembro irei novamente às terras mamelucas da “Veneza Brasileira”, vou participar do encontro anual dos colegas da Turma A. Lá vou encontrar Arnaldo, Bilu, Jonas, Maguila, Otaviano, Pontual e Riba que já confirmaram presença. Geraldo nunca compareceu, coisas do jogo da vida, mas eu continuo apostando que um dia vou reencontrá-lo, porque se “a vida também é um jogo”, “o bom jogador não se deixa abater”. Quem também confirmou presença foi Jaime que se dedicou com sucesso à atividade comercial e, de quebra, presenteia a todos nós com belos exemplos de cidadania e amor ao próximo, mas isso é outra história… Uma bela história.

Sempre que escrevo acalento o desejo de poder reencontrar cada um daqueles que tive a oportunidade de conhecer e conviver nas mais diversas paragens desse grande país. Aqui me despeço mandando a todos um grande abraço, aguardando a oportunidade de poder reencontrá-los e poder ouvir de cada um sua própria história.

Saúde, luz e paz

Virgílio Agra

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06 set

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Cada um com sua história

Colegas de todos os nomes e de todos os valores

Todos nós temos um nome, nem sempre exclusivo, mas que nos identifica. No universo, cada criatura é única e o nome é uma importante ferramenta na diferenciação entre os seres. De uma maneira geral todos procuram, uns mais outros menos, dar aos seus filhos um nome que tenha a capacidade de identificá-lo no meio da comunidade onde vive. Alguns desses nomes são mais comuns, fazendo alusão muitas vezes a personalidades que se destacaram ao longo da história, outros são simplesmente inventados, frutos da engenhosidade linguística dos pais da criança, que muitas vezes unem duas palavras, acrescentam letras e sílabas ou simplesmente criam verdadeiros neologismos, de modo que cada um de nós tem sempre uma história sobre a origem dos nossos nomes.

Quando meu pai nasceu, caçula numa família de nove filhos, minha avó Jovita já havia dito que, se o filho fosse homem, seria batizado com o nome de Jugurta… Alguém achou este nome estranho? Por favor sossegue, todos aqueles que ouviram sua pronúncia ou o leram pela primeira vez tiveram a mesma sensação. Muitos pensam tratar-se de um daqueles nomes estranhos, aos ouvidos de hoje, que eram bastante usados no passado ou até mesmo que tratar-se-ia do fruto da imaginação fértil de minha avó. Enganam-se todos. Pelos nomes dados aos irmãos e irmãs de papai, quais sejam: Djalma, Alberto, Albertina, Haroldo, Ana, Hilda, Maria de Lourdes e Celso, nomes usados até nos dias hoje, conclui-se que vovó não era afeita a invenção ou adoção de nomes que possamos considerar como esdrúxulos. Mas, onde teria minha avó buscado inspiração para a escolha de um nome tão incomum?

Quando eu estava servindo o exército, um amigo meu interessou-se pelo tema e, pesquisando numa velha e boa enciclopédia, encontrou citação sobre um personagem da história que tinha este nome. Em épocas mais recentes, usando tanto o “gúgol” como outras fontes de pesquisa, soube que Jugurta foi um rei da Numídia, nascido nos idos de 160 a.C. Falando nisso: Alguém sabe onde fica a Numídia? “Véio!!!”… é num lugar tão longe que até hoje eu não consegui entender onde vovó foi procurar o nome do seu filho caçula. Hoje, nos tempos da internet, em que assistimos a invasão de máquinas terráqueas no planeta Marte, é muito fácil obter informação até de outros planetas, mas em 1933, em pleno sertão alagoano, lá na beira do Rio Ipanema onde a iluminação era a candeeiro e aparelho de rádio era uma novidade encontrada em, no máximo, meia dúzia de casas? Onde ela foi buscar esse nome? Meu bisavô Tertuliano era um comerciante bem sucedido no ramo dos tecidos e pode proporcionar aos seus filhos alguma formação escolar, mas onde ela leu este nome é um mistério que nunca foi desvendado.

Voltando à história desse antigo personagem, contam os livros que Jugurta, o rei dessa tal de Numídia, dividia a governança do reino com dois parentes, mas, querendo ficar com tudo, terminou matando os dois. O caldo azedou pro lado dele porque, durante a perseguição, terminou matando uns mercadores romanos que negociavam na região e não deu outra, Roma declarou-lhe guerra. Acuado pelas legiões romanas, Jugurta refugiou-se no reino do seu sogro, o rei da Mauritânia, só que terminou sendo traído e entregue a Roma. Nesta cidade foi exposto na rua como se fosse um troféu de guerra e no mesmo dia foi assassinado na prisão, isso no ano de 104 a.C.

História antiga a parte e voltando à nossa que é mais recente, convém ressaltar que, quando papai nasceu, vovó estava gravemente enferma de uma doença que, naquela época, não tinha cura, a tuberculose. Em consequência do seu estado de saúde o menino nasceu magrinho e todos pensaram logo que ele não iria sobreviver, então Vovô Pedro procurou um irmão chamado Virgílio, e aí vocês passam a saber também de onde veio o meu nome, e disse:

– Virgílio, leve esse menino pra cuidar que ele não se cria. Quando ele morrer me traga a conta que eu pago.

Vovô Virgílio era viúvo e vivia o seu segundo matrimônio com Francisca, Vovó Chiquinha, uma moça lá das bandas do povoado Capelinha, na beira do Ipanema, entre os municípios de Major Isidoro e Olivença. Moravam no Sítio Caboré, na região da Serra Limpa localizada entre os municípios de Carneiros e Olho d’Água das Flores. Convém lembrar que todos esses atuais municípios eram parte do imenso território que formava o município e a paróquia de Santana do Ipanema até meados de 1949. Nessa época, o pároco era o Padre José Bulhões e cabia a ele a assistência a toda aquela região.

Vovó Chiquinha nunca teve filhos, mas foi uma grande mãe, não apenas do meu pai como de outros filhos que Vovô Virgílio tivera. Vendo o estado do menino, esmerou-se em cuidados. Não podendo amamentar e preocupada com o risco do menino estar contaminado pela doença da sua cunhada, dava-lhe mamadeira de leite com o sumo do mastruço, erva nativa das Américas dotada de reconhecidas propriedades terapêuticas, mas que tem um gosto horrível.

Certo dia, Vovô Virgílio soube que o padre estaria no povoado de Olho d’Água das Flores, então levou o menino para batizar. Chegando à igreja, ele e Vovó Chiquinha apresentaram-se ao padre como sendo os padrinhos da criança e ele logo perguntou:

– Como é o nome do menino?

– É Jugurta.

O susto foi com a molestra e padre refugou logo.

– Ah!? Com esse nome eu não batizo não.

Ouvindo a resposta do Padre Bulhões, a autoridade mais respeitada da região, meus avós ficaram tristes, porque aquele tinha sido praticamente o último pedido da minha avó Jovita e, em sua memória, sua última vontade precisava ser acatada. Com muito jeito e humildade foram tentando convencer o padre a mudar de opinião até que o sacerdote fez uma pergunta que só quem é do interior conhece o sentido.

– Esse menino é de onde?

– É da Serra Limpa.

O Padre Bulhões conhecia cada recanto do município, fazenda por fazenda, casa por casa. Ao ouvir falar na Serra Limpa parou, identificou na memória os moradores daquelas bandas então perguntou:

– E esse menino é filho de quem?

– É filho de Pedro Agra.

O Padre Bulhões sabia quem era meu avô Pedro, sabia que ele não era rico, mas tinha o seu valor. Ai então, em outro tom, falou sem perder a sisudez:

– Se é filho de Pedro Agra então eu batizo.

Muitos anos se passaram de lá para cá, ao longo deste tempo meus avós paternos partiram para a eternidade, mas, enquanto isso, lá pras bandas da Cachoeira de Paulo Afonso, em 27 de agosto deste ano, meu velho pai completou 79 anos de vida, dentro do prazo de validade e contrariando todos aqueles que pensaram que ele não se criava. Apesar da cabeça careca, um tremor nas mãos e algumas marcas de bisturi pelo corpo, o homem mantém uma vitalidade de fazer inveja a muitos cabras que têm metade da idade dele, mas eu acho melhor ir terminando essa história por aqui, porque Jugurta não é assunto para uma simples crônica, e sim para uma biografia inteira, mas eu confesso a vocês, quando eu penso que ele é o caçula da família e todos os seus irmãos e irmãs ainda estão vivos, quando eu lembro que Vovô Pedro só deixou esse mundo após completar os 100 anos de vida e quando eu me lembro da dívida que ele contraiu lá nos idos de 1933, de uma coisa eu tenho certeza, no dia em que a conta da sua criação for apresentada eu prefiro estar na Numídia.

Queridos colegas, com este texto seguem as minhas lembranças de cada um de vocês ao mesmo tempo em que mando o meu abraço e o desejo de que, independentemente da distância, todos estejam felizes e de bem com a vida. Espero que o pior dos males que os aflija, seja tal que possa ser curado com uma simples dose musical de Mastruz com Leite, porque o leite com mastruço, eu me lembro bem, é ruim pra danar.

Saúde, luz e paz

 

18 jul

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Prato típico

Colegas de todos os paladares

Essa história de dizer que um assunto puxa o outro, todo mundo já ouviu falar. À semana passada, quando falei dos bares de Santana do Ipanema, veio à minha memória outro tema muito gostoso, literalmente falando, ou seja: A comida. Se pararmos para pensar, veremos que a alimentação é um dos mais importantes patrimônios culturais de um povo, com fortes raízes históricas, ecológicas, econômicas, sociais etc., de modo que, independentemente da origem ou vivência de cada um, todos nós somos influenciados por todas as sensações que a comida pode transmitir.

Por razões históricas que não poderão ser devidamente aqui consideradas, o sertanejo acostumou-se a consumir várias espécies de animais de caça como a nambu, a rolinha, o mocó, o preá, o veado, o tatu e muitos outros animais silvestres. Desde menino me acostumei a comer carne de caça e o seu consumo está associado na minha memória como momentos de alegria e congraçamento. No entanto, na grande maioria das vezes, consumíamos a carne de animais domésticos, como o boi e a galinha ou a carne de criação, que era o nome dado aos animais de pequeno porte como carneiros e bodes.

Era comum, as famílias criarem galinhas nos fundos dos quintais que, quando chegavam na medida certa iam parar na panela. As galinhas criadas no terreiro de casa viviam ciscando, comendo folhas, bichinhos e uns caroços de milho de vez em quando. Viviam levando carreira dos galos, chocando os ovos, cuidando dos pintinhos e todo final de tarde ainda tinham que se empoleirar para passar a noite. Por conta do exercício físico e também por causa do tempo de vida mais longo, a carne das penosas ficava mais dura e escura do que a dos frangos hoje consumidos e, associado ao acúmulo de gordura, passava a ter um sabor e textura que lembrava muito a carne de caça. Para nós esses bichinhos eram simplesmente galinhas, mas depois que chegaram aquelas de penas e carne branca criadas presas nas granjas e só comendo ração, generalizou-se no Nordeste denominar as galinhas criadas ao natural como “galinha de capoeira”, uma das marcas mais importantes da culinária sertaneja.Se em uma cidade ao nos deslocarmos de um bairro para o outro, percebemos diferenças culturais, imaginem então quantas variações e particularidades têm a gastronomia de uma região enorme como o sertão nordestino. Neste sentido, Santana do Ipanema desenvolveu a tradição do consumo da carne de um animal que se tornou uma marca da culinária local, o “cágado”. Um animal silvestre é bem verdade, mas que era amplamente criado nos quintais das casas da minha cidade.

Toda vez que eu falo de “cágado”, sempre tem alguém que vem perguntar qual a diferença entre “cágado” e tartaruga. Procurando dar uma explicação prática, não científica, convém dizer que ambos são animais da ordem dos quelônios, onde estão incluídos não apenas dois, mas três grandes grupos de espécies chamadas de tartarugas, cágados e jabutis. Tanto as tartarugas como os cágados são animais aquáticos sendo que, enquanto os cágados só ocorrem em água doce, as tartarugas tanto ocorrem no mar como na água doce. Duas diferenças entre ambas são fáceis de ser observadas, enquanto as tartarugas têm suas patas em forma de nadadeiras, os cágados têm pés com dedos interligados por uma membrana a semelhança das aves aquáticas. A outra diferença é que as tartarugas como forma de defesa conseguem recolher totalmente a cabeça para dentro da carapaça enquanto que os cágados só conseguem proteger-se dobrando o pescoço para o lado. O jabuti por sua vez é um animal exclusivamente terrestre. Enquanto as tartarugas e cágados possuem casco chato, dando-lhe a necessária aerodinâmica para os deslocamentos na água, os jabutis têm casco mais abobadado sendo proporcionalmente bem mais alto que os dos seus parentes aquáticos e suas patas são cilíndricas, bem mais adequadas aos deslocamentos em terra. Com relação à estratégia de defesa, os jabutis, a exemplo das tartarugas, conseguem recolher totalmente a sua cabeça para dentro da carapaça.

Se não bastassem as diferenças sutis entre as espécies, os nomes vulgares atribuídos aos quelônios não colaboram muito nas suas identificações. É comum de uma região para outra os mesmos animais terem nomes diferentes e ainda há os casos em que denominações são trocadas. Por exemplo, de acordo com o site Mundo Estranho, da Editora Abril, a tartaruga-do-amazonas é morfologicamente um cágado, mas é chamada de tartaruga. Da mesma maneira, de acordo com o costume do sertão alagoano, o “cágado” é morfologicamente um jabuti, mas é chamado de cágado. Eu sei que isso dá uma confusão danada, mas vamos seguir em frente que o assunto aqui seria muito demorado.

Lembro-me que no quintal da nossa casa mamãe criava umas galinhas num cercadinho juntamente com um monte de “cágados”. Como os bichos eram lentos não apenas no andar como também no crescimento, os escolhidos só iam para a panela em dias muito especiais e eram considerados como verdadeiras iguarias. Lembro-me que na cidade era tradição comer “cágado” apenas quando se recebia algum visitante ilustre ou na semana-santa, porque sua carne não era considerada como carne, sem comentários.

Sempre que eu falo de “cágado” me lembro de Seu Geraldo Vilela, um cidadão gente boa que conheci em Maceió nos idos dos anos 80. Hoje Seu Geraldo usufrui da sua merecida aposentadoria, mas no tempo da ativa foi, durante muitos anos, representante de uma importante fábrica de fertilizantes do Brasil que tinha uma unidade em Alagoas. Dona Ilma, sua esposa, manteve durante muitos anos a floricultura Q-Flores, loja de referência da capital e que ficava bem ali na Rua do Sol, no centro de Maceió, mas hoje ela só cultiva flores no jardim da eternidade. Eu trabalhava com o genro dele e certa ocasião fui convidado a ir à sua casa onde pude usufruir do prazer de uma conversa boa.

Seu Geraldo era um membro muito ativo do Lions Clube e, por conta das atividades leonísticas, certa ocasião foi ao sertão participar de uma reunião do Lions Clube Santanense. A assembleia foi aberta, houve muito falatório e ao final foi servido um jantar preparado com todo o esmero pelas esposas que são chamadas de Domadoras. Ao ser anunciado o jantar todos se levantaram dirigindo-se à lauta mesa. Como forma de demonstração de respeito pelo visitante ilustre, ofereceu-se que ele se servisse primeiro. Nesse momento um companheiro Leão bem gaiato chegou junto dele e disse:

– Geraldo, hoje você vai comer uma coisa que você sempre fez.

O visitante ficou intrigado com aquilo e perguntou:

– Como assim? Eu nem sei cozinhar, como é que eu posso comer uma coisa que eu sempre fiz?

– Geraldo, hoje você vai comer uma “cagada”.

O susto foi inevitável, mas ele com um raciocínio muito rápido perguntou:

– De colher ou de garfo e faca?

Aí todos eles riram e explicaram para o amigo que ali à mesa, estava sendo servido um prato típico da culinária da cidade, o “cágado” ao leite de coco (entenda-se jabuti). Eu fico de água na boca só de pensar.

Naquele tempo não se falava em legislação ambiental e sequer existia a expressão “ambientalmente correto”, comer carne de caça ou animais silvestres era motivo de alegria e da prática de uma antiga tradição. Mas os tempos mudam, e hoje em dia os “cágados” desapareceram dos quintais e das mesas dos santanenses. Para aqueles que quiserem vê-los eu sugiro uma caminhada nas trilhas do sertão.

A propósito, o nome correto da comida feita como o “cágado” é a cagadada.

Meus amigos, aproveitando mais uma vez para cumprimentá-los, espero que todos tenham uma semana produtiva e prazerosa como uma velha e boa cagadada.

Saúde, luz e paz

08 jul

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Abrigo seguro

Colegas de todos os bares e de todos os refúgios

Me desculpe Sigmund Freud, mas para mim o maior concorrente do divã do analista é a mesa de bar. Não importa se em Paris, Rio de Janeiro ou no sertão nordestino, a mesa de um bar é o lugar mais procurado por aqueles que querem esquecer os problemas, as paixões, as dívidas e outras mazelas da alma, com a vantagem de que o freguês, digo o paciente, pode fazer uma terapia cujos efeitos podem não ser muito duradouros, mas, com certeza, é muito mais prazerosa.

Nos meus tempos de rapaz, durante as férias escolares, lá pras bandas da Ribeira do Panema, era exatamente os bares o local preferido para relaxar, jogar conversa fora e fazer o congraçamento dos jovens estudantes da cidade, tanto aqueles que estudavam em cidades distantes como Maceió, Recife ou Campina Grande, como também aqueles que haviam permanecido na cidade, alguns estudando e outros já encarando uma vida profissional.

Naquela época era comum que, tanto os bares quanto outras modalidades de pontos comerciais funcionassem na própria residência dos seus proprietários que destinavam o salão da frente para o atendimento à clientela, ficando os demais cômodos reservados ao uso familiar. Atualmente a cultura moderna de separação do ambiente familiar do comercial também chegou ao sertão, mas tem um traço cultural que nas pequenas cidades permanece até os dias de hoje. Pois, independentemente dos bares ostentarem letreiros luminosos com os nomes escolhidos pelos seus respectivos proprietários, até hoje é comum que estes estabelecimentos sejam conhecidos pelos nomes ou apelidos dos seus donos. Lembro-me de alguns nomes como o “Bar do Biu”, o “Bar do Dema”, o “Bar de Gedalva” e o “Bar de Zé de Pedo”, não estranhem a escrita porque é exatamente assim como são conhecidos. Fugindo a esta regra, havia também o “Alto da Fé”, cujo nome não está associado ao nome do dono, mas sim ao fato de que próximo a ele havia umas estátuas religiosas que foram posteriormente retiradas.

Havia também outro bar que funciona até hoje com um nome pra lá de curioso, que é o “Restaurante João do Lixo”. O que vocês esperariam de um bar ou restaurante que tenha tal denominação? Devo admitir ser natural que se pense ser um lugar sujo e pouco recomendável, mas também devo alertá-los, ser um ledo engano. O que acontece é que João trabalhou durante muitos anos dirigindo o caminhão que recolhia o lixo da cidade, passando assim a ser conhecido por todos. Um belo dia resolveu mudar de ramo e começou a servir comidas e bebidas na sua própria casa, que ficava lá na Rua Delmiro Gouveia, em cuja calçada o mesmo colocava as mesas. Servindo uma boa comida e com um atendimento cortês, o ponto tornou-se conhecido. Com o passar do tempo ele foi ampliando o negócio, de modo que hoje em dia ele já não precisa colocar as mesas na calçada. Seu restaurante tornou-se um lugar bastante frequentado, tanto pelas famílias locais quanto por aqueles que visitam a cidade. No começo João batizou seu restaurante com um nome que eu nem me lembro mais, o problema é que a clientela só se referia ao ponto como “João do Lixo”. O costume foi tão forte que João terminou cansando e o jeito foi estampar um letreiro com o nome pelo qual ele e o estabelecimento ficaram tão conhecidos.

Havia também outro lugar que costumávamos frequentar que era a casa de Marinosa, localizada num sítio a cerca de seis quilômetros do centro da cidade e às margens da rodovia BR 316. Naquele tempo não havia telefonia celular, então, quando a gente queria ir à sua casa, tinha que mandar um aviso por um portador qualquer para que ela matasse uma galinha e, no dia e hora combinados, a turma chegava para traçar a penosa.

Foi nesse contexto gastronômico-regional que, certo dia, alguns amigos se encontraram casualmente na rua e, entre uma conversa e outra, resolveram ir para um bar, para poder relaxar, jogar conversa fora e fugir por alguns instantes do “stress” diário. Eram apenas três: Airles, Chico e Pãozeiro. O grupo era pequeno e logo surgiu a idéia de convidar alguém mais, para que o encontro fosse mais abrangente e divertido. A escolha recaiu sobre Hiram, um sujeito que não era de perder uma boa farra e que, pela sua inteligência, humor e perspicácia, seria uma garantia de sucesso daquele encontro. Uma vez decidido quem seria o quarto componente do grupo, partiram os três em direção à loja dele que se dedica ao comércio de rações e ferramentas agrícolas. Perguntaram a um funcionário e souberam que ele não se encontrava. Imediatamente a turma raciocinou que estavam atrasados e que Hiram já estava em algum bar, relaxando dos aperreios do dia-a-dia, então resolveram procurá-lo.

Entraram num carro, deram uma volta na praça central e a primeira parada foi o “Bar de Zé de Pedo” que ficava bem ali no centro da cidade, funcionando como restaurante comercial, na rua que desce para a Ponte do Padre. Chegando lá, logo viram que Hiram não se encontrava e, seguindo a mesma direção, resolveram procurá-lo no “Bar do Biu” e em “João do Lixo”, visto que ambos estão situados na mesma rua. Constatando que o amigo não se encontrava em nenhum dos dois, seguiram descendo a Rua Delmiro Gouveia em direção ao “Bar de Gedalva”. Chegando lá e diante de nova negativa, resolveram agora procurar no outro lado da cidade. Foram ao “Bar do Dema” e em seguida ao “Alto da Fé”. A essa altura dos acontecimentos e já se sentindo um pouco órfãos, os amigos resolveram ir à casa de Marinosa e pegaram a estrada. O certo é que eles passaram a tarde inteira procurando em todos os bares da cidade até que, finalmente, cansados da busca, cada um foi para sua casa, para repousar e se preparar para um novo dia.

No dia seguinte os três acordaram com aquela pergunta que não conseguia calar: Onde estava Hiram que ninguém conseguiu encontrá-lo. O mistério tinha um peso tal que, sem que houvesse combinação prévia, quando o comércio abriu as portas, a primeira atividade do dia para eles foi passar na loja do amigo para saber o seu paradeiro. Lá chegando, a pergunta foi direta:

– Ô Hiram! Onde é que você se meteu que ontem ninguém conseguiu encontrar você? – Perguntou um.

– A gente veio à sua loja e não te encontrou, foi em todos os bares da cidade e você não estava. Onde é que você tava, homem?

Hiram olhou para eles, abriu um sorriso de satisfação e disse:

– Vocês não iam me encontrar nunca.

– E finalmente onde você estava?

– Vocês não iam me encontrar nunca. Eu estava em casa.

Conhecendo os hábitos do amigo, os três perceberam ser aquele o mais improvável dos lugares onde se imaginaria encontrá-lo.

Caros colegas, me desculpem. Faz um bocado de tempo que não mando notícias minhas. Culpa do trabalho? Talvez. O certo é que além do trabalho também estou fazendo um curso, realizando outros projetos e buscando mais histórias para contar para vocês, tudo ao mesmo tempo. A verdade é que eu estou tão assoberbado que tem horas que me dá vontade de também procurar um refúgio e eis que o melhor de todos eles é, para mim, aquele que me permite contato com a família e com os amigos, é por isso que eu posso até demorar, mas não paro de escrever. Aproveito como sempre para desejar a todos uma boa semana, ao mesmo tempo em que me coloco a disposição de qualquer um que queira fazer uma terapia de mesa de bar, garanto que serei solidário até a última gota.

Saúde, luz e paz