14 set

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LUA DE GEVAUDAN (A Cura – Lulu Santos)

Ilustração: Fábio Campos

Ilustração: Fábio Campos

Cansado e velho ia o mundo. De tantas artimanhas, ainda mais cansado andava aquele ano. Ia lento, claudicante, debaixo do peso do tempo curvado. A infância carnavalesca, a fremência junina, a festeira juventude de julho, agora era passado. Augusta idade madura, descambando pra caduquice setembrina. Todo velho tem uma história de guardar coisas. De ajuntar quinquilharia porque um dia de alguma forma pode servir. A repetir sempre as mesmas coisas. E suas falas sempre se iniciam com: “No meu tempo”. De esquecer onde deixou as chaves. De não querer tomar banho. Comer também não, porque nada tinha mais gosto como antigamente. De muitas vezes se pegar no meio da sala, parado, a pensar o que ia mesmo fazer?

“Existirá

Em todo porto tremulará

A velha bandeira da vida

Acenderá

Todo farol iluminará

Uma ponta de esperança” 

Na frente da igreja se havia uma mulher. Assim que se abriram as portas, foi sentar-se na primeira bancada, diante do altar. Era assim por se dizer bonita, bem apanhada, visto a meia idade. Os cabelos escorridamente sedosos, em dois tons de loiro ornavam seu colo rijo. O rosto gracioso, amplamente marcado pelo ruge carmim, boca carnuda. Uma blusa dum vermelho intenso de tecido leve vaporoso que valorizava seus ombros. Decote generoso pra lá iam qualquer olhar decaído sobre o seu ser. A calça jeans sobrepujava suas curvas dadivosas, a alvoroçarem nervos quaisquer, dos mais metálicos aos mais tenros então. Abriu a bolsa, pegou um livro, pôs-se a ler. Decorrido certo tempo tirou os calçados. O zelador da igreja aproximou-se curioso. Aproveitaria pra perguntar ao moço se podia deitar-se ali, estava muito cansada. O rapaz diria que não era permitido. Pediu então que ao menos olhasse sua bolsa enquanto ia a rua comprar água, e algo pra comer, tinha sede, e fome.

“E se virá

Será quando menos se esperar

Da onde ninguém imagina

Demolirá

Toda certeza vã

Não sobrará

Pedra sobre pedra”

Quando doutor Adalberto Lisboa foi transferido da capital pro interior, escolheu a vila pra morar. Comprou o velho casarão ao lado da igreja, primeiramente pensou em derrubá-lo todinho e erguer uma casa bem moderna, sofisticada. Um arquiteto contratado sabiamente o destituiu da ideia. Segundo ele, a nova construção ia ficar deslocada, pareceria um corpo estranho, contrariando o conjunto da obra. Convenceu-o a restaurá-lo. Desde a fachada colonial que com pequenos traços de barroco, bem como por dentro também deu pra aproveitar muita coisa. As paredes de tijolos dobrados, o piso rústico, tudo respirava história. Recuperou belos lustres de cristais do tempo do império. Nos cômodos manteve as janelas enormes de única folha inteiriça que ao se abrir enchia a casa de luz intensa. No primeiro dia que dormiu ali, teve um sonho que jamais esqueceria. Uma menina de seus treze anos aparecia num balanço no quintal da casa. Estava de branco, vestido, sapatos e meias, e um chapéu também branco. Não dizia palavra, só se balançava e sorria pra ele. No segundo dia, novamente o mesmo sonho. Desta vez a menina acenava-lhe, chamava-o até o pomar, e apontava angustiadamente pra cisterna. De fato havia a tal cisterna no final do quintal, só que nos dias do doutor, estava abandonada. A menina do sonho apontava pra portinhola da cisterna, e chorava muito. Era um sonho mudo, desbotado, sem som, sem cor. Tudo parecia sujo entrecortado como filme antigo. O promotor de justiça doutor Adalberto Costa até então jamais soubera nada a respeito daquele velho casarão. Passaria a buscar a história dos antigos moradores. Quando estava sozinhom no cômodo transformado em escritóriom estranhamente ouvia choro de criança, mesmo que ainda fosse dia.

“Enquanto isso

Não nos custa insistir

Na questão do desejo

Não deixar se extinguir

Desafiando de vez a noção

Na qual se crê

Que o inferno é aqui”

A mulher consultou o relógio. Pensando alto disse: -Maldito! Não chega mais não! Era por volta das sete da manhã quando havia chegado ali. Atento e curioso o zelador ouviu o que dissera aproveitou pra dizer que já era meio dia e que precisava fechar a igreja. A mulher quis saber se na parte da tarde reabriria. Confirmou dizendo que só iria almoçar e por volta de uma hora tornaria a abrir. Aproveitou pra perguntar por quem tanto esperava. Disse que era pelo seu marido. O rapaz fez cara de incredulidade. Adquiriram confiança um no outro, tanta, que a mulher resolveu contar a verdade. –Moço, é um amante quem estou esperando. –Mas logo aqui na casa de Deus? -Já pedi perdão? Por acaso tem um padre com quem possa confessar? Não tinha. –Olha! Nem ele, nem eu somos daqui moço. Escolhemos esta vila para nos encontramos ao caso, sempre mudamos de lugar para não sermos descoberto. Ele é um homem rico, têm irmãos políticos, deputados. O que acha? Acredita na minha história? – Minha senhora! Eu não acho nada, só tenho que fechar a igreja já passa de meio dia, a senhora me dá licença?

“Existirá

E toda raça então experimentará

Para todo mal, a cura

Existirá

Em todo porto se hastiará

A velha bandeira da vida

Acenderá

Todo farol iluminará

Uma ponta de esperança”

Doutor Adalberto resolveu derrubar a cisterna. Pensou com isso conseguir decifrar o enigma da menina do sonho, e acabar de vez com o sonho contínuo que já estava lhe dando nos nervos. Fez questão de acompanhar o serviço do pedreiro, o tempo inteiro pedindo que parasse com receio de que destruísse algo vestígio importante. Se um estava ansioso, o outro já estava ficando impaciente. A parede da cisterna era feita de areia, misturada com barro vermelho e cal. A cal no tempo em que fora construída a cisterna era curada antes. Vários dias dormia dentro d’água e no momento da construção era batida com cacete para adquirir consistência e compacidade. Deu trabalho pra tão modesta construção vir a baixo. Quando tudo parecia não levar a nada que denotasse algo sobre a menina do sonho. Uma coisa chamou atenção dos dois homens uma inscrição feita com tinta vermelha bem lá no fundo: “Gevaudan – 21-9-1765.

“E se virá

Será quando menos se esperar

Da onde ninguém imagina

Demolirá

Toda certeza vã

Não sobrará

Pedra sobre pedra”

Um carro de luxo, cabine dupla, de cor prata parou na porta da igreja. Os vidros fumês das janelas suavemente foram baixando, até deixar ver, um homem com um enorme chapéu de caubói ao volante. O zelador à porta da igreja percebeu tudo. Atenta ao barulho do carro a madame aproximou-se da porta. O rosto voltado pra escadaria do templo, não deu pra o homem perceber a aproximação de outra mulher que vinha da praça, no sentido contrário pra onde olhava. Era uma bela senhora de cabelos negros, sedosos, preso num coque por um lenço colorido no alto da cabeça, vestia calça de tecido leve e blazer. Sacou um revólver da bolsa e a queima roupa deu três tiros no homem. Sequer esperou pra vê-lo debruçar morto sobre o volante. Simplesmente entrou num carro que estava parado, alguém que guiava arrancou, deixando pra trás gente atônita, aproximação de curiosos. E um homem morto.

“Desafiando de vez a noção

Na qual se crê

Que o inferno é aqui”

Na biblioteca pública, no cartório de registros, na prefeitura. Doutor Adalberto vasculhou tudo em busca de informações sobre a família que havia construído, e que seriam os primeiros moradores daquela casa. Sobre Gedeuvan e os números descobriu que era um velho costume dos pedreiros da época colocar o nome e a data da construção. Se tivesse ido mais a fundo nas suas pesquisas o magistrado teria descoberto muitas outras coisas. “Naquela casa morou uma jovem de quatorze anos, chamada Jeane Bernadete. Numa noite de lua cheia, do mês de setembro de 1765, foi encontrada morta, decapitada. O corpo encontrado no quintal e a cabeça no fundo da cisterna. Bernadete teria sido a primeira de uma série de mortes de meninas e meninos, sempre na faixa etária entre 13 e 16 anos. Os corpos sempre mutilados, ou extirpados além de mordidas e arranhões como de um animal feroz, apresentavam também sinais de sevícias sexuais. Foram feitas muitas investidas para caçar o animal, organizada pelos aldeães. O Marquês de Satuba, e o Conde de Fernão Velho participaram de algumas dessas caçadas. O cerco se fechou, as evidências foram se intensificando, e se chegou a um lunático chamado Givaldino, filho de um velho pedreiro. O rapaz acabou linchado em praça pública, ficaria conhecido como “A Besta de Gevaudan”.

“Existirá

E toda raça então experimentará

Para todo mal, a cura”

Fabio Campos 02 de setembro de 2015

04 set

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RETRATO NA CADEIRA (Minha Vida – Lulu Santos)

Uma nuvem caminhando sozinha do lado mais azul do céu, mais uma tarde se fez. Um lírio despencou do talo, feito uma lágrima branca, e era ainda aquela mesma tarde. Uma mãe sentada na cadeira na porta de casa, cada vez mais tarde ia à tarde. Uma que era filha veio vindo. Pediu a benção beijou-lhe a testa. Sentou noutra cadeira. Acendeu um cigarro, folheou um álbum de fotografias, e sorriu, a tia que estava no retrato, continuava séria. Muito bem disfarçada a cicatriz no supercílio direito que desde muito estava lá. “Tia queria ser cantora…” “Tenho saudade de minha mãe.” Disse a primeira. Olhando pras bandas de onde ficava a terra natal disse isso. Como se o céu pudesse trazer o passado, e ficou triste. Não apenas a que disse, mas tudo em redor ficou triste.

“Quando eu era pequeno

Eu achava a vida chata

Como não devia ser

Os garotos da escola

Só a fim de jogar bola

E eu querendo ir tocar guitarra na tevê”

A igrejinha, os degraus, alvo querubim no alto do portal, a santa no altar, o negro badalo, sisudo, sisudamente atrepado, lá em cima. Tudo como estava daquele jeito, trazia pra acolá a casa materna. A buscar tristes recordações, os olhos se enchiam de lágrimas. Lembranças das discussões acirradas de tio Enéas e tio João Doroteu. Um era crente, o outro católico. Se pudesse não ouvia aquela arenga. Vontade dava era de sumir. Tio Manoel ensaiando seus cânticos pros velórios. Cantos tão penosos. Acompanhava-o vô Antônio com sua rabeca “a porca cochicha”, Um riso morno chegou aos lábios, por ternos segundos virou sorriso. Tio Pedro sentado num tamborete perto da janela porque depois duma xícara de café, acendia o cigarro de fumo picado. As baforadas e as cusparadas defenestradas, umas pelas janelas, e outras por cima da folha da porta. O cheiro de pinha vindo da dispensa. Abóboras e pinhas amadurecendo dentro dum balaio, aguçando as ventas dos curiosos. Em cima da mesa uma travessa cheia de goiabas tão amareladas guarida dos mosquitos, fedidas a bufas de bebê.

“Aí veio a adolescência

E pintou a diferença

foi difícil esquecer

a garota mais bonita

também era a mais rica

me fazia de escravo do seu bel-prazer”

Osvalinda e Aucantina iam pra igreja. Esta de cá carinhosamente Tinô. Tinha por obrigação toda tarde ir as duas pra igreja. Por vezes ia Dália. As três, às três da tarde de joelhos, véu sobre a cabeça, rosário nas mãos, rezavam a ladainha, o terço da Divina Misericórdia. Uma vela acesa penitência encomendada por madrinha Amália. A bancada em verniz preto, o apoio dos braços marcado de pingos de parafina recrudescido. O sacrário ladeado de imagens de anjos segurando luminárias, as asas subindo suavemente, olhar de quem guarnecia serenamente. A imagem de Cristo o lado traspassado pela lança, ombros esfacelados, joelhos em carne viva, na iminência do sangue gotejar nos alvos panos do altar. Sagrado altar esmeradamente forrado da cor das tapiocas de dona Faustina. Santo Antônio com seu rosto de anjo segurando no colo outro menino. A moeda colocada no cofre da igreja. O trinco da bolsa fazia um barulhinho engraçado quando fechava. Um dia, André filho de dona Mirian foi pra missa, levou um cruzeiro pra por na cesta de coleta. Só que ao invés de colocar o peralta tirou foi mais um. Pra completar o ingresso pra sessão de cinema: “Noites Cariocas” com Oscarito, somente naquela noite, no salão do açougue. Andrezinho bronca tão séria levou do padre que bastava ver um menino se aproximar da urna de doações que arregalava os olhos. E de longe, com medo de se aproximar avisava aos berros pra ter cuidado que “A alma de meninos eram sugadas pelo cofre do padre!” E que a noite ao pé da cama, na hora de rezar, daria pra ouvir o gemido das pobres pedindo pra alguém tirá-las de lá dentro.

“Quando eu saí de casa

Minha mãe me disse: Baby

Você vai se arrepender

E lá iam às duas irmãs, sem pressa, pela estrada seguindo. Acima de tudo felizes. Os vestidos alvos caçoavam das nuvens, acenavam ao vento. No rosto, diáfano pó de arroz, no penteado belo broche, um chapéu gracioso. Tudo que era dito um dia teria sido realmente. A mãe se segurando pra não chorar. Chorava porem as palavras. E era como uma cortina feita de polissílabos que no eco plasmavam flutuantes. Talvez fosse mais fácil dizer silêncio. O mundo porem teimava em ser repleto de azul. Cheio de saudade. Estupidamente caduco de lembranças que instigavam os sentidos, a flor da pele. Causando um frio que casaco nenhum conseguiria aplacar. E as coisas todas como se estivesse esperando os relógios envelhecessem as horas, e era como se toda dor que não devia ter sobrevivido voltasse, irremediavelmente. O amarelo das goiabas querendo adultamente ser laranja; o lilás detestando ser roxo; o púrpura despudoradamente sendo violeta fruto do mandacaru. O colo esperando um rosto amigo pra repousar, mas quem sabe, jamais viria. A iminência de coisas muito sérias novamente voltando a acontecer, coisas que tiveram gosto de faca cortando, lânguido igual babão da jaca mole, o liga do leite de labirinto. Cheiro de velho, de ninho de passarinho. Gosto de água de pote na boca. Os homens um dia se foram, e caminhavam sem olhar pra trás, muito sérios iam. Só Deus sabe tão sérios aonde queriam chegar. A vila inteira, os feirantes, os meninos, o açougueiro, o tabelião, o delegado, a professora. Dentro de um azul e preto em câmara lenta seguiam a procissão dos iludidos. Menos o padre Bulhões que tinha ido pro sítio Gameleiro encomendar uma alma, e o farmacêutico Moreninho fora até a fazenda de Zé Roque aplicar uma injeção contra Cornage, um mal de cavalo que fazia assobiar forte ao respirar. Compromisso nenhum do que foi dito, tinha com a história que ainda estava pra acontecer. Talvez o esperado nunca fosse realmente contado.

Pois o mundo lá fora

Num segundo te devora

Dito e feito

Mas eu não dei o braço a torcer”

Padrinho Pizeca tinha uma tosse crônica que piorava com o cair de tarde, tão fria quanto àquela. Lá do quintal dava pra ouvir a pulmoneira que começava pouquinha e acabava em crise. Dona Amélia fazia um chá de hortelã com mastruz que aliviava, só não podia tomar muito, pois era muito forte. Enéas mais Seu Esaú foram cubar uma terra de Seu Tonico Ambrósio que seria repartida em herança, parte seria vendida pelos filhos, a Seu Pedro Vieira. Tinha uma semana pra mandar destocar quando viriam as chuvas de inverno atrasado. As chuvas arrastaria o barro e tudo ficaria nuzinho, os tocos queimados ponteariam sobre a terra. O imbuá caminhando, a tanajura zumbindo na cumieira da serra. A sementeira quietinha dormindo, aguardava esperando o momento certo depois de covar, desarcordar debaixo do chão. Negro Bongo dera pra andar com Casteado. pense duas peças lorde! Boa coisa os dois não andavam aprontando no oitão do mundo. Pegaram uma encrenca com dona Terezinha por conta duma gamela. Foram dar comida pros porcos, o jumento pisou dentro do cocho que se partiu em dois pedaços. Pense no fuzuê que a mulher fez. Botou os dois pra correr debaixo de chicote.

“Hoje eu vendo sonhos

Ilusões de romance

Te toco minha vida

Por um troco qualquer”

Anacleto filho de dona Ciça todo dia ia pegar passarinho nos cafundós dos Judas. Os cafundós das redondezas eram as propriedades de Seu Arnóbio e Seu Canuto. Dona Ciça desde cedo, metia o pau a gritar pelos meninos “Anacleto! Diógenes!” Pra irem apartar os bezerros das vacas no curral. Os pestes se largavam no oco do mundo. Dona Ciça coitada, sozinha ia fazer o serviço levando Benezinho o mais novo, arreganhado na cintura. Comadre Dorinha encomendou um braço de milho seco a Seu Tobias. O homem achou de mandar justo nêgo Bongo pra quebrar esse milho que ainda estava na roça. Era pras galinhas poedeiras de tio Doroteu. Quando alguma estava choca botava pra deitar atrás da porta da dispensa. Toda vez que tinha que ia buscar uma cuia de feijão, era zoada doida. Zé Candinho tinha uma queda danada pelas modernidades. No meio da feira comprou um peste dum rádio. Ligava numa bateria velha e tinha um monte de arame que ia pra debaixo do chão por cima da casa. Sintonizava a rádio clube de Pernambuco, gostava de ouvir as músicas de Inezita Barroso e “As Irmãs Galvão” que as filhas de dona Amália imitavam direitinho. Os meninos tinha uma história de ir tomar banho no açude de Seu João Lola que queria ver o cão, mas menino lá dentro nem ver. Mas se um dia é da guariba o outro é do caçador. Aí o can-cão piou! Munido duma “soca-tempêro” o velho mandou chumbo. O tiro cobriu e foi menino correndo pra todo lado. Sóstenes, Maurílio desembestaram pelas capoeiras. Fernando, “Titico” e Dorival sumiram na catingueira. Era nêgo se ralando nos rasga-beiço, nas urtigas, as roupas e os chinelos deixando pra trás. Temístocles pegou a vereda, não viu o colchete lascou-se em cima dos fios de arame foi um rasgão que uma orelha pendurou, quase aparta da cabeça. Cléster outro que levou azar subiu num pé de jaqueira tinha um enxame de abelhas, levou ferroadas na cabeça, rosto e pescoço, teve febre, frio e dor de cabeça. Por um bom tempo os pássaros e bichos daquelas bandas teve sossego.

“É o que chama de destino

E eu não vou lutar com isso

Que seja assim enquanto é”

Comadre Zefinha ria pra se acabar das doidices de Emília. De tudo falava, achava extravagante quem comprava muita roupa. E Dália entendia que era com ela, punha Francisco no braço e ia embora. Mal criada Emília um dia levantou a mão pra bater em dona Neném. O filho não gostou nada disso. Seu Antônio fumava cachimbo no alpendre. Depois dos setenta teve catarata e glaucoma ficou cego. Otacílio a tarde aparecia na casa de Abdon pra contar histórias do tempo de Lampião. Os dois lembravam da seca de 32. E começavam uma discussão sobre qual tinha sido realmente o ano, 32 ou 36? Lembrou que era o povo caindo pelas calçadas pedindo alguma coisa pra comer. Cena parecida com a peste negra que assolou a Europa. O povo se trancava dentro de casa com medo da fome. A seca de 70 essa ninguém nem sonhava mas já estaria marcada pra vir.

“Hoje eu vendo sonhos

Ilusões de romance

E troco a minha vida

Por um troco qualquer”

Dália se lembrou do dia de seu casamento. O noivo contratou um sanfoneiro que começou a tocar duas da tarde, e puxou pro meio dia do dia seguinte. Lembrou que ficou sentada na cama, o pai lá na cozinha chorou. O noivo chegou pra dar um beijo, não permitiu, teve vergonha. Quis que o casamento fosse em casa. Pois soube que a igreja estava cheia de curiosos só pra ver como ficariam os noivos. No dia seguinte vieram pra Santana no carro de Seu Dota chofer contratado especialmente para aquela ocasião. O Panema em toda largura teve que atravessar de canoa, empreitada nada fácil. Quando Francisco nasceu dona Amália veio passar os dias do resguardo com a filha. Voltando pra infância lembrou que teve asma e Seu Moreninho receitou três injeções, tomaria duas, e ficaria boa. Moreninho perguntou se a menina guardava mágoa por conta do fuzuê que fizera quando levou um capão pro padrinho Pizeca na semana santa. Não ficara. A irmã na foto, o cabelo derramado pelas espáduas cobertas pela blusa de manga bufante. Tão bonita, tão séria. Para sempre no álbum de fotografias ficaria. A cicatriz no rosto, um corte de caco de pires de quando criança tomava café. Irrequieta derrubou a xícara e caiu. Dona Amália tratou da ferida. Seu Doroteu todo dia. Longe, muito longe ia buscar um pote d’água, saía madrugada e só chegava altas horas da noite. “Mãe me dá um tostão? A senhora tem tanto dinheiro… Pra que quer um tostão menina? Eu queria tanto tirar um retrato.”

Fabio Campos 26 de Agosto de 2015

27 ago

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O TROPEIRO (Meu Pitaguari)

Ilustração: Fábio Campos

Ilustração: Fábio Campos

A mata. Labirinto de puro mistério. Um calafrio a percorrer o corpo toda vez que ia por lá. Por que aquele medo toda vez que passava ali? A mula avançando pelo caminho. As casas. Cadê as casas que não apareciam logo? Desejava avidamente que a vila apontasse no olho da estrada. Por que justo naquela curva tinha que ter mata dos dois lados? Dum lado, subia a serra, do outro despencava abismo abaixo. A estrada serpenteando doida de pedras, e barro. Os olhos atirados lá pra cima, medo de olhar pra baixo. Os caçuás, vuco-vuco, roçando na sela dando ainda mais nos nervos. A burra, o ar dos pulmões entre o esôfago e a traqueia, remedava o som do roça-roça. Pensamentos de gelo, o frio petrificando os lábios, entristecido os olhos. Vida de tropeiro, vida toda varando o mundo em cima duma mula. Para que aquele vento gélido não viesse chover daria de pensar num começo de reza. Como sempre entendida ao contrário, e caía torrencial tempestade. Melhor seria não ter inventado reza. Lembrou com ternura do aconchego da bodega. Cheiro de bacalhau pubo, lapada de cachaça, fumo de cachimbo. Seu Pedro dizia que o Sítio Capim e toda aquela redondeza parecia que ficava mais perto do céu, porque nunca viu lugar pra chover tanto. O chapéu encharcado a aba amolecida, pingando e pingando, no bico da venta, congelando, a barba dura. A molhação empapando a roupa, penetrando até os ossos. Seu Antônio Tenório tinha uma ciência que chuva fina molhava mais que chuva de trovoada.

“Meu Pitiguari/ Meu Pitiguari

Voa vai buscar/ Voa vai buscar

A espera mata/ A espera mata

Um coração que quer amar

 …

Ansiedade me machuca o peito

Sem ver a hora de você chegar

Amor ardente, paixão incontida

Por toda a vida é o que vou lhe dar

Meu Pitiguari”

O tropeiro. Todos os dias, caminho de casa caminho da rua. Caçuás cheios de macaxeira, a vender de porta em porta. Entrou no armazém de Seu Eliezer precisava duns atavios. As coisas ali, de tão cansadas dormiam, como em berço esplêndido. Um silêncio velho, passeando na camada de pó das prateleiras sem sentir o menor constrangimento por isso. Mercadorias sérias, caladas demais. Tudo ali era tão sem assunto que dava agonia. Tudo tão anêmico de tons, apático de cor, raquitismo de luz. Tudo assim tão carente de vida. Ali dentro se sentiu como um resto de piada “…mais perdido que rato em casa de ferragem!” o que acabaria trazendo um pouco de calor humano, conforto pra alma. A mente numa tentativa sobre humana de trazer de volta a alma do desinfeliz que vagava. O consciente ia apresentando um sequencial de tudo de que precisava: uns metros de corda de caruá, pavio de candeeiro, fósforo da marca Matches, sal Cisne, um facão Tramontina, pólvora Sacy, chumbo Guarany. Vários novelos de corda de caruá de diversas bitolas deitados no chão, vasos de grãos de feijão e milho de chapas de zinco apoiados em lastros de madeira encostados na parede, perfilados. O cheiro reinante ali era de querosene da marca Jacaré. Seu Eliezer que era da lei de crente usava camisa de mangas comprida abotoadas nos punhos, e a gola fechada rente ao pescoço. O bigode branco combinando com a alva carapinha. A bíblia de capa preta sobre o balcão sempre ao alcance da mão, enorme mão de dedos nodosos. No interior penumbra, as aberturas das portas como fendas que ameaçavam encher tudo dum imenso deserto de luz de fina cal como um portal que daria acesso a terra da lua. O sol que um dia havia talvez tivesse adquirido uma mancha negra que se estendia formando um magnífico eclipse e a todo instante provocava explosões espalhando pelo cosmo uma chuva de larva incandescente que acabaria por dizimar toda a vida reptiliana, a única existente sobre a terra de uma época remota. Isso talvez fosse o que se chamaria de caos. E a partir daí daria início a criação.

“Meu Pitiguari/ Meu Pitiguari

Voa vai buscar/ Voa vai buscar

A espera mata/ A espera mata

Um coração que quer amar

Eu lhe dou tudo o que você pedir

E faço tudo que você gostar

Dou a paixão que eu sempre tive

O amor bem livre, com sede de amar

Meu Pitiguari” 

A Rua. Um pingo de remorso não tinha, de nada se sentia culpada. De quem era pobre, de quem tinha muitas posses, de quem era miserável. A rua não sentia culpa se ‘a’ ou ‘b’, se fulano, sicrano ou beltrano não tendo o que fazer ficava falando da vida alheia pelas esquinas. A rabeca de Seu Antônio em duas notas: “A porquinha ronca e fuça” gargalhada geral. Desconfiavam que o rapazola que ajudava o padeiro com o forno da padaria tivesse um chamego com De Lourdes empregada de dona Cristina, e daí não era a mulher, solteira mesmo. Só que pendia uma asa pro cabo Matias. Depois que vendia a macaxeira, tropeiro ia buscar uma carrada de madeira encomenda de Seu Arlindo da padaria. E se estivesse chovendo não tinha quem fizesse o ajudante ir até a bodega comprar uma garrafa de cana. Considerava o fim da picada, sair na chuva depois de horas a beira do forno, e correr o risco de ter uma constipação, ficar doente. Como aconteceu com finado Zezinho. E olhe que ele tomava umas canas pra aguentar o rojão. O peste era tão viciado que pra conseguir tomar a primeira dose do dia, segurava o copo com as duas mãos. Tremia tanto que derramava quase tudo no rosto no pescoço. O companheiro Mané guarda chegava de madrugada ligava o motor do caminhão Ford que fazia a maior zoada. A chuvinha fina bem escondidinha no escuro enganava quem tinha que sair da cama cedo. Se ao menos desse pra ouvir os pingos batendo na telha se negaria a sair tão cedo de debaixo dos cobertores. Naqueles dias de inverno cadê coragem pra tomar banho. O lençol abafa-bufa grosso que só parede de igreja, pegava uma inhaca desgraçada. A mulher pra aguentar a catinga o obrigava a lavar pelo menos os possuídos.

“Meu Pitiguari/ Meu Pitiguari

Voa vai buscar/ Voa vai buscar

A espera mata/ A espera mata

Um coração que quer amar

Meu desejo já não tem sossego

Buscando o seu todo instante vai

Por tudo peço não demore não

Que o meu coração já não aguenta mais

Meu Pitiguari

Descambou a folhear um jornal velho, encima do balcão. Tão cheio de tanta letra. Figura que é bom quase nenhuma. Talvez só servisse mesmo pra enrolar prego. E tudo poderia ser muito menos dolorido do que na sempre fora. Lamentou não ter leitura suficiente pra ler aquele monte de coisa. Quem sabe lesse a crônica de Rubem Braga que falava de borboleta, dum pé de jambo na Rua do Ouvidor. Ficaria a par da recessão que assolava a nação americana. Depressão severa nos Estados Unidos, da América, e no Canadá tudo por conta da maldita guerra. Muita gente não podendo assumir seus compromissos com o aluguel foi morar em favelas apelidadas de Hoovervilles, uma sátira ao presidente Herbert Hoover. Não tendo dinheiro pra abastecer de combustível seus automóveis, muitos passariam a atrelar mulas aos veículos apelidados de Bennett Buggles, carroças Bennet, uma crítica ao primeiro ministro Richard Bennet.

“Meu Pitiguari/ Meu Pitiguari

Voa vai buscar/ Voa vai buscar

A espera mata/ A espera mata

Um coração que quer amar

Se seu amor é igual ao meu

Chega de pressa, vem de pressa vem

Que o meu desejo é lhe matar de beijo

Depois de saudade eu morrer também”

A casa. Lá estava arribada na ribanceira do gravatá. Mês de agosto fazia muito frio, meu Deus como era frio! Dona Amélia dizia que aquela casa ficou mal-assombrada. Quando estava sozinha do alpendre ouvia alguém abrindo o armário da cozinha. As alpercatas de couro cru rangendo, rastejando no piso. A gaveta dos talheres se abrindo. Tudo em plena luz do dia. Alguém pegando a faca na gaveta. Exatamente como naquele dia. Calmamente indo ao quarto, a filha estava deitada na cama toda enrolada, nem um pio se ouviu. O sangue morno descendo pelos lençóis empapando o colchão. As grades da cabeceira ficaram sujas de sangue. Depois das sevícias na hora do desespero teria se agarrado ali. Sete facadas nos peitos e colo. Institivamente olhou pro mato, na direção onde haviam encontrado o corpo. O vestido rasgado, a calcinha bem longe dali, uma tiara e os sapatos. O caderno todo rasgado tinha desenhos, vários corações sublinhavam a frase: Te amo papai.

Fabio Campos 13 de Agosto de 2015

14 ago

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NEGRO LINO

O dia nem bem havia nascido. Mas de certeza em trabalho de parto estava. Vinha vindo, vinha vindo. As entranhas da terra parindo, dando à luz, magnífico ser, sol nascente. A neblina láctea a derramar-se dos seios da montanha amamentado. Dos arroios das quebradas do sertão se nutrindo. Pelo sal da terra batizado. Sob as grinaldas, risonho e límpido, véu de orvalho, suspenso nas teias de aranha. Sertão impávido colosso somente dele (e nele) nasce o dia realmente.

“Tudo em vorta é só beleza

Sol de Abril e a mata em frô

Mas Assum Preto, cego dos óio

Num vendo a luz, ai, canta de dor”

O que vamos contar vem dum tempo lá de trás. De um daqueles anos que rabiaram a década de trinta Ano entrançado de sucedências ruins, uma atrás da outra. Por essa época perambulava em riba do couro do mundo um preto chamado negro Lino do Pedrão. O negro era assim um amontoado de músculo, encima duma cabeça que de tão feia só podia ter sido moldada pelas mãos do ‘Coisa ruim’. Brabo que não precisava muita coisa pra criar uma arenga. Nas rodas de conversa diziam que o nome Lino vinha de Virgulino. E o peste gostava de ser comparado a Lampião. Seu verdadeiro nome era Rosalino, que odiava e, preferia que chamassem de Nêgo Lino mesmo. Vem desse tempo o costume de se ajuntar o nome das pessoas ao nome do lugar donde vinha. Pedrão era um arruado fincado entre o Sítio Capim e o Gameleiro. Muito comum também agregar ao nome, o nome dos familiares de mais recurso, pra se ter algum reconhecimento, algum valor. Por exemplo, dona Adélia de Seu Canuto, Leônidas, neto de Seu João Lola, Mara Célia irmã da professora Dália. Dona Amália de Seu Doroteu, pais de Domingos, Mara Célia e Dália. E tinha Zé Costa, Enéas, Seu Esaú, e alguns outros mais, estão por aí porque gostam de prosear boa prosa, mas nem garanto que vão entrar na história. Um dia, no meio da feira um repentista vendedor de livreto de cordel tirou uma treta com o negro. Dele tirou estes versos:

“Nêgo Lino aqui chegado/ Nêgo Lino aqui chegou/ Receba essa tela/Tua venta é de esparrela/ Parece duas gamelas/ Brilha mais que Furta-Cor/ Os olhos são duas bolas/ Vão pular já da cachola/ Pregaram mais não colou/ Essa coisa que feiúra/ A beiçola ele pendura/ É uma coisa que avessou/ Toda vez que o bicho fala/ Junto com a voz exala/ Dum cassáco o fedor/ De tuim esse cabelo/ As orelhas dois bueiros/ Parece dois armador/ Quando ele ri faz careta/ É a imagem do capeta/ Mais parece um tumor/ As feição é dum macaco/ O mau cheiro do suváco/ Derruba quem já andou/ De parracha sua mão/ A voz rouca dum Barrão/ Cabeça de Cololô/ Os braços são dois cacetes/ Balanga num cacuête/ Parece que se soltou/ Sentado é uma armada/ De cóca uma presepada/ Brinquedo que desmontou/ É o cão chupando manga/ A besta fera de tanga/ Um mamulengo a motor/Dois desse vira uma Túia/ O que cabe numa cuia/ Na certa tem mais valor/ Os peitos são duma porca/ E o bicho quando se invoca/ Vira a Nêga Fulô.”

Gargalhada geral da roda de ouvintes. O negro saiu bufando, na tolda de Tonha Fateira pegou uma garrafa de cana tomou todinha sem tirar a boca do gargalo. Os olhos viraram duas brasas de fogo, assoprou álcool pelas ventas e partiu no encalço do embolador. A raiva que tinha dava pra matar o repentista de mãos limpas. Quando viram a bagaceira sete homens se atracou com o brutamontes. Mas só de olho de machado puseram-no a nocaute.

“Tarvez por ignorança

Ou mardade das pió

Furaro os óio do Assum Preto

Pra ele assim, ai, cantá de mió”

Nesse tempo, as coisas do mundo andavam assim tão serenas. Na caatinga do sertão a cor prevalecida era a cor do barro, e o verde das catingueiras. Nos vilarejos não tinha muita vistosidade nas cores. Tudo era como esmorecido. Por conta do material de que tudo era feito, de madeira, ferro, zinco, estanho, porcelana, couro e barro. As pessoas mais influentes da vila Seu Canuto e dona Adélia tinham casa de comércio, muitas terras e gado, ceifavam com aviltamento, algodão, feijão e milho. Tudo a se perder de vista. O único sobrado existente na vila era deles. Não eram poucos os que gostariam de entrar além dos portões daquela casa. Comentava-se como tanta coisa bonita havia pra ver além daqueles muros. O mobiliário era todo de madeira bem trabalhada. Dava gosto ver a cristaleira, uma mesa com um conjunto de cadeiras bem torneadas. Uma espreguiçadeira, um violino repousado sobre a cômoda. Belíssimos quadros, pinturas a óleo de caçadas equestres, nas paredes. Um cabide do tipo pedestal, o acabamento, o verniz, tinha a graça de uma mulher esbelta. Uma bengala de mulungu e cabo de madrepérola. Nas casas mais modestas o cabide era de parede do tipo sanfona. Um baú todo trabalhado no couro. Baú do pobre era chamado de burra. Um camiseiro de jacarandá, um pilão de cedro, uma espingarda “papo-amarelo” por sobre os retratos da família impondo respeito. O caibrado da varanda todo de umburana de cheiro pra não dar cupim. O ferro do portão com duas camadas de tinta. O estilo barroco e arcádico retorcia-se nos corrimões das escadarias. Copiado das sacadas dos camarotes dos teatros da capital. Nos portões suntuosos dos jardins, estatuetas de querubins e ninfas na fonte de água. A cal e o índigo sobrepujavam nas muradas e caixetas, nas eiras e beiras, graciosos lampiões a cada quina. O estanho ia a cozinha e o quarto, nas torneiras, nos urinóis, nas escarradeiras de porcelana. As joias de ouro, os dobrões de prata encerrados nos cofres. As franjas das cortinas os quadros com molduras de carmim.

“Assum Preto veve sorto

Mas num pode avuá

Mil vez a sina de uma gaiola

Desde que o céu, ai, pudesse oiá”

Negro Lino contava que tinha umas visões esquisitas. Alguns momentos pra ele nada fazia sentido. Do jeito que se apresentava parecia que tudo estava de cabeça pra baixo. O mar um dia lhe apareceu, lá encima no firmamento. Estupendo mar sereno, revolvendo suas ondas tranquilamente, se comportando como estivesse cá embaixo. Uma gota sequer caía lá de cima. E de repente viu despencar uma chuva de peixes. -Chuva de peixes? Perguntou Casteado. -Isso mesmo? –E caiu onde? -No céu? O céu estava cá embaixo. Tudo incrivelmente incomum de se acreditar. –E a donde ‘vormicê’ apoiava os pés? -Não havia onde… Onde devia estar o chão só havia o nada. Terra firme não havia, inexistia lugar onde pudesse firmar os pés. E afirmou: -Não há nada pior pra uma criatura que tem dois pés, não ter onde sentar a planta deles. Aquela imensidão de tudo era um abismo só. Diante daquela situação, sentia náusea, talvez labirintite, ânsia de vômito. Lembrou que não estava no seu corpo, portanto não tinha estômago. O corpo, massa muscular, sangue bombeado pra o coração adrenalina, sudorese, taxas de triglicerídeos, colesterol alto. Não precisava se preocupar com essas coisas naquele instante. Era sua alma vagando. Só tem uma coisa que o espírito fora do corpo físico não consegue se livrar: do medo.

“Assum Preto, o meu cantar

É tão triste como o teu

Também roubaro o meu amor

Que era a luz, ai, dos óios meus

Também roubaro o meu amor

Que era a luz, ai, dos óios meu”

“-Outro dia eu vinha pela estrada do Caboclo. O sol já ia derreando por acolá, e um cachorro passou por mim, sem tirar o cigarro da boca deu boa tarde, e tossiu uma tosse seca. “-Mas era um cachorro, cachorro mesmo? Desses que late e mija no poste? “–Desses mesmo aí sim senhor! Até um jumento que estava lá no cercado, parou de comer capim olhou pro lado de cá e disse: -Cuidado compadre pra essa tuberculose não virar uma tosse!” Ah! Me desculpe! Mas assim já é demais! –A pois eu juro por essa luz que alumia os meus olhos! –Homem! Tu num diz isso que Deus castiga!”

Quando foi noutro dia, lá vinha Nêgo Lino da feira. Vinha que vinha zonzo pela estrada do Pedrão. Bêbado que só um guará. E não é que foi topar logo com uma ticaca choca! Já era de noite, tudo pardo. Os dois se atracaram, e né que o troço da ticaca lhe estraçalhou a cara, e lhe arrancou um olho fora. Nisso vinha um carro de boi. Ao ver aquela presepada o carreiro meteu a vara de ferrão pra cima, e acabou acertando o outro olho de nêgo Lino. Selando assim sua sorte, a de pedir esmola na porta da igreja. Fazia isso cantando moda de viola que falava de passarinho sofredor.

Fabio Campos 08 de agosto de 2015.

07 ago

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A SIRIGAITA

Essa é história de pessoas pacatas. De gente ordeira e simples. Dum lugar tão conhecido da gente que achamos até, que é aquele em que um dia vivemos. Aquele singelo lugar que nos viu criança. Mas o mundo deu muita volta. E nas voltas que o mundo deu, muita coisa aconteceu. Coisas que jamais se imaginaria que pudesse acontecer. E quando vem de quem menos esperamos? Pra esse tipo de coisa, Seu Doroteu que não era homem de muita conversa, tinha sempre uma frase pai d’égua: “É assim mesmo. De onde menos se espera é que sai.”

Ô bicho danado mode gostar de magoar coração é o rádio. Lá de dentro dele vinha à voz mansa de Nestor e Nestorzinho, cantando a mais nova moda sertaneja.

“O joão-de-barro

pra ser feliz como eu

Certo dia resolveu

Arranjar uma companheira

No vai e vem com o barro da biquinha

Ele fez uma casinha

Lá no galho da paineira”

Melhor mesmo é começar do começo. Se é que se possa chamar de começo, uma tarde de janeiro daqueles bem antigos, que as pessoas vestiam roupas feitas de siroco e organdi e cambraia. E o mundo, e tudo o que os homens já haviam inventado, apesar da cara um tanto ingênua, já andava até bem taludinho pra andar fazendo besteira. O lugar a que nos referimos, ficava bem na garganta semiárida do sertão. Donde soavam trovões cujos estrondos acabavam produzindo um zumbido, quem sabe um sinal de comunicação, que os ouvidos humanos, e as mentes talvez ainda não conseguissem decifrar nem entender o significado. Por puro instinto de sobrevivência os saguis buscariam os ocos dos paus. Os peixes Cará ressuscitavam do lombo dos açudes vindo nervosos futucar as costelas das enchentes. Ameaçavam sair d’água tanta era a tormenta. As tartarugas às profundezas das mornas águas do oceano se sentiam protegidas, nada ouviam. Um polvo gigante emergia toda noite de lua cheia. Sendo que em dias como aquele, jamais apareceria. Diferente dos crustáceos que de tão excitados se vomitavam dos seus refúgios, nos invólucros samurais dando início a um ritual dantesco de acasalamento. Tão distante daquela outra realidade. Tudo isso era tão somente pra dizer que os tempos de trovoadas no sertão e no beiço da praia eram bem distintos.

“Toda manhã o pedreiro da floresta

Cantava fazendo festa

Pra’quela que tanto amava

Mas quando ele ia buscar o raminho

Para construir seu ninho

O seu amor lhe enganava”

Dona Maria e Seu João moravam no cimo da Serra do Gavião. A ave tão presente ali emprestara seu nome àquela elevação rochosa. Toda segunda-feira era dia de ir pra feira livre na grande vila. De manhã bem cedinho, nem tinha ainda clareado nem esquentado o sol. E botava o pé na estrada. Levavam farinha de massa puba e beiju pra vender. Num fogareiro rude feito de barro, num pedaço de zinco polido faziam tapiocas. Quentinha na hora, bem ao agrado da freguesia. A barraca coberta com empanada de saco de açúcar limpinho de fazer gosto, tudo branquinho e cheiroso. Ficava bem próximo a igreja matriz de Santo Antônio. As mulas ficavam amarradas em terreno baldio próximo a barbearia de Seu Doroteu. Na casa de dona Amália iam pra tomar um café de caco, adoçado com tacos de rapadura. Teve um dia que dona Maria acabou perdendo uma colar de ouro. Foi assim, ela deixava seu João vendendo tapioca na barraca e ia procurar um sapateiro por nome Jaime e os dois se encontravam, pra manterem um caso amoroso, acoitado por Zefinha que pegava os meninos pequenos nos braços e saía de casa, se danava pra feira. Ganhava um tostão pra iscruvitiar e deixar a casa livre pros amantes. Ficava um tempão na cozinha de dona Amália, baforando num cachimbo, que era pra dar tempo do casal de adúlteros se entregarem ao sexo pecaminoso. Acontecesse que quando dona Maria da Tapioca foi passar debaixo do arame o colar, um cordão de ouro que ela trazia pendurado no pescoço enganchou no arame, se partiu e caiu ali mesmo. Sem que ela percebesse, pois se entreteu se benzendo, botando cuidado pra que ninguém testemunhasse seu ato. Uma menina por nome Dália, todos os dias passava aquele arame bem naquele mesmo lugar. Depois de buscar o leite tirado da vaquinha Mimosa, foi quem acabou achando a joia. Com a pindureza no pescoço chegou em casa, dona Amália deu logo fé e quis saber donde procedia o tal objeto. Prontamente a menina disse direitinho, onde e como havia achado. Zefinha fez de conta que nem ouviu. Como diria Seu Doroteu: “Fez boca de siri. Bico calado, boca piu!” Somente quando chegou em casa dona Maria deu por falta do colar.

‘Mas nesse mundo o mal feito é descoberto

João-de-barro viu de perto

Sua esperança perdida

Cego de dor trancou a porta da morada

Deixando lá sua amada

Presa pro resto da vida”

O farmacêutico Moreninho estava sentado na calçada da delegacia conversando com Seu Pita, Jerson, Batista e o delegado Matias. Nisso ia passando um menino com um alçapão cheio de passarinho, pra vender na feira. Seu Pita quis saber que espécies havia na ínfima gaiola. “-Dois Papa-Capim, três galo de campina, um joão-de-barro. O boticário cheio de dó das aves disse que pagava um tostão pro menino soltar tudinho ali mesmo. Não conseguiu obter êxito nesse comércio. Foi-se o menino. Enquanto o charlatão ponderou: “-João-de barro é passarinho sabido. Faz sua morada mas não trabalha dia de domingo e dia santo. As penas vermelhas na cauda é porque pousou na cruz de Jesus Cristo. Passarinho construtor de fornos é isso o que significa seu nome. Ave trabalhadora e inteligente. Seu canto se assemelha uma leve e espontânea gargalhada. Lá no sul seu canto é tido como sinal de bom tempo que se aproxima Dependendo da região é conhecido também como barreiro, joão-barreiro, maria-barreira, amassa-barro, joaninha-de-barro, sabiazinho, forneiro, pedreiro, oleiro, na Argentina “horneiro”. Mas sua maior marca mesmo e fazer seu ninho com a entrada contrária à vinda da chuva. Se ameaçado por uma cobra lutará para salvar seu ninho.”

“Que semelhança marcando meu calendário

Só que eu fiz o contrário

Do que o joão-de-barro fez

Nosso Senhor me deu calma nessa hora

A ingrata eu pus pra fora

Onde anda eu não sei”

Segunda-feira de manhã, os mascates se organizavam ainda, ocupando aos poucos os espaços das vias públicas pra iniciar a feira, após a missa, antes da benção final, o padre Bulhões avisou da perda do cordão de ouro de dona Maria. E quem encontrasse e devolvesse seria bem gratificado. O colar devia ser levado até a pensão de Seu Pizeca que daria a gratificação de um conto de réis. A peça de estimação era ouro dezoito quilates. Dália estava na igreja com sua mãe e saiu dali direitinho pra pensão de Seu Pizeca. “Coisa ruim nunca vem solteira, sempre vem acompanhada.” Assim disse Seu Doroteu quando soube que o filho de dona Maria Tapioqueira levou uma queda dum cavalo e quebrou uma perna, por um bom tempo ia andar de muletas. E não fazia um mês que Seu João tinha sido roubado numa pareia de boi de arado. Houve quem dissesse que eles tinham mesmo era mau-olhando, olho gordo. Era muita inveja que o povo botava em quem prosperava a olhos vistos. Seu Doroteu era um homem temente a Deus, devoto de padre Ciço do Juazeiro e só se confessava com frei Damião. Um filho pequeno, ou neto deitado no chão, proibia severamente que alguém passasse por cima, pois considerava xingamento. Armar guarda-chuva dentro de casa, nem pensar atrasava o crescimento das crianças. Calçado emborcado era escarnecimento pros pais. Xingar o redemoinho era pedir castigo pra lavoura. E dizia “Cumpade mais cumade vira fogo corredor!” “Enquanto o bem retarda, o mal chega a galope!” De Seu Doroteu era também esse predito: “Tudo de ruim que está pra acontecer já está escrito. No livro do cão escrito.” Nas profundas dos infernos. É lá que as coisas ruins são planejadas, na assembleia dos demônios. O tinhoso tinha mesmo, só o trabalho de encontrar, as mãos certas, pra cumprir o que precisava ser feito.”

“Samba crioula que vem da Bahia

Pega a criança e joga na Bacia

A bacia é de ouro ariada com Sabão

Dália com as outras meninas brincava. Dona Maria sempre que a via, lhe sorria, lhe acenava e lhe agradava com doces. Seu Moreninho continuava: “O João-de Barro é uma ave graciosa. Mede entre 18 e 20 centímetros de comprimento. Não passando de 49 gramas de peso. Trás o dorso marrom avermelhado. Sobre os olhos se desenha uma suave sobrancelha, formada por penas mas claras, em leve contraste com o restante da plumagem da cabeça. As penas das asas são anegradas, ainda mais destacada durante o voo. O ventre de coloração clara, sendo o papo e o pescoço branco. A cauda destaca-se pela tonalidade avermelhada ventral e dorsalmente. Não gosta de se afastar muito do local onde mora. Ave dócil se deixando ser observada e mesmo a aproximação de uma pessoa que pode chegar a poucos metros de distância sem que o joão-de-barro voe. Quando não está empoleirada próximo a sua casa, é comum vê-la descer ao solo. Ali passa boa parte de seu tempo caminhando, alternando pequenas corridas com passadas mais devagar.”

“E depois de ariada vai lavar o seu Roupão

Seu roupão é de seda sedinha de Filó

Cada um pegue seu par e vá dar a benção a sua vó

A Benção Vovó A Benção vovó.”

Jaime e dona Maria Tapioqueira já a algum tempo, passaram a se encontrar no próprio leito conjugal da amante. A casa de Zefinha tornara-se imprópria para os encontros amorosos. Lá na croa da serra do Gavião livre dos olhares maldosos se amavam. Pra chegar até lá tinha que se vencer uma subida íngreme. Enfrentar uma mata de caatinga densa e sombria. Uma vez dentro da mata o tempo fechava, parecia quando ia chover. Mesmo que lá no aceiro o sol alumiasse o mundo todo com sua potente claridão. No oco da mata era quase breu. De fazer medo aquele silêncio de assovios inquisidores, e olhos selvagens ameaçadores porem nunca acusadores, mas que só quem via é que sentia. Um dia de segunda-feira Seu João se ajeitou pra descer pra rua. Arriou as mulas pôs a farinha nos caçuá. Dona Maria ainda estava no quarto se arrumando. Ele saiu e trancou a porta de chave. Ficou um tempão sentado do lado de fora. Dona Maria começou a chamar por ele pra vir abrir a porta pra que pudessem ir. E ele lá calado, não batia nem as pestanas. A serra Já estava impaciente com aquela mulher implorando pro homem abrir a porta. E nada. A mata, somente a mata escutava seus pedidos, sua súplica. E caiu a noite. Duma fogueira que havia acendido Seu João tirou um tição. Com a força que somente o ódio pode dar atirou sobre o telhado do casebre. A medida que se afastava mais longe os gritos iam ficando. Cada vez mais longe, até cessarem, debaixo das cinzas, dos escombros, e do orvalho da madrugada, na serra do gavião.

Fabio Campos 29 de julho de 2015.

23 jul

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A PROMESSA DE CASTEADO

Era uma vez, assim que o dia nasceu. Mais uma vez era. A casa continuava no mesmo canto, encostada nas outras. Se tivesse sozinha já teria caído. O salitre, os tijolos frágeis, de barro cozido. Ao ver aquela cena, vieram lembranças que fez tudo voltar ao passado de João Pedro. Pra construí-la foram dias de trabalho duro, o homem e a mulher somente. Da encosta do riacho arrancaram o barro. Com as próprias mãos moldaram os tijolos. Fizeram uma caieira que varou a noite queimando. E o bolo de fogo crepitou na catingueira verde azeitada que produziu um cheiro doce. A caninana buscou outro lugar pra se entocar. Os olhos gigantes da coruja assoviavam, causando arrepios de dar medo. O ponto de fogo lá no pé da serra, de cá da cidade parecia só o lume dum palito de fósforo aceso.

Pitava João, pitava Maria cigarros de palha, de rara beleza, singela ação pra quem via; raro sabor, um primor pra quem vivia. A cozinha baixinha, pretinha punha os mais taludos de cócoras e os pequenos aproveitavam pra desabarem nos seus colos. O menino viu e guardou, sem saber que guardava guardou. Os dias andaram de roda gigante, e fez miséria. A rua cresceu, e se multiplicou, fez como rezava no livro de Gênesis. Mas despois que cresceu, seus filhos foram embora, foram cuidar de suas vidas cortando o cordão umbilical deles com a rua. Rua que lhes amamentara, lhes embalara lhes pusera pra dormir. E de tristeza a rua encolheu, definhou, tanto que morreu. No seu lugar nasceu outra. Que nem em sonho imaginava que um dia fora a outra. O tempo de bandidos saqueadores estava instalado, não mais agora, mas naquele tempo da Rua Nova. Os homens se reuniram em assembleia daí virou Rua da Assembleia. A dificuldade do governo de cobrir com um contingente policial todos os municípios facilitava a ação dos malfeitores. Dona Adelia e Seu Canuto eram os moradores mais ilustres, os mais abastados de recursos. Os facínoras os tiveram em mira. Os-leva-e-trás, os olhos do coronel deram com a língua nos dentes. Vulnerável se tornavam vítimas. Quem só tinha a vida, uma reserva de grãos no fundo da dispensa, e alguns tostões enrolado num lenço debaixo da camarinha. Outra alternativa não havia, a não ser fugir. Um vaso branco era peça de estimação, também ia pra o mato, nos dias de tribulação. Fugir talvez fosse a única saída pra quem não queria ir pro enfrentamento. Os declives do relevo, as encostas dos cursos d’água, as grotas, tudo que pudesse esconder um cristão servia de refúgio.

“Então, aproximando-se dele um escriba, disse-lhe: “Mestre, seguir-te-ei para onde quer que fores.” Jesus lhe respondeu: “As raposas tem suas tocas e as aves do céu têm seus ninhos, mas o filho do homem não tem onde repousar a cabeça.” Outro de seus discípulos lhe disse: “Senhor, permite-me ir primeiro sepultar meu pai. Mateus 8-20”

A filha de João e Maria tinha saudade do pai, queria tanto ver o pai. Lembrava dos seus olhos calados. Lembrava do jeito como sentava. Se afastava de costas até a cadeira segurando com seus braços magros, os braços rijos da cadeira. E cruzava a perna direita sobre a esquerda, nunca ao contrário. As mãos espalmadas uma sobre a outra apoiadas sobre os joelhos. Assim acabaria escrevendo na memória da filha, como queria para sempre ser lembrado. Meu Deus como era tanta a vontade de revê-lo, não existia outra coisa mais importante que isso. Era tudo o que dali por diante pediria a Deus, até seus últimos dias. Perguntaria como estava de saúde, se no céu também cuidavam de roça. O cabo da enxada lustroso de uso, a folha do instrumento de tão gasto arredondara nos cantos. O cabide de pendurar pano de pratos era de madeira, tinha a cabeça dum peru branco com sua pinta vermelha descendo por cima do bico. O filtro d’água tinha roupinha com enxadrezado de crochê na borda e um desenho de rosas amarelas que lembravam bagos de jaca. A bandeja dos copos coberta com redinha de filó ornada com fuxicos. A outra filha não se lembrava mais de nada disso. Tão esquecida coitada. Não lembrava mais do dia do sepultamento do pai. O sobrinho ajudou. Se lembre tia que o padre Moisés disse assim: “-João… Morreu num grande dia. No dia da anunciação. Dia em que o arcanjo Gabriel anunciou a Virgem Maria que ela ia ser a mãe do Salvador.” Era o dia 25 de março daquele ano.

“Quando Isabel estava no sexto mês de gravidez, Deus enviou o anjo Gabriel a uma cidade da Galileia chamada Nazaré. O anjo levava uma mensagem para uma virgem que tinha casamento contratado com um homem chamado José, descendente do rei Davi. Ela se chamava Maria. O anjo veio a ela e disse: “-Que a paz esteja com você, Maria! Não tenha medo! Encontrastes graças diante do Senhor. Ficarás gravida, darás a luz um filho e porás nele o nome de Jesus. Ele será um grande homem e será chamado de Filho de Deus Altíssimo. Deus o Senhor, vai fazê-lo rei, como foi o antepassado dele, o rei Davi. Ele será para sempre rei dos descendentes de Jacó, e o reino dele nunca terá fim. “-Como isso se dará? Se não conheço homem.” Perguntou-lhe Maria. Ele respondeu: “-O Espírito Santo virá sobre você, e o poder do Deus Altíssimo o envolverá com sua sombra. Por isso o menino será chamado de santo e filho de Deus. Sua parenta Isabel está grávida, mesmo sendo idosa. Diziam que ela não podia mais ter filhos, no entanto ela já está no sexto mês de gravidez. Porque para Deus nada é impossível.” Maria respondeu: ‘-Eis aqui a serva do Senhor, que aconteça comigo o que o senhor acabou de me dizer.” E o anjo foi embora. São Lucas 1,26-38”

O primo Casteado teve uma dor de dente horrível. Foram cinco dias com cinco noites sem dormir. Na primeira noite, destroçou um travesseiro mordendo e grunhindo feito um cão raivoso. Amanheceu na porta de Seu Pedrinho, protético, que temeu extrair o maldito, pois estava bastante inflamado. Receitou-lhe um anti-inflamatório, que praticamente surtiu efeito contrário. O peste era teimoso e fazia esforço durante o dia, pra desparecer a dor maligna trabalhava, na broca duma roça, no carrego de saco na cabeça. Na segunda noite sem pregar o olho, teve alucinações. Andava com um pano amarrado por baixo do queixo e encima da cabeça. Na terceira noite andava doido o homem. Tomava um litro de cachaça de uma vez só e a única coisa que conseguiu foram ferimentos no cocuruto que bateu muitas vezes contra o tronco de uma árvore. No quarto dia foi a um rezador, os galhos de arruda do homem murcharam que foi uma beleza. Disse-lhe que estava cheio de olhado, espíritos ruins lhes acompanhava. Disse ele que botou tudinho pra correr. Durante a reza ele passava a mão espaduada do ombro até os rins. Como se estivesse tangendo algo que estava sobre os ombros do caboclo. Somente os espíritos do outro mundo viam, o que ninguém mais via. Pediu que lhe estendesse a mão espalmada, olhou-a atentamente, se benzeu. Pediu que se benzesse também. E continuou suas profecias dizendo que uma mulher por nome Maria, que na juventude havia sido sua namorada, com quem acabara o namoro. Por vingança fez um trabalho para derrubá-lo. Não conseguindo, no entanto, pois Casteado, tinha o corpo fechado. Por conta desse dente, Casteado ficou vagando várias noites, pelos arredores da vila. Passaram a dizer até que estava correndo bicho, e que teria o poder de tornar-se vulto, de se transformar na besta fera, ou num lobisomem, nas noites de lua cheia. No quinto dia, mesmo inchado, o charlatão resolveu extrair o dente. Em vão aplicou sedativo. No cru mesmo o infame teve que ser tirado. Horripilante grito ouviu-se do pobre diabo. No exato momento que o sol se ia, e a lua prateava o início da noite.

Na cozinha de cócoras com os pés descalços sujos, a calça enrolada até a batata das pernas. Uma xícara de café fumegante na mão que cobria parte do rosto. Fitava o primo Benício Felix que tinha por aqueles dias, chegado da Bahia de São Salvador. Fazia cinco anos que não aparecia, tinha ingressado na marinha, na capitania dos Portos da majestosa enseada dos Nautas de fronte a igreja de Nossa Senhora da Conceição da Praia. E agora de férias, resolveu estar de volta, rever os parentes. Casteado não parava de fazer perguntas. Fascinado queria saber como era a história que soubera que ele viajava num bicho grande todo feito de ferro, que andava no fundo do mar chamado de submarino. Naquela cabecinha de pouca massa cinzenta aproveitável tal ideia era inconcebível. Não entendia como era que um troço pesado todo de aço não afundava. Como era que conseguia passar vários dias debaixo d’água? E pra respirar? Felix se divertia a custa do matuto, dizendo coisas ainda mais absurdas, que num hotel onde esteve em Mar Del Plata tudo era automático, apertava-se um botão e uma esteira rolante levava as malas até o quarto do hotel, na hora de servir-se a mesa. Do mesmo jeito, era só apertar um botão e as panelas sobre a mesa deslizando em trilhos despejavam as comidas no prato. E ria por dentro diante da cara de estupefação do pobre matuto.

Casteado também tinha uma história pra contar. Disse ele que na hora da agonia, na quinta noite da dor de dente um milagre aconteceu: “-Meu padrinho Cíço Romão Batista me apareceu! Perante a luz de Deus como era ele, Benício! Vestidinho na sua batina toda pretinha, pretinha todo ‘arrudiado’ de nuvens e uns anjinhos tudo voando. Tirou o chapéu da cabecinha, os cabelinho bem alvinho! E disse bem assim: “-Casteado quando você era menino pequeno, tinha só oito anos. Você teve uma doença, que ia lhe matar. Mas sua mãe chamou por mim, e disse que se você ficasse curado lhe levaria até Juazeiro do Cariri. Mas levaria você nuzinho, despido. E só era pra vestir uma roupa em você, quando chegasse nos degraus da igreja de Nossa Senhora das Dores.” No outro dia Benício, eu tomei uma decisão tirei minha roupa todinha, e fiz finca pé pra Juazeiro. Nu pelado do jeito que eu vim ao mundo. Quando cheguei no Pedrão, um soldado de ‘políça’ chegou junto. Todo enjoado me deu voz de prisão. Eu disse que estava indo pro Juazeiro pagar uma promessa a meu padrinho Ciço. Seu ‘poliça’ rodou-me a mão no pé do ouvido que o sangue do dente extraído espirrou fora. Passei uma semana preso, na delegacia de Olho D’água das Flores.”

Fabio Campos 09 de Julho de 2015

14 jul

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O MÍSSIL FASHALL (5ª Parte da Saga)

Ilustração: Fábio Campos

Ilustração: Fábio Campos

Tudo o que Deus pôs no mundo estava bem ali na frente. O entardecer vinha, com a sua mania de arremedar o dia primordial. Um céu meio trevas, meio luz. O lado obscuro, borrado de farinha de estrela. O lado coral de tangerina, sangrado de dor mortalmente ferido morria, não sem incendiar a parte finita do infinito. O almofadado azul cândido de ruge e chamas não tinha mais nada pra dizer, além do que já havia dito. A estrada, as fachadas das casas magnificamente se amando, e se odiando na mesma proporção e intensidade.Tudo costurado de angústias, delírios, calafrios e neon. O menino que ia caminhando pela calçada da praça da vila parecia visivelmente perturbado. Talvez não acreditasse que ao fim do dia pudesse recuperar a paz interior. A grande estrela inflamada, como uma imensa lágrima incandescente, calma e lentamente ia caindo. Pra detrás da montanha de esconder esperanças, frustações e o rabo dos dias. Tudo havia sido terrivelmente rápido, incrivelmente aterrador. E era tudo tão sobrenatural. Estava-se, pelo menos, a uns três trilhões de anos-luz distante do que se podia considerar real.

TagorFashall, mil vezes por segundo, rememorava o que acabara de suceder. A cada vez que lembrava um novo detalhe se destacava. O por do sol, as crianças brincando no parque, nada daquilo cabia na sua cabeça. No momento sua mente totalmente se ocupava com o que acabara de suceder na casa de Dário. Aquele gato enorme, agigantado diante de si, ainda mais ao pegá-lo em flagrante. Seus imensos olhos acusadores lhe encarando, teve que agir, e agiu. Com a astúcia de uma cobra, cuidadosamente colocou o medalhão no chão. E como um lince partiu no encalço do felino que acabara de se tornar seu alvo e sua presa. O ódio, só ele é capaz de dotar um animal ameaçado, de qualquer espécie, de poderes estupendos. E aquele menino teve agilidade, astúcia e força nunca antes experimentada, pra alcançarnum salto descomunal o pobre e indefeso bichano. Assim que o teve entre as mãos torceu-lhe o pescoço. O estalo de vértebras se rompendo daria ainda pra se ouvir um pequeno grunhido e só, estava morto. Teve ainda sangue frio suficiente para pendurá-lo pela coleira, num galho dum pé de manga próximo ao muro que havia no fundo do quintal. Para dar ideia de que o infeliz tivesse acidentalmente se enforcado.

Os homens-répteis do espaço ainda não haviam conseguido o seu intento, de angariar todo ouro do subsolo da ilha, e que pretendiam levar pro seu planeta Urano. Resolveram então preencher o tempo fazendo um estudo aprofundado de como era a vida na terra. De modo particular na ilha. Começaram a catalogar os seres vivos ali existentes. Mais de mil espécies de pássaros foram registrados. Os tentilhões eram maioria. Cada um com suas características e particularidades: bico, plumagem, tipo de alimentação, reprodução. Acabaram descobrindo alguns que não eram da ilha, mas que migravam de muito longe até ali somente para se reproduzirem. Como a ilha possuía muitos rochedos nas encostas, os extraterrestres se divertiam com suas armas fantásticas produzindo esculturas gigantes de suas próprias cabeças. E os totens colossais na pedra lapidados eram levitados e colocados enfileirados na encosta da praia, como guardiões da ilha olhando pro alto mar. Os nativos reverenciavam um deus chamado de Tangata Manu que na língua local quer dizer “homem-pássaro”. Rezava uma lenda que num ano muito distante, houve uma grande erupção vulcânica do temido vulcão RanuKau. Uma profetiza por nome de Moto Nui, no mês de setembro daquele ano, foi até a praia, fazer orações para pedir aos deuses que se apiedasse do seu povo, e parasse de vomitar fogo sobre suas plantações, que providenciasse peixes pras armadilhas dos pescadores. E eis que naquele instante no céu apareceu um homem dotado de asas seguido de uma nuvem de pássaros. A um sinal do homem-pássaro as aves puseram centenas de ovos numa ilhota próxima, e foram embora. Isso foi a redenção dos nativos, tiveram muitos dias de alimento nutritivo com fartura. Desde então todos os anos os pássaros vinhama ilhota que passou a se chamar de Moto Nui.O chefe Zulu criou a festa do Tangata Manu que passaria a acontecer todo ano, no mês de setembro que culminava com uma competição. Sempre no início da primavera quando as andorinhas do mar vinham depositar seus ovos na ilhota de Moto Nui e voavam de volta para o continente. A competição era marcada por uma grande festa que tinha início na Vila Orongo, que ficava na beira da cratera do vulcão RanoKau. Cada clã selecionava um representante, um bravo guerreiro, que devia nadar até a ilhota de Moto Nui distando da ilha cerca de mil pés náuticos. Deviam encontrar e capturar um ovo de Andorinha do mar, nadar de volta, pelo lado sul da ilha,escalar o penhasco, e retornar a aldeia. O primeiro que chegasse trazendoum ovo de Andorinha do mar e o entregasse intacto ao rei Zulu, seria então nomeado “Tangata Manu”. Comdireito a escolher uma virgem pra se casar. E passaria a chefiar os guerreiros da tribo por um ano, até que houvesse a próxima competição. O vencedor recebia as graças e bênçãos de Iva-Atua a profetisa.

A briga do Tiranossauro rex e oCoendouprehensilis abalouas estruturas da caverna. Estrondos horrorosos davam pra se ouvir a quilômetros de distância. Pra piorar a situação, o míssil com a inscrição FASHALL, estava na iminência de explodir, caso as paredes do portal que ruíam caísse sobre ele. Tudo era possível naquele momento. Os amotinados se mobilizaram para colocar o artefato bélico longe do perigo. Tarefa nada fácil, pois mal conseguiam se firmarem em pé. Afinal dois seres ferozes travando uma luta mortal fazia toda a ilha tremer. E os tremores sacolejavam tudo, de um lado para o outro. TagorFashall e Antonieta chegaram ao portal. Marcos e Derick do alto de uma elevação observavam os acontecimentos.

Antonieta abriu o “Livro do Reinado de Azeroth” na página 364 continha as instruções de como montar um míssil, e nas páginas seguintes como desmontar. Incrível como um livro milenar contivesse instruções de como fazer e um foguete de guerra tão recentemente criado. Os escritos estavam em aramaico.Além do que se utilizava de vasta simbologia dando margem a interpretações dúbias.Faltava ainda esclarecer informações como o que era ou quem era o menino-gato? E quem seria o homem-pássaro? Seguindo as instruções do livro TagorFashall conseguiu decifrar parte do texto o que o levaria a esta conclusão:“Este é um míssil do tipo exocet, versão MM40 block I; Alcance 70km de distância, a uma velocidade de 1.100 km/h; possui ogiva a base de nêutons de 365 megatons de potência, pesando 165 kg só a ogiva; seu peso total é de 855kg; Comprimento 5,8m; Diâmetro: 0,35m; O sistema de guiamento e radar ativo.”

Pondo uma das mãos sobre o artefato TagorFashal fechou os olhos, e teve uma visão de como aquele míssil fora parar na ilha. Exatamente no dia 17 de maio de 1987, durante a guerra entre o Irã e o Iraque. O exército iraquiano no início do conflito em 1984, lançava mísseis de helicópteros modelo SuperFrelon. Tempos depois, do exército francês, arrendou cinco SuperÉtendard muito mais velozes e eficazes, com maior capacidade de ataque. Aquele fora um dos 1.350 mísseis lançados naquela guerra. Exatamente um dos que fora disparado contra a fragata USS Stark da Marinha dos Estados Unidos. Por um problema no sistema de acionamento não detonou. Não até aquele exato momento.

Fabio Campos 23 de junho de 2015 (Continua…)

Aviso do Autor: Daremos uma pausa nesta Saga TagorFashall (5ª Parte) voltaremos com a brevidade oportuna.

26 jun

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“EPIDEMIA” 4ª Parte Da Saga deTagorFashall

Ilustração: Fábio Campos

Ilustração: Fábio Campos

Lá estava Antonieta, sentada a um tronco decoqueiro, caído na preamar. Nas mãos um livro velho, de capa dura, revestida de pano. Cuja gravura ao centrotrazia o desenho duma ilha, com algumas construções suntuosas, cercada de floresta. Tudolimitado por um mar que cabia inteiro num imenso tacho,sustentado por três baleias. Enquanto dois elefantes, um de cada lado, atados por cordas as alças do tacho, puxavam em sentido contrário.Era o “The Book oftheAzerothReign”

Aquele livro continha a história da ilha e do tesouro perdido. De alguma forma TagorFashall e Marcos tinham que se encontrar. Era preciso. O menino que sempre aparecia no seu sonho, era provável que ele tivesse, mesmo sem saber, poder para descobrir o dispositivo que acessaria a sala do tesouro perdido da caverna. Ao ouvir os rumores que vinha do lado oposto da ilha, teve certeza que outra catástrofe se avizinhava. Com nitidez em relampejosvinham acontecimentos de mil anos antes. Viua formação da ilha quando ocorreu o cataclismo chamado de “O Grande Rompimento”, que provocaria a destruição da Fonte da Eternidade. O que acabaria dividindo a terra em quatro continentes. Separados pelo imenso oceano em cujo meio se situava a ilha de Kalimandor. A vinda dos estranhos seres do espaço, em suas carroças de aço. Cavalgando o ar sem tração de camelo ou elefantes. Apenas empurradas pelo hálito de Zeus. Tudo aquilo já havia sido previsto, pelo grande mago Fronzen do reino de Warcraft, escrevera no livro secreto, aquelas aparições que finalmente se tornaramreais. A grande peste negratambém profetizada constava do livro do rei. Dizia que o contato dos nativos com os estrangeiros que levitavam nas carruagens de lata causaria o surgimento de uma praga, uma peste que ceifaria a vida de todos os habitantes da ilha. Todos que tivessem qualquer tipo de contato com os alienígenas contrairiam a doença. E todo aquele que fossem por eles tocadosse transformavam em mortos-vivos. Zumbisdos aliens, totalmente dependentes, física e mentalmente.

Os homens mausfrequentavam a sociedade da corte, os salões dos palácios reais. Sem nunca se misturarem com gente da classe baixa,a plebe. Os únicos pobres que ainda mantinha contato com a nobrezaera a criadagem. Mesmo contra a vontadeporque precisavam dos serviços deles. Acreditavam que isolados do contato com a gente dos burgos e feudos jamais contrairiam a peste negra. Estavam,infelizmente, enganados. O objeto de maior desejo de uma criança de outros tempos era uma bicicleta. As mulheres com seus filhos e suas amas iam pros jardins de delícias do palácio. Ali havia enormes pomares, labirintos gigantes. Parques ornados de plantasde magnífica beleza, trazida de diversas partes do mundo. Aves exóticas de cantos maviosos, encerradas em gaiolas de fino requinte. Fontes de águas dançantes, cascatas de águas de cores diversas, diáfanas. Arco-íris que remedava o jardim do éden. Carroceis dotados de cavalos de verdade. Cavalos árabes, noruegueses,escandinavos, cujas patas maravilhosamentecoroadas de longos pelos negros. De crinas lustrosas, sensuais, femininas, sibilantes ao vento. A medida que o lastro redondo rodava, uma música de realejo suavemente deixava-se ouvir ese ouvia. Meninas com seus rostinhos ingênuos, rechonchudos. O excesso de guloseimas consumidassobrecarregavam seus lindos vestidos. E era como se estivessem sendo levadas para serem batizadas, tendo as amas que fazer de tudo pra mantê-las impecavelmente limpas. E como gostavam de passearem de gôndolas no imenso lago azul. Onde enormes cisnes e garças, que mais pareciam feitos de gesso, como de propósito,faziam poses para que o fotógrafo lambe-lambe pudesse compor melhor, a solene foto da família. Tudo seguindo rigidamente o tradicional modelo patriarcal. O pai ao centro, sentado convenientemente numa cadeira de vime pintada de branco com apoio pros braços, rodeado da sisuda prole. A matrona trazia o primogênitoao colo. Olhava com seu olhar sereno, de mulher que cumprira fielmente a função dada por Deus de procriar. Solícita posava, pelo marido, pelos filhos, pelo mundo, pra posteridade. Aquele olhar que disfarçava como podia a tristeza da difícil tarefa de ser o que era. Sem conseguir completamente esconder por cima das sobrancelhas arqueadas, um possível sorriso de Gioconda.

Naquele tempo, já os homens facínoras maquinavam contra o bem comum, contra suas próprias mulheres, contra si mesmos. Muitos foram os que foram dizimados pela peste negra. Uma doença misteriosa que bestializava as pessoas. Iniciava com uma febre persistente, avançava pra convulsões, alucinações, ataques de fúria. Os portadores acabavam de forma horrenda, apresentando pústulas. Por todo o corpo,feridas que secretavam líquido purulento e mal cheiroso. As carnes se diluindo como se o corpo estivesse derretendo. Dissolvendo sem que nada pudesse ser feito para reverter tal situação. Como se os doentes por um ácido terrivelmente destruidor estivessem sendo corroídos. Muitos, foram os quenão tiveram essa sorte, acabaram destroçados a dente, ou esmagados debaixo dos pés do terrível monstro surgido das profundas da terra. O grandedinossauro, o devastador, o tirano,“O sauro, o rex”.

Os homens malévolos descobriram que a disseminação de doenças era um achado. Todos saiam lucrando: donos de funerária, donos de boticários, alquimistas, vendedores de xaropes. De tudo fazia o governo para manter imunes, livres da moléstiaos que detinham título de poder,os da nobreza. Nas santas escrituras se amparava a igreja dizendo que os sinais dos fins dos tempos haviam chegado. Nessa época surgiram os remédios manipulados pelos curandeiros e magos. Oxarope Coca-Cola foi um deles, criado pelos ameríndios no sopé da cordilheira andina, em terras bolivianas. A América o receberia como um excelente tônico contra todos os tipos de males, a baixo custo. O placebo se popularizou, mundo afora se espalhou. Somente muitos anos depois assumiria ser o que sempre fora, um refrigerante. Mas sustentaria até os dias da atualidade o termo xarope. Aqueles acabaram descobrindo que inventar novas doenças era um bom negócio.

Um importante médico do Reino Unido Dr.Shadwell, em extenso artigo publicado no periódico “News London” declararia sobre o perigo das mulheres andarem de bicicleta. A matéria correu mundo causando grande polêmica. O médico advertia que “o ciclismo era um modismo que não devia ser incentivado, e principalmente evitado pelo sexo feminino, sob o risco de se tornar uma grave doença.” O sintoma era bem claro: a mulher que adquirisse o hábito de andar de bicicleta ficaria com a “Cara de bicicleta”. Outros médicos mundo afora sustentaram a tese do esculápio britânico. Outros sintomas da moléstia da bicicleta foram sendo acrescentados. Diziam que gerava insônia, cansaço, palpitações, dores de cabeça e problemas de depressão. O que de verdade havia nisso? Tudo não passava de jogo de poder entre sexos. De sentir o status social ameaçado. Preconceito machista contra mais uma conquista das mulheres. A bicicleta passaria a ser considerada mais uma arma contra a supremacia masculina. Fundamentada no patriarcado, de séculos de domínio. Sendo ameaçado agora por um brinquedo bobo de criança.

Derick, o gato siamês do país dos sonhos e da fantasia, disse a Marcos que já era tempo dele saber a verdade. Antes que o dia amanhecesse, antes que ele acordasse precisava contar. E contou:“Antes de vir parar na ilha do tesouro,TagorFashall vivia no mundo real, de onde você veio. Lá, ele ainda não havia sido árabe, nem tinha os poderes da longevidade, e da ciências ocultas queagoratem. Naquele tempo, não passava deum menino, chamado Reginaldo,e tinha um amigo chamado Dário. Nascidos e criados no sertão nordestino. Por toda infância foram muito amigos. O destino cuidaria de separá-los. Dário foi pro sul, fez um teste num time renomado, tornou-se jogador de futebol profissional. Ganhou muito dinheiro ficou famoso. Quanto a Reginaldo jamais saiu da cidade que nasceu e vivera. Toda uma vida de dificuldades viveu. Acabou se casando e continuou a viver, vidinha mansa de cidade de interior. Tornou-se vigilante de uma escola e criava galos de briga. Quanto a mim, nunca fui humano, sempre fui gato. Lá no mundo real, eu era o bicho de estimação de Dário. Foi na infância deles que o crime de TagorFashallocorreu. Os meninos estavam na casa de Dário. Eu vivia a última das minhas sete vidas. Dário pela mãe foi levado pra tomar banho, enquanto Reginaldo sozinho ficou brincando numa área coberta do quintal. Entre os brinquedos do amigoReginaldo acabou encontrando um medalhão dourado. Era um belo amuleto reluzente que o deixou fascinado. Resolveu apropriar-se do objeto. Quando ia meter a medalha no bolso, percebeu-me lhe encarando firmemente.”

Fabio Campos 16 de junho de 2015 (Continua…)

22 jun

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O Crime de TagorFashall – A Redenção (3ª Parte)

Ilustração: Fábio Campos

Ilustração: Fábio Campos

Um ser incrivelmente grande,e perigosamente destruidor, vinha vindo naquela direção. Eo menino Marcos, do nada surgido, no meio da floresta. De repente, um gato siamês passou correndo. Aquele gatoera Derick! Tinha certeza! Pela tonalidade do peloo reconheceu. A ponta das patas o focinho queimado. Debaixo do solàquela hora do dia. Ainda mais bela eacinzentada ficava sua pelagem. Gatos que já havia morrido, a sair correndo do meio da selva. Fugindo de algo que trazia medo. Normalmente isso só aconteciaem sonho. Certeza teve que sonhava.

A vila, e suas casas caiadas de branco. Aqui acolá, uma casa de outra cor. Azuis azulejados. Amarelos alaranjados, duramente de sol azougados. As ruaslargueadas, tão espaçosas a ponto de tornar nanico tudo que ficava do outro lado. E acabavam levando tudo pra outros tempos. Um tempo em que o estilo de vida era chamado de colonial, e os modos do povo, feudal. Homens carreando carros de boi. Deles que açoitavam tão violentamente os pobres animais que os patrulheirosda guarda florestal intervinham, e coibiam severamente os excessos. A roda de pau e ferro, cantadeira, ia carimbando o barro batido. Enfeitando o chão com o par de fitasmacarroneando a estrada. Entremeadas de conchinhas dos cascos bipartidos. E se esticando, esticando, pra onde só-quem-sabe-é-deus. Charretes puxadas à mula levavam e traziam senhores edamas belamente trajados. Elas,em vestidos de muitos laços, anáguas e babados. Eles, de ternos, gravatas borboletas, cartolas cobrindo longas madeixas. Lenços em tons pastéis, no bolso do peito. Bengalas nas mãos de luvas, e as pedras dos broches na lapelaflamejanteferiamos olhos dos passantes, as lentes dos óculos do barão. O brasão em latão, no alto do prédio do governo municipal. Os estribos da carruagem apoio pras botas lustrosas, dos sapatinhos forrados de fitilhos e sianinhas. Aodescer corriam a se proteger da poeira, da lama,e do sol. Sombreiros atrozmente sérios, armados com gestual excessivamente túrgido de polidez. As montanhas foram pra tão longe que os olhos marejavam de tristeza só de olhar. Pra onde levaram o rio? Lembrou do rio que passava por detrás das casas. Por que o sol mudara o lugar aonde ia se por? Rio temporárionaquele tempo não estava seco porque era inverno. Areal aboletado de cansanção, mancambira, facheiro, maniçoba. Os verdes vistosos mandacarus sabiavam Sabiás Laranjeiras. Colibris borboleteavam doidos pra se deleitar nos peitos cor púrpura. Espinhos longos, pontudos, sangrariam sem nenhum remorso a garganta, de qualquer tiziu, que se aventurasse sugar o néctar dos seus mamilos.

Um condado mexicano, de tanta brancura nas coisas que estavam no chão, ou pairando no ar, no céu azul, nas nuvens. Na taberna que TagorFashall bebeu vinho. No mundo dos sonhos ninguém tinha a menor ideia do que iria acontecer no momento seguinte. Derick era cinza, pertode meio dia ficava azulado, e totalmente negro de noite. Um apartamento cor de rosas vermelhas, encimado num primeiro andar. Em baixo ficava a garagem. Lamparinas pendidas do teto, em silêncio, àquela hora da matina, pra não acordar os pirilampos. Uma escada tão perpendicular, e tantos degraus, que se não tivesse cuidado levava Marcos até o portal que dava acesso a ilha. Para tanto,bastava chegar da escola dormindo. Já havia esquecido porem, ao ver novamente acabava lembrando. Aquela estrada que ninguém sabia de onde vinha, nem até onde ia dar. Aquela estrada que todo dia passava e levava um velho puxando uma mula, igualmente velha. Tinha agora mesmo que recomeçar. Mas por onde mesmo começar? Pelo livro que Antonieta lhe dera. Ele não demoraria a descobrir que aquele não era apenas um livro. Era um livro mágico.A mãe de Derick aproveitou quando Rafael Bertrand montado na sua motocicleta barulhenta entrou na garagem esorrateiramente entrou também. Ninguém sabia mas ela estava prenha e acabou tendo ali sete gatinhos acontece que deixou ali somente dois.

Chiclete e Bola de gude foi os nomes que Marcos colocou nos dos dois gatos naquela manhã antes de partir para a ilha do tesouro. Naquele exato momento Marcoscorreu e alcançou Derick e agora os dois conversavam na entrada da gruta do Santuário. Falavam do trovão e da parede que o grande dinossauro derrubou quando passou. Semelhante a destruição de um rio quando dava uma enchente. Destruiu todo o acampamento dos amotinados. MorionLucindo voltou pra vila, ÉmilePassion ao vê-lo desmaiou, seu velho pai voltara da terra dos mortos. Os aldeões iam na oficina só pra ver com seus próprios olhos. Morion somente na aparência parecia o mesmo, porque no agir era totalmente outra pessoa. Sobre o mundo dos mortos contou uma história:

O Grande Dinossauro atendendo um chamado dos alienígenas foi pras profundas da gruta para abrir com sua força um buraco até a sala do tesouro. Pra chegar até lá Arrastou o acampamento, destruiu tudo que via pela frente. Acontece que o dinossauro acabou encontrando um Quandú gigante hibernando dentro de sua toca. O Quandú acordou furioso e os dois se atracaram foi uma briga feia.

10 jun

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O CRIME DE TAGOR FASHALL – A Ilha(2ª Parte)

Ilustração (Fábio Campos)

Ilustração (Fábio Campos)

Tagor, e a praia. Tanto tinham pra descobrir um do outro. A faixa de terra, aos confins da terra indo. O cabelo de Antonieta gritava ao vento, almejando mesmo infindo mundo de areia. Os olhos, porem jamais alcançariam. Coqueiral feito pingente espetando o céu de longos palitos, marrons. Ostentação de buques, exuberância de palmas verdes. Cachos frutíferos de alvas polpas, dente de leite, de caldo salubre. Embora não parecesse, havia civilidade, havia vestes de bordados, vestes de muito esmero. Seu perfume tinha um quê de selvagem. Fio de fina poeira, batizando de sal, e de sol, o dia. O mar declamando poesia ao vento de barcos e jangadas, que nunca atracavam. O mar, recitando versos, de marinheiros que jamais pisaram terra firme. O mar, de piratas e corsários que viviam buscando tesouros perdidos. Tesouros guardados por espíritos de gente morrida de morte atormentada. E não satisfeitas, nem conformadas com a partida adiantada, jamais aceitariam que viessem buscar o que sempre lhes pertencera.

Os meninos das bicicletas. Do nada, se perceberam que velhos estariam ficando. Cinco, sete e nove anos tinham, quando se deram conta disso. E quedaram de tristeza, ao descobrirem que os velhos eram pessoas tristes. E desejaram do fundo de suas almas jamais ficarem grandes, e velhos. E ter que assumir destinos que fizesse com que ficassem distantes uns dos outros. E nunca mais se veriam, não como antes. Por ocasião das festas do padroeiro da vila, quando tivessem oportunidade, ao se verem, disfarçariam, baixariam a cabeça, olhariam pro lado contrário. E tristemente seguiriam seus pobres caminhos. Sem o menor escrúpulo a sepultarem meninos vivos. Por asfixia morreriam seus pobres coraçõezinhos. Aqueles meninos precisavam conhecer TagorFashall. Com ele buscariam o que mais queriam, o segredo para chegar a ilha da eternidade. Onde eternamente meninos brincavam na praça. Onde eternamente seria o para sempre de suas vidas. Marcos, João e Lucas iam pra escola. Lucas estudava em duas escolas. Uma na vila, e outra que ficava num lugar além do que permitia seu entendimento. Nenhuma ficava perto de sua casa. Tão distante que ele pensava que talvez não existisse, porque tinha que acordar muito cedo e saía de casa praticamente dormindo. Escovava os dentes dormindo, tomava café dormindo, entrava no ônibus dormindo. E sonhava que estava indo. Por isso considerava que uma escola era de verdade e a outra só existia em um mundo onde não havia homens, nem velhos. Somente meninos sagazes como TagorFashall.

Um bando de facínoras avançava pela praia. Não viam os meninos, os meninos no entanto os viam, dentro dos seus sonhos. Naquele entardecer da cor de sangue, de olhares aflitos, com vigor avançavam os homens ferozes. TagorFashall também os via. Dispostos a lutar, até a mortelutariam. Ainda que pela sétima morte consecutiva, lutariam. Contra os espíritos guardiões de segredos, de ricos tesouros, de sonhos de aventureiros, escondidos. Sonhos possuidores de forma e luz, não muito bem definidas. E era tanto brilho que punham-nos cegos, cegos de furor e ambição. Tagor e Antonieta estavam lá. E porque se ocultaram não foram vistos. Muito perto de descobrir o mistério do terrível monumento. A estátua de MutunoTutuno. Para não se tornar prisioneiro eterno da caverna, o segredo era não encarar o tontem talhado na pedra, no interior da caverna. Ele estava lá no meio da floresta, da ilha que abrigava suntuosa riqueza em ouro puro! Ao ficar de frente a estátua do bisão de bronze empinando as patas dianteiras o pênis ereto. Nenhuma mulher devia fixar os olhos, nos olhos de pedras de jaspe do deus MutunoTutuno pra não ser por ele enfeitiçadas. As virgens que pretendiam se casar, naquele ano, tinham que passar pelo ritual pré-nupcial. Sob uma espécie de transe, eram obrigadas a serem desvirginadas fazendo sexo com a estátua de MutunoTutuno.

Tagor sabia que em algum lugar daquele altar de sacrifícios, havia um dispositivo escondido. E que ao ser tocado abriria o portal que daria acesso à sala do tesouro milenar. Ele viu em sonho, era uma montanha de peças em ouro fundido. Pertences reais, de toda dinastia de imperadores Inca. Urnas mortuárias guardavam cabeças de nativos mumificadas, ossos de animais selvagens, carcaças de javalis, entre os caninos exibiam ossos humanos. Estendidos feito varais um hieróglifo feito de cordéis enlaçados, narrava uma epopeia de luta entre desbravadores e nativos, acontecido a dois mil anos antes daqueles dias. A gênesis de tudo, dos povos andinos. A narração em versos encerrava porem um código de acesso. Era preciso traduzir a narrativa escrita num dialeto Inca, depois juntar as quintas letras de cada palavra, uma mensagem seria decodificada, que revelaria onde se encontrava o tesouro encantado. Uma maldição porem, cairia sobre aquele que na tentativa de decifrar, falhasse um sinal sequer que fosse. Imediatamente entraria num processo de decomposição, e mumificação. Maldito tesouro encantado! Não fora a civilização que escondera o mistério como muitos acreditavam que fosse. Tagor temia apenas uma coisa, que os alienígenas encontrassem primeiro que ele o precioso relicário, do vil metal.

O bando acabou chegando à entrada da caverna. Não sabiam, mas a trilha que seguiam levaria a um imenso vão que parecia uma espécie de estaleiro, e laboratório. Aonde seres alienígenas realizavam pesquisas. Tagor a beira dum regaço, viu o interior da caverna se refletindo no espelho d’água. Viu MorionLucindo trabalhando junto com os alienígenas. Entendeu que os homens do espaço o trouxera da terra dos mortos, porque tinha conhecimentos sobre metais. Além do que leram em sua mente a história do tesouro. Nem todos os motinados haviam entrado na caverna. Deles que ficara montando vigília num acampamento próximo a entrada da gruta. Os que haviam entrado, secretamente espiavam os extraterrestres, que realizavam estudos em cadáveres de nativos. O calor, o mau cheiro dos seus corpos, acabaria denunciando a presença dos intrusos. Não teve como não haver luta. Uma luta desigual, desumana. Pobres amotinados atacaram com o que tinham espadas, adagas, porretes. Enquanto que seus adversários, possuíam armas poderosíssimas, capazes de desintegrar um homem em milésimo de segundos.

O primeiro encontro de Tagor e Antonieta foi a coisa mais linda que o mundo um dia pode presenciar. Por um bom tempo permaneceram calados, enlaçados. Como se dois corpos fosse um só. Pareceu o momento da Criação. Primeiro homem, primeira mulher, por Deus, na areia da praia moldados. A pele granulada de quartzo e frio, ainda guardava o cheiro, como de sabonete Alma de Flores depois do banho. O perfume passeando sobre as unhas, de dedos longos exploravam vastos e perfeitos montes dos seus corpos. Narinas e pupilas dilatadas. Nada, nada daquilo tinha de comum. Suas roupas largadas, pacientemente esperavam. Os cílios intumescidos, molhados de amor. Olhavam pro alto mar, sem precisar de resposta alguma. Até porque não queriam, nada mais interessava. A bela moça não era mais menina, não era mais criança. Nunca, jamais fora.

A grande máquina dos homúnculos do espaço, através do ouro como matéria prima, produziria um elemento químico que seria útil no planeta Urano donde vieram. Pelo menos dois mil anos-luz distando da terra. Tinham que levar pra seu planeta todo ouro que encontrassem no subsolo da terra. Os Uranianos tinham a aparência, um misto de gente e de répteis gigantes. Mediam cerca de dois metros de altura, e suas mãos e braços se alongavam feito línguas de sapo, sempre que quisessem. A máquina de fabricar Megano ficava bem no centro da gruta. Dotada de centenas de painéis com luzes piscando, braços mecânicos, piças biônicas, roldanas cibernéticas, e coroas dentadas. Uma luz de cor verde emitida como um raio quase invisível subia até o firmamento. Um elo de ligação com uma nave-mãe, suspensa muito acima da extratosfera. O bando que ficara na entrada da gruta, nada sabia do combate em que seus companheiros se envolvera, e que foram praticamente dizimados. Sob a luz da lua realizava o ritual do milho, uma dança de agradecimento ao deus Zea May, faziam uso de plantas alucinógena. Também mastigavam a folha cujo sumo provocava uma dormência na boca e tinham visões fantasmagóricas.

O menino Marcos, o que tinha cinco anos, de repente estava lá. Bem no meio da selva, sozinho. Como tinha ido parar lá sinceramente não sabia. Certeza não tinha se era tudo real, ou se se tratava de sonho, a caminho da escola, no banco do ônibus escolar dormia. Marcos, já conseguia ler as primeiras palavras, e leu: “F.A.S.HALL” no bojo metálico do míssil que jazia no início da escadaria do templo. Na verdade uma sigla, que significava: “Tudo pela Força Aérea da Sérvia” O míssil, o templo, a ilha, o que de real havia naquilo tudo, além dele? Uma coisa entendia precisava encontrar Tagor. Pensou que o melhor que fazia era fechar os olhos, e voltar pra dentro do seu sonho de verdade. E claro, torcer pra não mais acordar naquele lugar. Algo gigantesco que provocava tremores compassados no chão se aproximava. Monstruosos o suficiente para destroçar árvores enormes com facilidade espantosa. A muito, encontrar um dinossauro, era tudo o que mais queria. Jamais considerando, no entanto, aquele, lugar, nem momento, pra que isso acontecesse. É sempre assim, quanto mais uma coisa negamos, mais o universo conspira pra que aconteça.

Fabio Campos 02 de Junho de 2015. (Aguarde, Continua…)