12 dez

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A VIOLÊNCIA DO PILAR

Pilar (Foto: Valderi Melo)

É de se ficar de boca aberta com as notícias de violência ocorridas no município de Pilar, região metropolitana de Maceió. Isso vem ocorrendo há cerca de dois anos quando a cidade lacustre começou a chamar atenção dos órgãos noticiosos, sobre diversos assassinatos. Outrora cidade pacata, bela e acolhedora, sempre mostrou ao visitante suas belezas naturais baseadas na laguna Manguaba, cujo nome também já foi denominação do núcleo.

Hoje o Pilar tem pouco mais de 30.000 habitantes e já foi ilustre na economia alagoana com seus engenhos de cana-de-açúcar e um indispensável  sistema aquático de transporte para o porto de Maceió, além de sediar fábrica de tecidos. O município é originário de o Engenho Pilar, um dos que povoaram as suas terras. Vale dizer que na hidrografia, a laguna Manguaba foi formada e continua sendo alimentada por um dos dois rios mais importantes de Alagoas: o rio Paraíba do Meio. A cidade do Pilar também ficou famosa na gastronomia, pelas suas peixadas de bagres, conhecidos como bagres do Pilar.

E se formos diretamente para a história brasileira, iremos encontrar na terra da Padroeira, Nossa Senhora do Pilar, o último ato oficial de enforcamento no Brasil.

Ainda temos a história da padroeira que possui duas versões. Uma delas diz que a santa foi encontrada em um pilar, por um pescador. Levada para uma capela, a santa desapareceu de lá e voltou para o pilar. O fato teria acontecido por algumas vezes. Outra versão fala que a santa teria vindo da Espanha.

Pois aí está um município repleto de histórias desde que Alagoas pertencia a Pernambuco. Os estudiosos pesquisam nas ruínas de engenhos em seu território. As rodovias modernas engoliram muita tradição do Pilar que perdeu a importância antiga dos transportes aquáticos. Sem engenho, sem fábrica de tecidos, a cidade tem muito que contar a quem quiser se debruçar sobre seu passado.

Mas a violência que se tornou notícia constante pode afugentar os que procuravam o lugar como opção de lazer.

A propósito, Pilar já foi tema de música de alguns compositores alagoanos. Qualquer dia irei buscar na cidade uma foto da foz do rio Paraíba do Meio que ficou faltando para o livro “Repensando a Geografia de Alagoas”.

Clerisvaldo B. Chagas, 12 de dezembro de 2017

Crônica 1.780 – Escritor Símbolo do Sertão Alagoano

11 dez

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SERTÃO CERCADO

Cerca na Caatinga (Foto: Sergio Campos / Alagoas na Net)

Esperamos que as informações abaixo sejam bastante úteis aos que pesquisam sobre Agricultura, Pecuária e o semiárido em geral. Não sabemos sobre os sertões de todos os estados nordestinos, mas em solo alagoano, tivemos cinco fases de proteção das terras da caatinga. 

A primeira fase, não mostrava nenhum tipo de cercas nas propriedades rurais, grandes ou pequenas. No tempo do cangaço a caatinga ainda se encontrava completamente aberta. Mas vale salientar que ainda hoje em grande parte dos estados nordestinos, encontramos imensas extensões de terras abertas.

A segunda fase teve início em Alagoas com as cercas de arame farpado e estacas de madeira da própria caatinga, em um só tamanho. Foi grande a novidade para o sertanejo, trazida pelo agrônomo Otávio Cabral de Vasconcelos, em 1924. Com a cerca veio o arado de aiveca, o fomento do algodão e outras novidades que fizeram a revolução no campo.

De Alagoas, Santana do Ipanema, a novidade alastrou-se para Pernambuco, através de Águas Belas, ganhando outros estados nordestinos. O doutor Otávio Cabral, com ampla passagem pelos Estados Unidos, chegou até ser prefeito/interventor de Santana do Ipanema em 1932, por alguns dias ou meses. Foi assassinado no Sítio Sementeira, estação agrícola experimental do governo (O Boi, a Bota e a Batina, história completa de Santana do Ipanema).

A terceira fase, década de 1960, foi a de grande desmatamento da caatinga, inclusive, financiada pelo governo. O sertão pelado, então, preencheu os limites das propriedades já cercadas com estacas e arame ou não, com uma planta chamada aveloz ou labirinto, trazida não se sabe de onde.

O aveloz virou moda e o sertão alagoano fechou-se com ela, fazendo com que nas longas estradas não fossem vistas mais as fazendas, somente os longos túneis de labirinto que se formavam pelo plantio em ambos os lados das estradas e se tocavam no alto.

Nativo da África, o aveloz é um arbusto que produz uma seiva tóxica e cáustica, capaz de cegar. Seu nome científico é Euphorbia tirucalli (hoje pesquisada contra o câncer e para fabrico de cola). Os seus aparadores usavam máscaras, nos sertões.

A quarta fase, foi a retirada gradativa dos aveloz das cercas, limpando o horizonte das paisagens rurais. Voltamos apenas para as estacas de madeira e arame farpado.

Finalmente a quinta fase do Sertão Cercado, estar utilizando cercas de arame com farpas, mas com estacas de cimento. Isso devido à falta de estacas de madeira de boa qualidade e das leis ambientais.

Mesmo assim, encontramos ainda o uso de estaca de madeira e áreas de terras que nunca viram uma cerca de espécie algumas.

Esse é o meu Sertão Guerreiro.

Clerisvaldo B. Chagas, 11 de dezembro de 2017

Crônica 1.799 – Escritor Símbolo do Sertão Alagoano

08 dez

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A BORRACHA E OS PNEUS

ESTÁTUA AO SERINGUEIRO. BELTERRA (PA) (Foto: Rodrigo Bertolloto)

O recolhimento de pneus velhos nas cidades, por parte do governo estadual, é digno de louvor. Além de o pneu ser pesadão, serve bem para o mosquito da dengue, entulho e lixo e, praticamente, para nada mais. Entretanto, ainda não entendemos se o recolhimento acontece em todas as cidades alagoanas e se existe um calendário para isso. O pneu velho tornou-se matéria-prima importante para pavimentação.

E por falar em pneu, lembremos os primórdios da borracha no Brasil. Foi a partir dos meados do século XIX que teve início na região Amazônica a extração do látex, matéria-prima para a produção de borracha. A seringueira, árvore da qual se extrai o látex, passou a ser alvo dos exploradores.

O ciclo da borracha no Brasil estava ligado à necessidade de produção para os mercados internacionais. Na época estava sendo iniciada a indústria de pneus e de automóveis norte-americana e europeia.

A extração do látex trouxe grandes mudanças econômicas e sociais. Inúmeros nordestinos migraram para a Amazônia para o trabalho da borracha. As secas prolongadas no Nordeste e as promessas sobre o látex atraíram famílias inteiras para a região da Floresta Equatorial.

O chamado ciclo da borracha teve seu declínio com a exploração de florestas do sudeste da Ásia que tomaram o lugar do Brasil na produção. Muitas famílias retornaram às origens, outras permaneceram no lugar. Modernamente várias comunidades, empresas e órgãos governamentais atuam na Amazônia de acordo com os princípios de desenvolvimento sustentável.

 O apresentado refresca um pouco a memória da história brasileira da borracha, o valor dos pneus, o descarte correto por um órgão credenciado de recolhimento e destino das carcaças.

Estamos ainda atrasados e sem opções no recolhimento não só de pneus, mas também de pilhas e lâmpadas queimadas. O nosso município sempre anda a reboque das medidas ambientais de proteção à Natureza.

Pelo menos, abrem-se os olhos.

Clerisvaldo B. Chagas, 8 de dezembro de 2017

Crônica 1.798 – Escritor Símbolo de Santana do Ipanema

07 dez

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O “BOOM” DA LAGOA DO JUNCO

Vista para a Lagoa do Junco (Foto: Lucas Malta / Alagoas na Net / Arquivo)

Nas irregularidades do relevo, surgiram na parte mais elevada, algumas casas que se foram emendando e formado uma rua. No fundo esquisito do terreno, a lagoa temporária repleta de juncos. Foi assim que surgiu o bairro ainda não reconhecido como tal, Lagoa do Junco.

Os juncais que havia em Santana, surgiam também, naturalmente, no rio Ipanema. Na época o junco servia de matéria-prima para o fabrico de colchões, muito antes da chegada dos colchões de mola e de espuma. Havia na cidade três ou quatro fabriquetas de colchões de juncos, inclusive, a do Júlio Pezunho, à Rua Antônio Tavares.

Mas o interessante é que os humildes habitantes do início da Lagoa do Junco, não fabricavam colchões. Parte dos homens trabalhava fora em profissões subalternas. Das mulheres saíram muitas empregadas domésticas para as casas do pessoal do centro. O homem que não trabalhava fora virava quebrador de pedras para calçamento de ruas.  

Assim, o lugar ficou conhecido pelos quebradores de pedra. A expansão do pequeno núcleo se deu para o lado esquerdo em direção ao açude do Bode e, outra parte, subiu o morro (único de Santana, habitado) à custa deles mesmo até chegar ao topo e prosseguir em linha reta pela lombada em direção leste.

Pouquíssimas pessoas do centro de Santana conhece a subida e as ruas que se formaram no cimo do morro do Quebra-Pedra. É um cenário muito bonito, mas como já falamos antes, nenhum mirante santanense é explorado ou divulgado.

Em nosso livro, “O Boi, a Bota e a Batina, história completa de Santana do Ipanema”, falamos do riacho sem nome que sai da Lagoa do Junco, atravessa a BR-316, durante o inverno, e vai despejar no rio Ipanema, no lugar Maniçoba.

Atualmente, o lugar inteiro estar ganhando calçamento, coisa que assanha danadamente os caçadores de votos. Toda a região abaixo do Bairro São Vicente, chamamos Lagoa do Junco, muito embora a parte da UNEAL e Batalhão de Polícia seja chamada ainda por alguns antigos moradores de Bairro Bebedouro, que antes era completamente longe, ligado à BR-316, apenas por um corredor de aveloz.

A parte antiga da Lagoa do Junco ganha calçamento e, a parte nova, loteada, vai se sofisticando com UNEAL, Escola Piloto, Batalhão de Polícia, Complexo da Justiça, fábricas e casas comerciais em estilos modernos, que ajudam no embelezamento do bairro e da saída da cidade com direção a Maceió. Esperamos que o nome Lagoa do Junco seja conservado com a tradição e não mudado em nome de qualquer um.

Enquanto isso o povoado AREIAS BRANCAS, recebe tremenda injustiça de ser chamado AREIA BRANCA, coisa fictícia de quem não teve o que fazer, pois. “O Boi, a Bota e a Batina,…” traz a história profunda e bem pesquisada de AREIAS BRANCAS e de Dois Riachos.  NADA DE AREIA BRANCA, NADA, NÃO EXISTE. Apelamos para o Departamento de Cultura para corrigir a ABERRAÇÃO. Você sabe como surgiu o nome do povoado Óleo? Temos o seu histórico.

Clerisvaldo B. Chagas, 7 de dezembro de 2017

Crônica 1.797 – Escritor Símbolo do Sertão Alagoano

06 dez

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O MUSEU THÉO BRANDÃO

 

Museu Theo Brandão (Foto: Setur / Arquivo)

Hoje vamos abrir espaço sobre o Museu Théo Brandão, situado na Avenida da Paz, em Maceió. O seu nome é uma homenagem ao grande folclorista do município de Viçosa, Zona da Mata de Alagoas.

“O prédio do Museu Théo Brandão não foi construído para ser uma instituição museológica, mas para servir de residência, em época em que a Avenida da Paz era preferida pelas tradicionais famílias alagoanas. Entre o Centro e Jaraguá, sua localização facilitava o acesso ao comércio atacadista e varejista, sendo ponto preferido pelos comerciantes para fixarem residência, até o início do século passado.

O primeiro proprietário, Eduardo Ferreira Santos, construiu o imóvel na década de 1930 e, em seguida, o vendeu a Artur Machado, que logo cuidou de reformá-lo. Sua arquitetura eclética teve a decoração acrescida de novos elementos por dois esmerados artesãos portugueses. Provavelmente, foi dessa época o acréscimo das varandas encimadas por cúpula de inspiração mourisca que deram uma nova e sofisticada feição ao prédio. Logo a residência passou a ser conhecida por Palacete dos Machado.

Depois de outras ocupações, o imóvel foi adquirido pela Universidade Federal de Alagoas (Ufal) para servir de residência universitária feminina e, em seguida, sede do Museu Théo Brandão de Antropologia e Folclore, reunindo expressivo acervo da cultura popular nordestina.

A mais recente restauração, concluída em 2001, recuperou parte da decoração da fachada, da pintura original da entrada e as grades que contornavam o pátio, perdidas em reformas anteriores, foram recompostas, fazendo alusão à tipologia do museu, com desenho de motivos folclóricos concebidos pelo artista plástico Getúlio Mota.

Como a edificação, em suas diversas ocupações, perdera algumas divisórias e características ornamentais no interior, a montagem do circuito privilegiou principalmente as peças em exposição, com uma instalação atraente, rica em cores, fotografias e informações”.

Clerisvaldo B. Chagas, 6 de dezembro de 2017

Crônica 1.796 – Escritor Símbolo do Sertão Alagoano

05 dez

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GRANIZO, PREJUÍZO E FESTA

Foto: Paulo Pinto / Fotos Públicas

Como o granizo voltou à moda no Brasil, ultimamente, vamos ver um pouco sobre ele. Sua definição tem algumas variedades, mas tudo dentro do mesmo fenômeno atmosférico. Vejamos uma das dezenas de definições. Granizo é a forma de precipitação que consiste na queda de pedaços de gelo. Conforme o lugar se diz: chuva de pedra, granizo, chuva de gelo.

Esses glóbulos de água congelada podem medir entre 5 e 200 milímetros. Existe certa diferença oficial sobre tamanho e denominação, mas não vamos cansar o leitor com as inúmeras minúcias dos institutos meteorológicos. Normalmente o granizo se origina de nuvens denominadas convectivas (que se formam verticalmente) como cumulo/nimbus.

Granizo pode causar danos, principalmente para automóveis, aeronaves, telhados e até mesmo em quengo de gente. Nos sertões do Nordeste esse fenômeno chamado chuva de pedras, não é tão raro assim. De vez em quando nos deparamos com ele, principalmente, em tempos de trovoadas, novembro, dezembro e janeiro. Então, podemos dizer que já estamos no período dessas ocorrências.

Durante as famigeradas trovoadas sertanejas, o tempo se fecha com nuvens muito escuras, causa alegria às pessoas, mas também muita apreensão. As chuvas são rápidas, mas ligeiras e encorpadas seguidas de relâmpagos pavorosos e trovões terrificantes. Aqui acolá o também chamado “toró”, pode trazer as não descartáveis pedras de gelo. Mesmo assim nunca tivemos notícias de estragos feitos pelo granizo, em nossa região e que sempre foram à diversão da meninada após a sua queda.

As comparações dos tamanhos dos glóbulos de gelo, feitas pelo povo, são as mesmas em todos os lugares do país: “do tamanho de um ovo de galinha; de uma ervilha; de um caroço de feijão…”. Porém, quando as pedras de granizo excedem 13 mm de diâmetro, pode danificar seriamente os aviões. E se esse granizo se acumula no chão, também pode ser perigoso para o pouso das aeronaves. Numa região onde uma chuva de granizo é muito forte, pode danificar seriamente plantações como trigo, milho e fumo que são mais sensíveis a esse tipo de fenômeno.

É interessante o estudo do granizo que daria páginas e páginas de detalhes. Aqui no nosso Sertão alagoano, após o festival de pancadas diferentes nas biqueiras, nós, os meninos, íamos apanhar as pedras, comparar os diâmetros e chupá-las gostosamente “que nem” picolés.

Clerisvaldo B. Chagas, 5 de dezembro de 2017

Crônica 1.795 – Escritor Símbolo do Sertão Alagoano

04 dez

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RONINHO E SUAS ARTES NA ARTE

Foto: Reprodução

Artesão é aquele que trabalha com artesanato. Artesanato, por sua vez, é uma técnica manual utilizada para produzir objetos feitos a partir de matéria-prima natural. Normalmente os artesanatos são confeccionados por famílias ou por um só indivíduo, dentro de sua própria casa em uma pequena oficina. A técnica é praticada desde o período antigo denominado Neolítico, quando o homem polia as pedras para utensílios. O artesão é considerado um artista, pois seus produtos são verdadeiras obras de arte. A valorização comercial do artesanato é coisa ainda recente, desde que os europeus descobriram e mostraram interesse pelos trabalhos artesanais do nosso país. Foi assim com o valor nutricional da rapadura e da chamada Literatura de Cordel.

Em Santana do Ipanema existem exímios artesão que trabalham com as mais diferentes matérias como: madeira, ferro, zinco, tecido, palha, couro, osso, sola, vidro, barro, além de outros. Ultimamente está em evidência o artesão Roninho, morador do Bairro São José, cuja oficina tomou o espaço do antigo Bar do Bacurau, que foi ponto de encontro de literatos, músicos, cantores, cineastas, artesãos e desenhistas. Fiz uma visita de cortesia ao amigo Roninho, especialista na arte de produzir cenas do Nordeste seco na pobreza dos sertões, com ênfase em figuras de cangaceiros. O artista deixou um pouco de lado, as pinturas em tela e passou a trabalhar também reproduzindo figuras do cangaço em ferro, pesquisando, descobrindo e criando técnicas próprias dessas peças de variados tamanhos.

Há muito podemos classificar o artesão de mestre. O seu trabalho ganha fama por todos os lugares e o mestre também é chamado para reproduzir até casa de taipa e restaurar estátuas de vias públicas e de santos de oratórios caseiros. Roninho atua bem na região de Piranhas onde os turistas se encantam com o seu trabalho, compram e fazem encomendas. Roninho conquistou o seu espaço, atua em todo o estado de Alagoas e, atualmente no Sertão tornou-se estrela de primeira grandeza no que produz. Agora está fazendo, ainda, peças em ferro de caricaturas de pessoas famosas, sob encomendas.

Esse é o único trabalho que eu não quero que ele faça para mim. Nem de graça. Santana do Ipanema acha-se de parabéns pelo talento seco do MESTRE RONINHO.

Clerisvaldo B. Chagas, 4 de dezembro de 2017

Crônica 1.794 – Escritor Símbolo do Sertão Alagoano

01 dez

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 GRÊMIO E O MIOLO DE POTE

Foto: Grêmio / Twitter / Reprodução

Como toda cidade do interior às vésperas de um grande jogo, as conversas não giram em torno de outra coisa. Quem gosta ou quem não gosta de futebol, se submete àquelas conversas compridas e muitas vezes enjoadas sobre a partida. E foi assim no bairro da cidade onde durante algumas compras tive que aguentar todo aquele miolo de pote dos interessados.

Até o dono do estabelecimento entra no assunto sem fim que se estica, descamba e rende que só a beleza! Afinal também não é um joguinho qualquer, mas a decisão da Libertadores que agita fortemente o mundo esportivo. E então, o homem me pergunta se “o senhor acredita na vitória do Grêmio?”. E eu respondo que se o Lanú jogar bem em sua casa como jogou em Porto Alegre fica difícil à vitória dos gaúchos.

E quando a gente está em meio aos fanáticos, ou se junta a eles ou sai driblando como Garrincha. E assim vamos dizendo que cada jogo é um jogo, para convencer e escapulir. Mas saio pensando comigo mesmo que o Grêmio só poderá se sair bem se jogar um rigoroso 4-4-2 para não deixar o adversário se articular. Mesmo não indo muito fundo ao campo da bola, sustento a minha teoria até a chegada do jogo e repetindo que a tática dita é a única oportunidade.

E para surpresa deste simples amador, o Grêmio entrou claramente com o sistema 4-4-2, não deixando o Lanús se articular, irritando o time da casa. Mesmo assim eu ainda me perguntava se o Grêmio não cansaria logo e abandonaria o esquema. Mas houve muita raça gremista (coisa que de fato eu não esperava) e o time fez um primeiro tempo digno da Seleção Brasileira com Tite.

A vitória do Grêmio foi a vitória do Brasil: grande, insofismável e inesquecível. Outras coisas nos impressionaram como a boa arbitragem, a derrota do Lanús sem muita violência e o comportamento decente e educado da plateia argentina decepcionada. Acho que depois deste meu palpite acertado quanto ao esquema de jogo, quando sair por aí posso até me juntar a eles naquela baboseira de miolo de pote.

Clerisvaldo B. Chagas, 1 de dezembro de 2017

Crônica 1.793 – Escritor Símbolo do Sertão Alagoano

30 nov

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O DRAMA VENEZUELANO

Foto: Valéria Oliveira / G1

Enquanto prossegue os absurdos na Venezuela, população de vários recantos daquele país tenta escapar da fome, da violência e do desemprego. Muitos batem às portas do Brasil e em outras nações vizinhas, numa fuga em massa das suas origens. Na cidade de Pacaraima, em Roraima, 240 índios são abrigados e alimentados pela organização Fraternidade e Agência da ONU para refugiados. Mas enquanto instituições particulares sociais tentam fazer alguma coisa pelos nossos vizinhos irmãos, o governo brasileiro parece ignorar o drama também em território brasileiro.  E lá em Pacaraima, por exemplo, o lugar planejado para 200 índios, é ocupado por 240. 

Fluxos de refugiados vão chegando por vários lugares do Norte e ficam perambulando pelas ruas como mendigos, pois nem todas as cidades e lugarejos estão preparados para recebê-los. Dizem que Roraima recebeu mais de 11.000 pedidos de refúgios o que compreendemos como pedidos provisórios. Ninguém quer ser refugiado eternamente. Mas é preciso, pela irmandade do mundo, uma condição mínima em receber aqueles tangidos pela adversidade. Os que chegam trazem a família com filhos menores, situação que agrava a imigração. A estimativa é que 30.000 mil venezuelanos já entraram em Roraima. Lá mesmo na cidade de Pacaraima, os 240 índios serão enviados para Manaus e o lugar ficará vago para receber outros imigrantes.

A Venezuela, oficialmente República Bolivariana da Venezuela, é um país da América localizado na parte norte da América do Sul, constituída por um continente e um grande número de pequenas ilhas no Mar do Caribe. Sua maior aglomeração urbana é a cidade de Caracas, onde conflitos internos acontecem todos os dias. A sede ditatorial de Maduro não assegura a ordem em seu território e os seus cidadãos se dividem em resistência, fugas ou acomodamento. E quando as forças armadas resolvem apoiar um ditador, o país permanece com futuro incerto.

Esperamos mais compreensão do governo brasileiro em relação aos refugiados, para recebê-los dignamente e encaminhá-los para o trabalho com uma assistência decente e latina. Aliás, a fraternidade entre os povos parece ser um dos objetivos das inúmeras religiões do mundo.

Clerisvaldo B. Chagas, 30 de novembro de 2017

Crônica 1.792 – Escritor Símbolo do Sertão Alagoano

29 nov

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A LENDA DE JURATAÍ

Floresta Amazônica (Foto: Sidney Oliveira / Agência Pará / Fotos Públicas)

“Muito tempo atrás, no fundo da floresta Amazônica, havia um pássaro chamado Jurutaí. Uma noite Jurutaí olhou para cima, através do ar quente, e viu a Lua. Ela estava completamente redonda. A luz prateada brilhou sobre a face de Jurutaí com se a Lua estivesse se esticando para tocá-lo. E Jurutaí se apaixonou.

Jurataí se apaixonou pela Lua e quis ir até onde ela estava. Assim voou até o topo da árvore mais alta que podia ver. Mas a Lua ainda estava longe. Ele voou até o cume de uma montanha. Mas a Lua ainda estava longe. Então ele voou até o céu. Jurutaí bateu as asas, subindo, subindo até o ar ficar rarefeito. Mas a lua estava muito longe.

O pássaro continuou voando para cima até as asas doerem, os olhos arderem e parecer que cada respiração só enchia seus pulmões de vazio. Queria prosseguir, mas era muito difícil. A força de suas asas chegou ao fim e de repente ele começou a cair. Rodopiava, através do ar negro, e batia asas céu abaixo.

Ele caiu de volta nas folhas úmidas e perfumadas das árvores. E se empoleirou ali, piscando ofegante para a Lua. Ela estava distante demais para que ele a alcançasse. Assim, tudo o que Jurutaí podia fazer era cantar para ela.  Ele cantou a mais bela canção que pôde. Uma canção cheia de tristeza e amor, que se espalhou pela floresta.

A lua olhou para baixo, mas não respondeu. E lágrimas encheram os olhos de Jurutaí. Suas lágrimas rolaram pelo chão da floresta. Encheram vales e escorreram em direção ao mar. E dizem que foi assim que o rio Amazonas surgiu.

Ainda existe um pássaro que se chama Jurutaí que vive na floresta Amazônica, hoje em dia. Às vezes, na lua cheia, ele olha para o céu e canta. E ouvi falar de povos indígenas que acendem fogueiras quando a lua cheia brilha e cantam e dançam para fazer o Jurutaí cantar. Eles sabem que cantar a mais bela canção que se conhece é a melhor maneira de se livra datristeza. E acreditam que deveríamos acender fogueiras no coração quando o jurutaí dentro de nós se cala”.

  • Recontada por Sean Taylor. Cobra-grande: história da Amazônia. Trad. Maria da Assunção Rodrigues. São Paulo: edições SM. 2008.p. 8-9.

Clerisvaldo B. Chagas, 29 de novembro de 2017

Crônica 1.791 – Escritor Símbolo do Sertão Alagoano